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Carlos Fernando Monteiro Lindenberg (Nêni) e os Monteiro

Desfile em carro aberto pela Avenida Jerônimo Monteiro. Esq. para direita: Carlos Lindenberg, Eurico Dutra

O crime da rosa vermelha (título original)

 

Em fevereiro de 1916, quando aumentavam as greves e manifestações de protesto contra a carestia e a polícia invadia a sede da Confederação Operária Brasileira, no carnaval o povo cantava “o meu boi morreu, que será de mim, manda buscá outro, ô maninha, lá no Piauí”. Enquanto isso continuava a matança na Europa: ao fim de 1915, o exército francês havia perdido seiscentos mil homens, dos quais dezesseis mil eram oficiais. Em 1916, a batalha de Verdun, que durou seis meses, expunha um saldo de trezentos mil mortos. Dois milhões de soldados morreriam naquele ano; a Rússia, nos dois anos do conflito, já havia perdido três milhões e oitocentos mil homens.

Havia no Brasil nesse ano dezesseis faculdades de Direito, formando anualmente 408 bacharéis. Tobias Monteiro lamentava que num país essencialmente agrícola não houvesse escolas de agricultura, mas somente fábrica de doutores, particularmente bacharéis (desde 1910 funcionavam escolas profissionais de ensino prático imediato que não visavam apenas a fornecer diplomas e títulos de doutor: as escolas de Agricultura e Veterinária, as escolas de Aprendizes e Artífices e as escolas de Comércio, que formavam guarda-livros em vários estados). Os bacharéis ocupavam todos os postos públicos mais importantes, mesmo os técnicos e especializados, dos quais não tinham nenhum conhecimento. Tobias Monteiro aconselhava a mocidade a procurar o comércio, a indústria, a agricultura, em vez de “formar-se”. Mas era a cultura do bacharelismo: uma mania generalizada entre a classe média de formar os filhos dar-lhes de qualquer modo um título de doutor. Era uma vergonha um pai não formar pelo menos um filho; estaria no último degrau da respeitabilidade social e econômica. Ser doutor significava ascender socialmente e, conseqüentemente, ter uma chance para o enriquecimento. Ao doutor abriam-se todas as portas e os melhores cargos do funcionalismo.

A legislação do começo do século chamava os atuais exames supletivos de exames parcelados: no Ginásio Espírito Santo formava-se uma banca de sisudos catedráticos, vinha um fiscal do Rio (Osório Duque Estrada, autor da letra do Hino Nacional, foi um deles) e o aluno fazia as provas, parceladamente, obtendo ao fim, se aprovado, o diploma de bacharel em letras, que o habilitava aos cursos superiores. Nessa época, Nêni estudou com professores particulares e fez os exames das matérias que faltavam para terminar o curso ginasial. Ao mesmo tempo trabalhava como auxiliar na secretaria do Ginásio, ganhando 110 mil réis por mês.

No auge da guerra, ocorreu no Espírito Santo a Revolta do Xandoca, que era o apelido do político Alexandre Calmon. A princípio companheiro de chapa de Bernardino Monteiro como candidato à vice-presidência do estado, rompeu com os antigos correligionários, aliando-se ao outro candidato, José Gomes Pinheiro Júnior. Realizadas as eleições, os partidários de Pinheiro Júnior instalaram um Congresso Legislativo em Vitória sob a presidência de Joaquim Guimarães. Em 15 de abril, a oposição, com jagunços, assumiu a Câmara e o quartel na vila de Alegre e “promoveu desordens” em Cachoeiro. No dia 18, chegaram a Vitória cinqüenta soldados, sob o comando do capitão Miguel Ferreira Lima, “para guardar as repartições federais”.

