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A psicose das minas, final do Século XVII

Ouro

Toda a colônia luso-americana vivia, então, dias agitados. As bandeiras partiam umas após outras. Cada navio que zarpava em direção ao Reino levava amostras de novas pedras achadas no sertão e promessas – muitas promessas – de próximos e sensacionais descobrimentos. Antônio Raposo Tavares, os Bartolomeu Bueno, Fernão Dias Pais, Borba Gato, escreveram epopéias imortais nas florestas nunca dantes palmilhadas. Parece que toda a colônia estava presa da psicose das minas.

A Coroa e seus delegados no Brasil souberam aproveitar o momento excepcional, juntando ao aceno das grandes riquezas – que vinha das brenhas sertanejas – promessas de mercês, títulos de fidalguia e mando, não se esquivando o próprio soberano de escrever diretamente aos mais famosos e ricos súditos da colônia americana, no que foi secundado pelos seus delegados da Bahia e do Rio de Janeiro, provocando emulação entre os sertanistas de todos os meridianos.

O Espírito Santo, como era natural, seria das regiões preferidas por aqueles audazes sertanistas que tudo sacrificavam à idéia das minas.

Ouro! Ouro!

Afinal, em 1692 (ou 1693) chegou a Vitória o primeiro ouro descoberto nestas bandas.(37) Antônio Rodrigues Arzão,(38) bandeirante paulista, foi o homem que revelou a existência do cobiçado metal no território capixaba, ou proximidades, segundo a atual divisão territorial do país.

 Ao que reza a tradição, das três oitavas do fulvo metal trazidas por Arzão se fizeram duas memórias(39) – uma foi oferecida ao capitão-mor João Velasco de Molina, a segunda guardou-a o descobridor.(40) Rocha Pombo informa que Arzão recebeu da Câmara “as propinas que competiam aos que assim serviam a el-rei” e tentou ir de novo ao rio Casca; mas os seus males não lho permitiram, nem mesmo lhe restava coragem para vencer outros embaraços. Voltou por mar a Santos e dali seguiu para Taubaté – sua terra natal – onde logo faleceu.(41)

Inicia-se uma idade nova na História do Brasil – é o ciclo do ouro que começa.

Assinale-se que, além das entradas de maior repercussão, já citadas, o Espírito Santo foi palco, também, dos trabalhos de João de Matos que, por ordem do famoso D. Rodrigo de Castelo Branco, esteve no sertão da capitania, “não se seguindo outro efeito que aumentar as despesas da Fazenda”, comentou Silva Lisboa.(42)

Febre amarela, piratas, jesuítas

No derradeiro ano do século XVII a capitania foi varrida por uma epidemia menos comum.(43) Devia ser manifestação local do célebre primeiro surto de febre amarela verificado no Brasil e que teve origem em duas barricas de carne salgada vindas de São Tomé para Recife.(44)

Em 1692, uma nau de piratas ancorou no porto de Vitória e fez-se novamente ao mar depois de desembarcar um emissário, que se avistou com o capitão-mor Velasco de Molina. Os fortes estavam desprovidos de munições, o que provocou urgente remessa de quarenta arrobas de pólvora por ordem do governo da Bahia.(45)

Mofinos – excessivamente mofinos – os resultados do trabalho de cem anos. Além dos dias de Francisco Gil de Araújo, em que a capitania viveu animada por generosas idéias de progresso, pouco mais se fez que manter a faixa de praia cujos limites foram traçados pelos pioneiros.

Os jesuítas, que, à sua entrada na terra, prometiam ser os chefes naturais da penetração, preferiram instalar-se nas suas propriedades rurais, de onde não saíam mais, como outrora, para os ofícios da catequese. Agora se punham à frente de bandeiras, caçando minas...

 

NOTAS

(37) - MÁRIO FREIRE, a propósito da denúncia de Arzão, escreveu: “Seria do Espírito Santo? Naquela época, vinham de Cataguases, no território de Minas Gerais, notícias positivas de felizes descobrimentos” (Bandeiras, 10).

– A tradição aponta a Casa da Casca (atual Abre Campo, Minas Gerais) como o “lugar onde colheu o primeiro ouro das Minas o bandeirante Antônio Rodrigues Arzam, em 1693” (TRINDADE, Instituições, 85).

