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Ano de 1871 – Por Basílio Daemon

Convento do Carmo, 1860 - Foto: Victor Frond

1871. Falece em janeiro deste ano, na cidade de Valença do Rio de Janeiro o importante fazendeiro do Cachoeiro de Itapemirim, capitão José Vieira Machado, morador em sua fazenda da Povoação, no distrito do Castelo, e onde outrora fora a povoação e sede da freguesia de Santana das Minas do Castelo.(723) Foi o capitão José Vieira Machado um dos primeiros a vir estabelecer-se naquelas ubérrimas matas e onde montou uma grande fazenda, tendo, a poder de trabalho, ajuntado alguma fortuna. Era um dos chefes do Partido Liberal do município e gozava influência legítima pelo seu caráter nobre, serviçal e caritativo. Ocupou diversos cargos de eleição popular, sendo por suas qualidades estimado de seus antagonistas; a sua morte foi bastantemente lamentada e sentida por todos.

Idem. No dia 5 de abril deste ano falece no Convento do Carmo desta cidade, vítima de uma hidropisia, frei Antônio de Nossa Senhora das Neves, prior do mesmo convento, cargo que ocupava desde 1853. O finado era filho da província, orador sagrado e bastante estimado; seu cadáver foi acompanhado por muitos amigos, parentes e ordens religiosas.(724)

Idem. No dia 12 de abril deste ano faleceu na Corte o bacharel Joaquim Coutinho de Araújo Malta,(725) inteligência robusta, e que na Academia de São Paulo fizera figura por seu talento reconhecido; era natural desta província, que o extremava e de quem muito esperava a bem de sua prosperidade e aumento, [e] era descendente direto do condestável Torquato Martins de Araújo Malta. O finado foi deputado provincial e advogava na Corte.

Idem. É removido por decreto de 29 de abril deste ano, da comarca de São João do Príncipe para a da Vitória, o juiz de direito bacharel Manoel Rodrigues Jardim, que entrou em exercício a 9 de novembro do mesmo ano, tendo somente servido 5 dias por ter entrado logo no gozo de uma licença, até ser removido, por decreto de 21 de fevereiro de 1872, para a comarca do Bananal.

Idem. Delibera o governo geral neste ano o assentamento de uma linha telegráfica nesta província, que prosseguindo para o norte unisse todas as províncias do império.(726) É nomeado, pois, para esse fim, no mês de junho deste mesmo ano, o hábil e ilustrado engenheiro César de Rainville que, tomando a direção dos trabalhos, deu começo ao assentamento da linha, que de há muito está concluída e funcionando, como bem poucas do império, tendo-se inaugurado todas as estações marcadas pelo governo.

Idem. Neste ano, nos meses de junho a agosto, visita o presidente da província bacharel Francisco Ferreira Correia as diversas vilas e cidades do norte e sul da província.

Idem. Declaram-se, em meados deste ano, nas freguesias do Cachoeiro, Alegre, Veado, Calçado e Itabapoana as terríveis epidemias de câmaras de sangue e febres perniciosas, fazendo inúmeras vítimas, a ponto de alguns cemitérios não poderem conter os cadáveres dos epidêmicos.(727)

Idem. No 1º de agosto deste ano, em uma casa de negócio à então rua da Alfândega, hoje do Conde d’Eu, de propriedade do negociante Isidro José Caparica, ateia-se fogo em uma porção de aguardente por descuido em haver-se deixado uma vela acesa; a não serem tomadas prontas providências teriam de lamentar-se grandes desgraças por explosões que se dariam provenientes de espíritos fortes e pólvora que havia na casa, talvez trazendo o desmoronamento e incêndio ao quarteirão inteiro. Felizmente nem se lamentou a perda de vidas nem grandes prejuízos houve, apenas algumas queimaduras e ferimentos pela prontidão com que a tempo se pôde extinguir o incêndio.

Idem. A 11 de agosto deste ano fina-se na Corte Brás da Costa Rubim,(728) nascido nesta capital e filho do antigo governador desta então capitania, Francisco Alberto Rubim. Investigador incansável, literato profundo, publicou diversos trabalhos históricos, cronológicos, principalmente sobre esta província, de que era filho dileto. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de que o finado era sócio e a que prestou muitos serviços, por proposta do Sr. J. Norberto de Araújo e Silva, que passou por aprovação unânime, suspendeu a sessão desse dia. As páginas dos Anais do Instituto Histórico estão cheias de trabalhos do ilustre espírito-santense, que durante sua vida não deixara de entregar-se à descoberta e investigação de fatos de nossa história, como sobre a vida e feitos de nossos maiores.

