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A TOCA (Literária)

Desembargador Antônio Francisco Coelho - Fonte: Luiz Paulo Rangel

A Toca, localizada na rua Luciano das Neves, quando ganhou este nome estava restrita ao trecho que ia da rua Sete de Setembro até o final, onde moravam os Bernardes. Ela confundia-se com uma estrada de barro, um pouco à esquerda, que ia para a Barra do Jucu, e que hoje é denominada avenida Professora Francelina Carneiro Setúbal. Daí para a frente, considerando-se a linha reta da rua em referência, existia apenas um caminho aberto no meio de uma capoeira e logo mais adiante uma lagoa com fundo arenoso e águas rasas. Transposta a lagoa de pouca largura, prosseguia-se pelo mesmo caminho que dava origem a outras trilhas. A esse local denominava-se Cruz do Campo, que mais tarde, depois de densamente povoado, se tornaria conhecido como bairro de Divino Espírito Santo.

A área na qual se situava a Toca, na rua Luciano das Neves, não chegava a dispor de dez casas. Quem lá morava era considerado um aventureiro e pessoa de espírito desbravador. A energia elétrica mal chegava à metade da sua extensão e a iluminação pública não existia. Esses novos moradores tinham, geralmente, parentes que residiam no centro de Vila Velha, nas imediações das linhas de bonde.

Na cidade, pouco populosa, quase todos se conheciam, e quando não, sabiam pelo menos da existência uns dos outros. Para citar apenas um exemplo, lembramos um cidadão morador da Toca chamado Francisco Ferreira Coelho. O terreno em que ele construiu sua casa era considerado grande, tanto de frente quanto de fundos. Lá ele possuía algumas vaquinhas de leite, um pequeno aviário e alguns animais domésticos, um pomar e uma horta. O Chico Coelho, como era popularmente conhecido, tinha as suas raízes mais fortes fincadas no centro da cidade. Destacava-se dentre seus parentes o Desembargador Ferreira Coelho, morador de confortável casarão no alinhamento — como quase todas as casas da época — da rua Luciano das Neves.

Bem relacionado na cidade, Chico Coelho recebia muitas visitas em seus domínios, tanto de parentes e amigos como de pessoas desconhecidas. Dessas idas e vindas à casa do Chico Coelho surgiu o nome "Toca". Bastou que, num determinado dia perdido no tempo, alguém que se dirigia à sua casa para lhe fazer a costumeira visita se encontrasse com outra pessoa e estabelecesse com ela um diálogo mais ou menos assim:

— E aí, há alguns dias que não o vejo. Tudo bem com você?

— Tudo bem, obrigado. E você, como está?

— Tudo em ordem. Só quero saber para onde você vai com tanta pressa.

— Estou indo à Toca, — respondeu o outro, mais enigmático do que preciso.

— Toca?

— Sim, à Toca.

— Que lugar é este? Moro há tantos anos aqui e ainda não o conheço e nem sei onde fica.

O outro, gostando do rumo da prosa, continuou mais misterioso ainda e saiu-se com esta:

— Por acaso você sabe em que lugar se recolhe o coelho?

— Claro que sei. Vive e se esconde numa toca.

— Então estamos entendidos, amigo. Vou à casa do nosso amigo comum, o Chico Coelho. Se ele é Coelho, mora na Toca.

Os dois amigos, trocado o diálogo, deram boas risadas. A conversa tomou conta da cidade, correndo de boca em boca, e o nome Toca pegou.

A princípio era empregado para identificar a propriedade de Chico Coelho, para mais tarde servir de referência àquela área da rua Luciano das Neves. Depois a Toca passou a ser freqüentada por outras pessoas que não se dirigiam apenas à casa de Chico Coelho, que foi totalmente esquecido, mormente nos dias atuais.

Depois de tanto tempo com essa denominação inquestionável e sem batismo formal, o nome Toca caiu quase em completo esquecimento, sendo a localidade apenas conhecida como rua Luciano das Neves com os seus respectivos números, um local ou uma rua como outra qualquer.

O mesmo povo que generosamente homenageou um dos seus primeiros moradores, mutável através das gerações, preferiu, por certo, adotar o nome da rua com os seus números e casas comerciais a lembrar que ali existiu um bairro de maior abrangência identificado como Toca.

 

Fonte: Ecos de Vila Velha,2001
Autor: José Anchieta de Setúbal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2012

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