A 21 de abril chegavam à capital o segundo tenente José Barreto e dois praças do destacamento de Colatina, feridos a bala pelos jagunços do coronel Alexandre Calmon. A 22 de maio foram cortados os condutores de energia elétrica da capital. A oposição tentou tomar o palácio do governo, o congresso e o quartel: a Força Pública reagiu, “as fachadas desses prédios ficaram crivadas de balas” e a redação do jornal A Tarde – de onde partiram os primeiros tiros – foi cercada pela polícia até que os jagunços, escondidos no local, se renderam ao capitão do Porto, entregando as armas e a munição. No dia 23 de maio, Bernardino assumiu o governo do estado. Pinheiro Júnior, porém, instalou um governo pessoal em Colatina, proclamando-a capital do estado, mas embarcou, em seguida, para o Rio, e daí para Teresópolis, onde clinicava. Calmon, o vice-presidente, agüentou até 29 de junho, quando se refugiou em território mineiro, seguido de um grupo de companheiros solidários.

Como o café ainda contribuía com 60% da receita total do estado, e reconhecendo que ele “era o resumo da história econômica do estado nos dias republicanos”, Bernardino Monteiro iniciou as estradas de Santa Leopoldina a Santa Teresa e de Castelo a Muniz Freire e encampou o Banco Hipotecário e Agrícola do Espírito Santo, que passou a ter direção autônoma.

Estabelecida a calma, apesar da guerra na Europa que fecharia os portos aos navios brasileiros, Bernardino Monteiro (ao sair do governo, em 1920, ele deixaria nos cofres públicos 8 contos e 500 mil réis) deu prosseguimento a uma idéia do irmão e antecessor Jerônimo: uma vez por semana, abria os salões de sua residência para a sociedade capixaba.

O Clube Vitória e o dos Boêmios passaram a ter freqüência diária, todo mundo animado com a vida social. O Teatro Melpômene registrava “noitadas agradáveis”, as regatas “se revigoram em competições festivas e interessantes. A juventude se exercita no jogo de futebol amador, em partidas famosas, disputadas entre os clubes Vitória e Rio Branco, ambos ambicionando popularidade maior”.

Cresce o número de estudantes capixabas que cursam escolas superiores na capital federal. Trens da Leopoldina e navios da Companhia Costeira fazem a ligação com a cidade do Rio de Janeiro. Até então o capixaba pouco viajava. “Os habitantes dos municípios do sul do estado, tributários do Rio, tornam-se freqüentes na ilha vaidosa e progressista.”

O cinema era então a mais popular das artes. A produção brasileira registrava Lucíola, baseado em livro de José de Alencar. Mas o cinema americano já exibia o clássico Intolerância, de W. D. Griffith. Mae Murray, Wallace Reid, Mary Pickford, Theda Bara, Harold Lloyd, Charles Chaplin, Nazimova, Clara Kimball Young, Edna Purviance, Norma Talmadge, Douglas Fairbanks, Mabel Norman, Lionel Barrymore eram nomes pronunciados, ora entre suspiros, ora com doçura, admiração e respeito. O cinema mudo exigia todo um ritual de gala: na ante-sala do Cine Central uma “orquestra de câmera se fazia ouvir com repertório de valsas vienenses”. O cinema escolhia os rumos da comédia (Harold Lloyd liderava com Sorte única, ao lado de Babe Daniels), do drama popular (Dorothy Donelly fazia todo mundo chorar com a história da mãe que abandona o filho para, mais tarde, ser julgada por ele, como promotor público, em Madame X) e do faroeste (William S. Hart virava ídolo infantil com o faroeste O homem do deserto). Adultos se chocavam com o “beijo tórrido” entre Anna Luther e George Walsh em A besta. Mas todo mundo se deliciava com Os perigos de Pauline, seriado em que Pearl White sofria “acidentes de máquinas voadoras, excitantes resgates, incêndios no mar, descarrilamentos de trens, acidentes de automóveis, em suma, tudo o que pode ser visto com emoção”. Theda Bara lançava a palavra vamp – a mulher que seduz e destrói os homens. As mulheres capixabas não ousavam tanto: limitavam-se a copiar os penteados, os olhares lânguidos e as roupas das atrizes.

