Morro do Moreno: Desde 1535
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Viagem ao Espírito Santo (1888) - Princesa Teresa da Baviera (PARTE II)

Guarapari - Muquiçaba

Hoje de manhã, às 10 horas, o nosso vapor estava ancorado na latitude 20° 50’, defronte ao emboque do rio Itapemirim(26). Depois que atravessamos o emboque do rio Itabapuana, navegamos ao longo da costa do Espírito Santo, ladeada de diversas montanhas que iam até 30 a 40 km terra adentro até Vitória.

O rio Itapemirim é um rio litorâneo de bela aparência, em cujas margens do lado sul, a aproximadamente 3 km acima do desemboque no mar, se eleva a vila de mesmo nome. Na foz propriamente dita, situa-se um pequeno vilarejo chamado Barra, formado somente por uma igreja e algumas casas, mas possuindo nada menos do que uma biblioteca com jornais em alemão e revistas alemãs. A provável explicação poderia ser a colônia próxima, Rio Novo, da qual o rio Itapemirim é a via de saída, onde também moram alemães. As montanhas de gnaisse(27) se agrupam de forma muito linda por detrás das margens do rio cobertas de floresta fechada. Em grande parte trata-se de cadeias de montanhas de formação fantástica, que se elevam na serra de Itapemirim até uma altura de 1.400 m, das quais a montanha do Itacolomi(28), localizada em Cachoeiro, se sobressai em forma de um dedo gigantesco apontando para o céu.

A barra do Itapemirim é de difícil acesso e somente navios de baixo calado conseguem chegar ao rio, que se torna navegável a cerca de 70 km antes da embocadura. Chegamos em terra com uma lancha, atravessando uma forte ressaca e passando pelo meio de uma série de recifes que haviam adquirido forma arredondada pela ação do movimento das águas e eram ocupados por muitas gaivotas. Alguns veleiros e canoas vagavam sobre a superfície do rio estreito.

Depois de duas horas, as quais aproveitamos para inspirar um pouco do ar da biblioteca da Barra, o nosso vapor prosseguiu viagem ao longo da costa, em direção ao norte. Depois de mais duas horas, em que contávamos sempre com a visão da terra firme, o Maria Pia atracou numa pequena baía no emboque do rio Guarapari. A vila de mesmo nome, que deve sua origem a uma missão tupinambá e que ainda conta com muitos moradores indígenas, situa-se em grande parte atrás das rochas das margens, escondida no meio de uma bela paisagem montanhosa. Passando no meio de diferentes recifes, chegamos até o local conhecido pelo clima insalubre, cujo porto, no entanto, é um dos melhores da costa, permitindo a entrada de navios de 5 m de calado. Diante de Guarapari, nas margens da silenciosa e pequena baía, encontram-se as casas de barro vermelho cobertas de palha da aldeia de Muquiçaba.

As modestas moradas são sombreadas por árvores e atrás delas estendem-se elevações de gnaisse e argila, cobertas de vegetação. A baía é fechada em sua volta por montanhas que apresentam uma configuração como a dos Alpes e, nesse lugar, chegam até bem perto da costa, formando um arco. Em Guarapari, que exporta peixes salgados, um pouco de algodão, madeira para construção e muito bálsamo, não permanecemos por muito tempo, de forma que tivemos que ver a paisagem pitoresca desaparecendo aos poucos diante dos nossos olhos. À nossa direita, um cinturão de recifes achatados; a costa próxima, ao longo da qual se localiza a bela serra de Guarapari, que se estende até 30 km em direção ao interior do território.

Navegamos, portanto, para o norte, em direção à cidade de Vitória. Ao anoitecer abria-se, a oeste, a baía de Vitória ou do Espírito Santo(29), que na entrada tem uma largura de algumas milhas marinhas, e a seguir, três milhas terra adentro. Essa baía certamente é a mais importante de toda a província, não, porém, a melhor para os navios. Em sua parte externa, em direção ao mar, ela oferece pouca proteção, e a entrada de navios, principalmente para o canal de Vitória, é muito difícil. Além disso, somente navios com calado de 3,5 m podem ancorar nela(30).