– “Na época de 1693 veio Antônio Roiz de Arzão, natural da Vila hoje cidade de S. Paulo, homem sertanejo conquistador de gentio dos sertões da Casa da Casca, com outros muitos naturais das outras vilas de serra acima, em cuja paragem esteve aquartelado alguns anos, onde faziam entradas e assaltos ao gentio mais para o centro do sertão.

E vendo por aquelas veredas alguns ribeiros com disposição de ter ouro, pela experiência que tinha das primeiras minas, que se tinham descoberto em S. Paulo, Curitiba e Parnaguá, que ainda hoje existem, dando suas faisqueiras e aumentada povoação com ministros de Justiça e entendida comarca de ouvidoria, fez algumas experiências, com uns pratos de pau ou de estanho, e foi ajuntando algumas faíscas pôde apanhar com aqueles débeis instrumentos com que podia fazer, sem ferramenta alguma de minerar.

E juntou três oitavas de ouro, em tempo acossado do gentio que o combatia com muita fúria, e maior falta de mantimentos, rompeu o sertão para a parte da Capitania do Espírito Santo, aonde chegou escapando de grandes perigos do gentio, fomes e esterilidade com cinqüenta e tantas pessoas que o acompanhavam, entre brancos e carijós domésticos de sua administração e dos mais companheiros, nus e esfarrapados, sem pólvora nem chumbo, que é o único remédio com que os sertanistas socorrem as faltas de víveres, com a grande inteligência e trabalho que aplicam caçando as aves e feras do sertão para se sustentarem.

A Câmara da dita Vila que tinha, como mais portos de mar, ordem de Sua Majestade de que semelhantes conquistadores e diligentes de descobrimento de haveres fossem socorridos de todo necessário de que carecessem, razão por que a Câmara daquela Vila lhes assistiu com todo o vestuário e provimento para se reformarem com toda a grandeza em satisfação das ordens de Sua Majestade que naquele tempo muito favorecia aos vassalos que o serviam em semelhantes empregos.

Fez patente Antônio Roiz Arzão as três oitavas de ouro que levava ao capitão-mor regente e delas mandaram fazer duas memórias que uma ficou ao dito capitão-mor e outra ao dito Arzão. E querendo este, ainda que enfermo e maltratado dos trabalhos passados do sertão, tornar a entrar pelo mesmo caminho por onde saiu a conquistar o gentio e a estabelecer as minas com mais reforçadas diligências, o não pôde fazer por não achar naquela Vila quem quisesse acompanhá-lo para reforçar o poder de que carecia, se resolveu a passar por mar ao Rio de Janeiro e daí para São Paulo” (Notícias dos primeiros descobrimentos, apud AFFONSO DE E. TAUNAY, Jornal do Comércio, vinte e três de julho de 1946).

(38) - Antônio Rodrigues Arzão – Filho de Cornélio de Arzão e de uma filha de Tenório de Aguilar. Sobre Cornélio de Arzão, informa AFFONSO TAUNAY: “minerador flamengo, ao Brasil trazido por D. Francisco de Sousa, com quinhentos cruzados de salário anual – ordenado para a época enorme – e estabelecido em S. Paulo em fins do século XVI”; “reuniu grandes cabedais, perdidos numa demanda com os jesuítas, pelos anos de 1620” (São Paulo no Século XVI, 208-9).

(39) - Anéis, conforme MÁRIO FREIRE, Capitania, 84; ROCHA POMBO, HB, VI, 192, nota 2.

(40) - RUBIM, Memórias, 232; DAEMON, Prov. ES, 126.

(41) - HB, VI, 192. – CARVALHO FRANCO, sem apontar a fonte em que se informou, assevera: “Antônio Rodrigues de Arzão, se descobriu ouro na região do Caeté, em 1693, como querem alguns escritores, não deu importância ao achado, pois sobreviveu ao menos cerca duma vintena de anos” (Bandeiras, 173).

(42) - Apud MÁRIO FREIRE, Bandeiras, 10.

(43) - LEITE, HCJB, VI, 140.

(44) - CALMON, Hist. Brasil, II, 418.

(45) - DH, XI, 181; DH, XXXII, 300.

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, julho/2017

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