Idem. Dá a alma ao Criador na noite de 24 de setembro deste ano, rodeado de grande número de amigos, e sepultou-se no dia 25 o tenente-coronel Henrique Augusto de Azevedo,(729) fazendeiro do distrito da vila da Serra. Era o finado homem popular e talvez o chefe legítimo do Partido Liberal na província; extremado partidário, por vezes esquecera-se que antes de ser político era homem. Nos últimos tempos de sua vida, embora moço ainda, achava-se desgostoso da vida política por atos praticados por seus próprios companheiros e ingratidões cometidas por aqueles mesmos a quem tinha protegido e elevado. O finado gozava os foros de amigo dedicado, prestimoso e bastante estimado, [e] foi por isso sentidíssima a sua morte, sendo-lhe feitas as honras militares ao inumar-se o seu cadáver.

Idem. Falece no Hospital da Misericórdia, na noite do dia 29 de setembro deste ano, o vigário da freguesia de Carapina, padre Antônio Martins de Castro, que fora atacado de alienação mental. Era muito instruído e possuía memória excepcional, a ponto de repetir qualquer escrito desde que lhe fosse lido duas ou três vezes. Orador sagrado, contam que em uma ocasião, tendo um outro sacerdote seu amigo de pregar em uma festividade, lera-lhe na sacristia o sermão que compusera, pedindo-lhe seu parecer, pelo que pediu o padre Castro que lhe repetisse a leitura, o que aquele fez; subindo ao púlpito o padre Castro, que pregava em Vésperas, enquanto seu companheiro tinha de pregar ao Evangelho na festa do dia seguinte, subindo o padre Castro aos púlpitos recitou ipsis verbis o dito sermão, que há pouco lhe havia sido lido, o que causou admiração aos que sabiam do fato, zangando-se, por isso, bastante o seu companheiro.

Idem. Tendo os habitantes da vila de Guarapari, a expensas de uma subscrição, mandado vir uma imagem de Nossa Senhora da Penha, e estando a mesma imagem em Itapemirim, ali foram parte dos moradores buscá-la, conduzindo-a por terra até a povoação Meaípe, onde esperava maior número de habitantes daquela vila acompanhados de uma banda de música; seguiram ao outro dia até Guarapari, sendo a imagem recolhida à Matriz, onde se achava o reverendo vigário acompanhado de muitas pessoas com tochas acesas, o qual, com todas as cerimônias do ritual, recebeu-a e a colocou em uma peanha. No dia seguinte foi benta a mesma imagem, depois da missa do Espírito Santo, seguindo-se ao outro dia uma missa solene, saindo a imagem em procissão às 4 horas da tarde desse dia; à noite foi iluminada toda a vila, havendo ainda outros festejos.

Idem. Pela lei provincial nº 9, de 15 de novembro deste ano, é elevado à categoria de freguesia o antigo Aldeamento Imperial Afonsino, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição do Aldeamento Afonsino; esta freguesia ainda não foi até hoje provida canonicamente.

Idem. É sancionada a 11 de dezembro deste ano a lei provincial nº 30, concedendo ainda a quantia de 6:000$000 para coadjuvar a emancipação dos escravos de 12 a 35 anos, não excedendo de 1:000$000 cada um; no dia 7 de setembro do ano seguinte foram alforriados sete escravos de conformidade com a dita lei.

Idem. Por decreto de 15 de dezembro deste ano é nomeado chefe de Polícia desta província o bacharel Júlio Acióli de Brito, que não prestou juramento nem entrou em exercício, sendo dispensado a 24 de janeiro de 1872.

Idem. Por decreto de 15 de dezembro deste ano foi nomeado juiz de direito da comarca de São Mateus o bacharel José Ricardo Gomes de Carvalho, que prestou juramento a 21 e entrou em exercício a 23 de março do ano seguinte, sendo removido a 26 de abril de 1876 para a comarca de Areias, na província de São Paulo.

Idem. É expedido neste ano pelo ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, conselheiro Teodoro Machado Freire Pereira da Silva, uma circular aos cônsules do Brasil na Europa, declarando que os migrantes podiam escolher o lugar em que quisessem se situar ou estabelecer, oferecendo as colônias de Santa Leopoldina e Rio Novo, e para porto de desembarque o da Vitória, nesta província.

 

NOTAS

(723) O Espírito-Santense, 4 de fevereiro de 1871, p. 2.

(724) Idem, 13 de abril de 1871, p. 4.

(725) Idem, 21 de abril de 1871, p. 2

(726) Relatório lido no paço da Assembleia Legislativa da província do Espírito Santo pelo presidente o Exm. Snr. Doutor Francisco Ferreira Correia, na sessão ordinária do ano de 1871, Telégrafo Elétrico, p. 129-33.

(727) (a) O Espírito-Santense, 21 de abril de 1871, p. 2. (b) “Chegando ao meu conhecimento, por publicação que li no Espírito-Santense de 21 de abril, que grassava nas freguesias do Alegre e de Itapaboana, uma epidemia, que estava causando considerável mortandade...” [Relatório lido no paço da Assembleia Legislativa da província do Espírito Santo pelo presidente o Exm. Snr. doutor Francisco Ferreira Correa na sessão ordinária do ano de 1871, Salubridade Pública, p. 46]

(728) O Espírito-Santense, 30 de agosto de 1871, p. 1.

(729) Idem, p. 1, 27 de setembro de 1871.

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2019

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