Na ponta sudeste do território que envolve a baía, eleva-se o Morro do Moreno, dominando a entrada. Trata-se de uma elevação cônica de gnaisse, de 210 m de altura. Ligada a esta, na direção oeste, segue-se uma pequena elevação de 80 m de altura, em cujo cimo está situado o antigo mosteiro Nossa Senhora da Penha, literalmente formado de rocha. A oeste da última elevação, a linha da costa é profunda, formando a baía de Vila Velha. Tanto aqui como na baía externa, ornadas de grandes e pequenas ilhas, a água mede apenas 5 m em suas partes mais profundas. Entre a Ilha do Boi e a costa sul da baía, situa-se a entrada para o canal que conduz a Vitória, estendendo-se terra adentro na direção oeste. Aqui o território se projeta em ambos os lados, à esquerda, com a terra firme, à direita, com a ilha do Espírito Santo(31). A passagem pela água afunila-se para aproximadamente 180 metros. Recifes e ilhas íngremes de gnaisse cobertas de bromélias representam um perigo para a navegação. No lado sul, eleva-se o Pão de Açúcar(32), com cerca de 130 ou 140 m de altura, perpendicular ao fluxo das águas, onde a água atinge uma profundidade considerável. A seguir, o canal alarga-se novamente, formando o excelente e espaçoso porto de Vitória, cuja água é salobra, atingindo de 6 a 10 m de profundidade. Na margem norte do porto, na Ilha do Espírito Santo, a cidade se estende morro acima, banhada pelo fluxo das águas não somente ao sul como também a oeste. A oeste de Vitória, ou seja, no ângulo norte em relação ao canal de entrada, estende-se uma laguna denominada de Lameirão, na qual desembocam diversos rios, dos quais o mais importante é o rio Santa Maria.

Já estava escuro quando nosso vapor finalmente conseguiu passar pelo longo e estreito canal de entrada, ancorando diante de Vitória. Assim sendo, fomos obrigados a passar a noite a bordo, embora centenas de luzes brilhassem nas casas, acenando de modo convidativo.

 

NOTAS

(26) Itapemirim é uma palavra da língua tupi, que significa pequeno caminho de pedra.

(27) Formação rochosa das mais antigas do mundo resultado da deformação de sedimentos arcósicos ou de granitos encontrada, por exemplo, no Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

(28) Itacolomi é um nome de montanha que se repete com frequência.

(29) Mesmo fontes brasileiras citam a baía de modos diferentes. Veja Carvalho Daemon. Província do Espírito Santo, p. 474; Silva Coutinho. Breves noticias sobre a provincia do Espírito Santo, p. 3; Ayres de Cazal, Corographia brasílica, II, p. 58.

(30) Fontes brasileiras, ao contrário (Carvalho Daemon, Província etc., p. 474 e Silva Coutinho, Breves etc.) descrevem a baía como uma das melhores do mundo, ou seja, bem protegida e também suficientemente profunda mesmo na maré baixa.

(31) Também essa ilha tem diversos nomes. Macedo, Corographia do Brasil, p. 133, a denomina de Ilha do Espirito Santo, Carvalho Daemon, Província etc., p. 479 de Ilha da Vitória.

(32) A autora se refere ao Penedo. (NO)

 

PRODUÇÃO

 

Arquivo Público do Estado do Espírito Santo

 

Coordenação Editorial

Cilmar Franceschetto

 

Revisão

Julio Bentivoglio

 

Apoio Técnico

Alexandre Alves Matias

Jória Motta Scolforo

Maria Dalva Pereira de Souza

 

Agradecimentos

André Malverdes, Levy Soares da Silva, Cláudio de Carvalho Xavier (Biblioteca Nacional), Adriana Pereira Campos, José Eustáquio Ribeiro, Adriana Jacobsen e a Hadumod Bussmann pelo fornecimento do diário de Maximiliano von Spiedel.

 

Editoração Eletrônica

Lima Bureau

 

Impressão e Acabamento

Dossi Editora Gráfica

 

Fonte: Viagem pelo Espírito Santo (1888): Viagem pelos trópicos brasileiros = Meine reise in den brasiliaischen tropen: / autoria da Princesa Teresa da Baviera - Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2013
Autora: Princesa Teresa da Baviera
Tradução: Sara Baldus
Organização e notas: Júlio Bentivoglio
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2020

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