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A Limpeza Pública e a Domiciliar – Por Areobaldo Lellis Horta

Os quibungos (“tigres”), eram lançados ao mar, nos vários cais, às caladas da noite, quando adormecida a cidade - Fonte: Gessimar Machado

Por muito tempo a cidade se conservou sem qualquer serviço regular de limpeza pública e domiciliar, assim compreendida a coleta de lixo e detritos outros em domicílio. Assim, o lixo era despejado por iniciativa própria dos moradores em determinados pontos da cidade, salientando-se a velha barreira de São Gonçalo, na época coberta de denso matagal até a orla da antiga Rua do Egito, hoje Francisco Araújo; Pelames, atualmente ruas Coutinho Mascarenhas e Gama Rosa; Campinho, hoje Parque Moscoso, além dos próprios quintais das residências, nos quais os detritos se acumulavam. Do mesmo modo, as águas de serventia eram lançadas nos quintais, sendo lentamente absorvidas pelo terreno, quando não se transformavam em lamaçais, que os moradores mais cuidadosos faziam cobrir de areia. No que diz com as matérias estercorais, eram elas acumuladas em latas de querosene ou aparelhos de barro, denominados quibungos, de altura das referidas latas, sendo, quando cheias, lançadas ao mar, nos vários cais, às caladas da noite, quando adormecida a cidade. O público apelidou tais recipientes de "tigres".

Só nos primeiros anos da República foram feitos contratos para a coleta do lixo em domicílio, o que era feito em carroças tiradas por muares, o que sempre continuou a ser feito por particulares, até passar para a Prefeitura. Foi, também, naquela época, contratado com um Sr. Fontoura o serviço de despejo das matérias estercorais, com a distribuição, pelos domicílios, de barris fechados, que eram depois recolhidos em carroças apropriadas, para o despejo no mar. Esses barris ficaram conhecidos por "Tubos Fontoura", durando o seu uso muito pouco tempo. Voltou-se então aos antigos métodos, até a administração Jerônimo Monteiro, quando foi construída a atual rede de esgotos. O regime das fossas, ainda hoje adotado na Praia Comprida, Suá e outros pontos, até onde não chegou aquela rede, não era adotado na cidade, ou devido a seu subsolo não oferecer margem, por pedregoso, ou por qualquer outra razão.

Dada a deficiência dos serviços de higiene pública, a cidade apresentava, de quando em quando, surtos de tifo, sendo endêmico o paludismo, pela abundância de mosquitos que, como ainda hoje, infestam a cidade.

 

Antes do mais

 

O presente trabalho, com o qual concorro ao prêmio "Cidade de Vitória", instituído pela Lei Municipal n°. 20, de 8 de setembro de 1946, é um modesto subsídio ao estudo do desenvolvimento da nossa Capital, em suas condições urbanísticas, métodos educacionais de ordem cultural e social, de costumes e tradições ao tempo de minha infância e juventude.

Se valores intelectuais do passado, como padre Antunes de Siqueira, Daemon, Afonso Cláudio e outros de idênticos assuntos se ocuparam para o conhecimento dos vindouros, o fizeram em relação às mesmas épocas de sua juventude. Deixaram, por isto, uma solução de continuidade compreendendo as duas últimas décadas do século dezenove e a primeira do século vinte. É essa lacuna, que pretendo preencher despretensiosamente, com o que a memória me conservou daquela fase de minha vida. Procurando realizá-lo, não posso fugir ao dever de uma homenagem ao berço da nossa evolução - Vila Velha — onde passei parte da minha meninice e à qual a Vitória está presa por uma série de caras circunstâncias, homenagem representada nas crônicas que dão corpo a este trabalho pelo que a seu respeito escrevi.

Vitória, junho de 1951.

O AUTOR

 

Fonte: A Vitória do meu tempo – Academia Espírito-Santense de Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 2007 – Vitória/ES
Autor: Areobaldo Lellis Horta
Organização e revisão: Francisco Aurelio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho/ maio/2020

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