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São Benedito, Irmandades e Confrarias - A Herança Cultural Afro-Capixaba

Andor que transporta a imagem de São Benedito nos festejos da Irmandade - Igreja do Rosário Vitória

Aqui é dada uma mostra da forma como, ao longo do tempo, sob o domínio da Igreja Católica, os negros foram atraídos e incentivados ao culto a São Benedito, principalmente, e de outros santos. Assim, muitos grupos negros ficaram organizados em Irmandades e Confrarias, que, mesmo sob rígido controle, davam espaço para as manifestações culturais e religiosas negras, embora tendo como propósito eliminar seus conteúdos africanos e substituí-los pelos católicos. Dessa forma, a Igreja Católica dava sua contribuição ao Estado escravocrata e racista, tentando, através da catequese, entregar aos escravistas um negro dócil e sem memória, a não ser que esta fosse a imposta pela dominação ou a ela fosse útil.

Nesse sentido é que se pode compreender o grande zelo do catolicismo frente aos negros até o fim da escravidão e o total desinteresse após 1888, a ponto de as antigas Irmandades e Confrarias terem sido praticamente esquecidas, quando não extintas, mesmo contra a vontade dos negros que nelas permaneceram por força das tradições e devoções enraizadas.

Uma capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário foi erguida, em Vila Velha, em 1561. Logo, é de se pensar que nessa época passou a existir também alguma Confraria ou Irmandade de escravos negros livres. A Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, no Espírito Santo, somente foi devidamente observada em 1775(83).

A Irmandade promovia a reza do terço no primeiro domingo de cada mês e saía em procissão cantando solenemente o rosário, cujos mistérios eram contemplados colocando-se o andor no chão das calçadas. Embora houvesse permissão do Império do Brasil para a realização dessas procissões e rezas do terço, elas foram proibidas em 1885 pelo Arcipreste do Espírito Santo.

Fazer parte de uma Irmandade do Rosário dos Homens Pretos no Espírito Santo, a exemplo de outros lugares do Brasil, era para os escravos um recurso de pseudo ou passageira liberdade, de garantia de sepultura em um lugar sagrado, de participar das atividades religiosas, de poder ajudar na promoção de alforria para outros negros. Tudo era feito em conjunto com outras atividades, como Puxada de Mastro, Reisado, Congo, revivendo e reconstruindo parte da vida na África.

Em 1833, à devoção do Rosário dos Homens Pretos, juntou-se a de São Benedito, cuja preciosa imagem foi roubada do Convento de São Francisco.

Desse acontecimento havido na vida social e religiosa na Cidade da Vitória, resultou uma disputa entre os devotos do Santo. De um lado a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, do outro lado a Irmandade de São Benedito do São Francisco que disputa pela fé e honra de realizar as festas para o Santos transformaram-se em Partidos político-religiosos que, com o tempo, tornaram-se mais politicamente exaltados que religiosamente piedosos. Eram o Caramuru e o Peroá(84).

 

Sobre a relação, em São Mateus, entre a devoção a São Benedito e a luta e resistência contra a destruição física e cultural dos negros, processo que pode ser generalizado para todo o Estado, Maciel de Aguiar diz que

os negros, ali radicados, originários de Angola, Cabinda, Moçambique, Congo e Benguela, não abandonaram por conta própria as suas crenças africanas, mas por simbiose, tiveram que se adaptar, por influência de missionários portugueses, à religião católica, ressaltando-se então a devoção a São Benedito, já que os negros escravos se identificavam plenamente com ele... durante o século passado, os negros absorveram o catolicismo, já que São Benedito havia assumido o papel de defensor dos movimentos abolicionistas, defensor dos quilombos, dos revolucionários e escravos(85).

 

O descaso das chamadas autoridades no trato da religiosidade negra também foi destacado por Elmo Elton, quando ele afirma que, atualmente, a devoção de São Benedito, em Vitória, está sendo apagada

mesmo porque não é incentivada pela arquidiocese que mantém a Igreja do Rosário, onde está a imagem do Santo, estando sempre de portas fechadas, ali não se celebrando missas ou ofícios, sequer na data festiva... não tanto pela falta de apoio dos componentes da Irmandade... mas certamente pelo desinteresse em incentivar-lhes... as manifestações religiosas, sobretudo as de caráter mais popular(86).

Entretanto, a devoção cresce e se espalha, juntamente com outras manifestações culturais negras, por todo o Estado, já que tiveram, ultimamente, um novo alento, surgido com a movimentação ocorrida por causa das comemorações do Centenário da Lei Áurea e das organizações de defesa da cultura popular e fiéis devotos do Santo.

Bernadete Lyra, comentando a relação entre a devoção a São Bendito e o Ticumbi, observou que

no pensamento negro, a religião jamais vem separada da sociedade, da razão ou da vida. No universo negro, a filosofia, a teologia, a ciência social, o direito, a medicina, a agricultura, a psicologia, a vida e a morte, se fecham em círculo lógico do qual nada poderá ser extraído sem que se ponha em risco a estrutura mesma do sistema. A unidade é ela mesma responsável para que no Ticumbi o elemento místico-religioso esteja mesclado à vida social do grupo e concorra para que, ao lado das conotações religiosas, transpareçam formas de representação da realidade social...(87)

Aliás, ela vai mais fundo na questão ao abordar a manipulação por parte da Igreja Católica que, ao mesmo tempo em que combatia os cultos originais, procurava substituí-los pelos cultos a São Benedito.

Os escravos, pela separação religiosa entre seus ritos e os de seus senhores, foram forçados à conscientização de sua raça. Para o negro, São Benedito tornou-se logo um parente. Esse traço, ver no santo alguém da família, é característica da cultura negra. O nagô, por exemplo, enxerga em cada indivíduo parte da família da linhagem de Orixá... Dessa forma, São Benedito passou a ser filho de Zambi...(88)

E o mesmo santo passou a ser também parte das instituições sociais e, logo, das manifestações culturais da parcela negra oprimida pela colonização católica.

Assim, pode-se dizer que presença da devoção a São Benedito tem sido traço marcante nas diversas manifestações culturais negras. Contudo, essa é também uma evidência do massacre cultural, perseguição e marginalização da religiosidade original africana, tentando substituí-la por aquela trazida pelo colonizador, impondo seus deuses, credos, mitos e ritos.

Depois do fim da escravidão, o catolicismo não viu no negro mais nada de interesse foi, aos poucos, procurando restringir sua presença junto aos cultos católicos, inibindo e boicotando os cultos a São Benedito, as Irmandades e Confrarias de negros. Mesmo assim, as Irmandades e os cultos resistiram e ficaram, muitas vezes, marcados por lutas para fazer valer sua sobrevivência. Aliás, não são poucas as histórias de brigas de negros com padres, na luta para fazer valer seus direitos de fiéis e devotos de São Benedito.

Em uma notícia publicada em A Tribuna, de 28 de dezembro de 1988, pode-se ler que a festa de São Benedito decai, Reduziu ontem o brilho da festa de São Benedito, realizada desde 1833 na Igreja do Rosário, no Centro de Vitória.

A Igreja de São Benedito, mais conhecida como Igreja do Rosário, foi fundada em 14 de dezembro de 1765 pelos jesuítas, mas só em 1833 foi criada a Irmandade, que até hoje promove festas e organiza bazares assistenciais. O número de devotos do Santo aumenta a cada dia. Segundo Nelce Rios, ele é um preto milagroso e quem acredita nele consegue tudo, garante ela.

A festa de São Benedito este ano teve apenas uma procissão. Nem mesmo a banda da Polícia Militar do Espírito Santo, que há anos anima os festejos, esteve presente ontem. A solicitação foi feita... através de ofício, mas não houve resposta.

Apesar dos problemas que enfrenta, a Irmandade conseguiu realizar ontem a procissão em homenagem a São Benedito. Entoando cânticos e orações, os fiéis saíram, às 18 horas, da Igreja do Rosário e seguiram pelas Graciano Neves, Sete de Setembro, Dom Marcelino e São Francisco até a Catedral de Vitória, onde foi celebrada a missa.

Após a missa os fiéis levaram o andor de São Benedito de volta à Igreja do Rosário, passando pela Rua Dionísio Rosendo e Praça Costa Pereira. Durante o percurso muitos devotos soltaram fogos.

Havia muitas janelas enfeitadas com arranjos de flores.

A festa que tradicionalmente é comemorada há 155 anos, não tem mais o brilho de anos anteriores. As mulheres da Irmandade continuam se vestindo de preto e usando fitas roxas, enquanto os homens vestem bege e lilás. Mas hoje não há mais a presença da banda, não há quermesses, nem leilão.

Para os devotos de São Benedito, qualquer sacrifício vale a pena para render graças ao Santo milagroso. Nem mesmo o calor forte desanimou os presentes à igreja do Rosário na tarde de ontem. Para eles, o que conta é agradecer ao Santo as graças recebidas este ano.

Pode-se concluir que, embora tenha sido destruído muito do que fora a original religiosidade negra, as Irmandades e os cultos a São Benedito foram um espaço para um estabelecimento e preservação de importantes aspectos do universo cultural negro. Verifica-se também que mesmo o culto a São Benedito foi adaptado a uma nova realidade, isto é, à realidade da vida dos negros, sendo absorvido e transformado, findada a escravidão, em um culto de pobres. Nessa medida, foi discriminado e mereceu o descaso. Mas não desapareceu, pelo contrário, continua forte, e, mesmo sem o incentivo da Igreja Católica, a devoção a São Benedito cresce entre os pobres brancos e negros, E mais: com o aumento da conscientização e luta contra a discriminação no início dos anos 90, aliados a outras manifestações culturais como Congo, Jongo, Alardo, Ticumbi, Festa do Mastro, Caxumbu e outras que têm em São Benedito forte referência, por força da participação e ação popular, o culto ao Santo está crescendo e ganhando amplitude, principalmente por todas as regiões já conhecidas como de grande presença populacional negra.

 

NOTAS

(83) Novaes, 1963, p. 35, 36 e 97 a 101. Especificamente sobre a Igreja do Rosário pode-se ver ELTON, Elmo. Velhos templos de Vitória & outros temas capixabas. Conselho Estadual de Cultura. Vitória. 1987, p. 67 a 75.

(84) Novaes, 1963, p.98. Sobre o episódio dos Caramurus e Peroás pode-se ver, entre outros, Novaes, sem data, p. 172 a 180.

(85) ELTON, Elmo. São Benedito. Sua devoção no Espírito Santo. Vitória. DEC/ES e MINC. 1988. P. 53 e seg.

(86) Elton, 1988, p. 53 e seg.

(87) Lyra, 1981, p. 84.

(88) Lyra, 1981, p. 85 e 86.

 

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Fonte: Negros no Espírito Santo / Cleber Maciel; organização por Osvaldo Martins de Oliveira. –2ª ed. – Vitória, (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2021

 

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