Existiam dois jornais na capital naquela época: O Diário da Manhã, órgão do Partido Republicano Construtor (a partir de 1921, órgão oficial do estado, deixando de circular em 1936, quando foi substituído pelo Diário Oficial), e A Tarde, publicado pela Tipografia Brasil, de Coutinho, Silva & Cia, desde agosto de 1912 (deixou de circular em 1916, quando Bernardino Monteiro candidatou-se à presidência do estado). O diretor era Afonso Correia Lírio, que “não respeitava ninguém”.

Durante a campanha para a presidência do estado, o jornal A Tarde fazia uma “oposição tremenda”, o que incluía “desaforos, xingamentos, pintavam o diabo”. Era até mesmo grosseiro: quando Sinhá Riqueta veio definitivamente para Vitória, em companhia de sua filha Dodona, a manchete foi a seguinte: “Chegaram ontem de Cachoeiro os canhões e os torpedeiros que o governo mandou buscar para a campanha política.” Canhões e torpedeiros eram, obviamente, palavras inspiradas na guerra na Europa.

O bispo Dom Fernando também era atacado. Quando morreu, em março, Sinhá Riqueta se opôs a que o cadáver do filho fosse enterrado em Vitória, por causa dos ataques dos adversários nos jornais. O clero e as freiras do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora intercederam e o filho foi enterrado num túmulo “na rocha viva, aos pés do altar da Virgem Imaculada”, isto é, nas dependências do próprio colégio.

A manchete leviana provocou constrangimento entre a família, ainda abalada pela morte do bispo. Nêni, observando o desespero das mulheres, “começou a arquitetar uma forma de acabar com o jornal”. A inspiração veio através do cinema. Sugeriu a idéia a amigos, mas todos eram contra. O capitão Ramiro Martins foi lacônico: “Menino, deixa de bobagens.” Algum tempo depois, finalmente três amigos aceitaram participar do “Crime da Rosa Vermelha”: o português Antônio Pereira, Emiliano dos Anjos, ambos compadres de Nêni, e Zé Furtado. Mas como este foi visto conversando com Filomeno Ribeiro, diretor no jornal, Nêni o excluiu, ficando com os outros dois.

Era uma noite bonita de luar, a de 16 de dezembro de 1916. Nêni disfarçou seu trajeto: foi ao Bar Central, tomou café, conversou com os conhecidos. O encontro com Antônio Pereira estava marcado para as 22h10 em frente ao Hotel Europa: nesse horário, a redação estaria vazia, só às 24 horas se distribuiria a edição do dia seguinte. Funcionava numa casa nas imediações da Praça Costa Pereira: num quarto se encontrava a máquina impressora e, na parte de cima, a caixa de linotipos. Um dos funcionários morava num quartinho ao lado: sua mulher dormia sozinha no horário combinado para o “crime”. Na mesma rua, uma delegacia e o Ninho das Ninfas, casa de prostituição.

O luar ajudava ao cenário e ao senso de aventura. Porém Antônio Pereira “chegava a tremer a língua de tanto medo”, por causa do policial à frente da delegacia. Nêni perguntou: “Você não entrou? Mas eu vou entrar.”

Trocou então os sapatos, para não fazer barulho, por outros de sola de corda, comprados especialmente para a ocasião. A indumentária era importante para a ação: amarrou uma corda na cintura, embora não precisasse saltar de um ponto a outro; colocou um revólver na cintura, assim como uma faca, e uma rosa vermelha no bolso. No filme que vira, os criminosos deixavam como pista apenas uma rosa vermelha após o crime.

Enquanto Antônio Pereira apenas espiava, com medo, Nêni entrou. Não sem dificuldades: uma tábua quebrada quase o denunciou, apesar do sapato especial. Emiliano se assustou quando o viu, porque esperava Pereira e não o rapaz imaginativo. Os dois separaram a máquina impressora em duas partes: Emiliano retirou um ferro, sem o qual seria impossível a máquina funcionar, e também o número de fabricação, porque assim ninguém conseguiria uma identificação posterior. Colocaram todo o material em dois sacos e saíram calmamente, passando, indiferentes, junto com Antônio, pelo soldado. Subiram a ladeira da Matriz, beirando a Assembléia Legislativa, e entraram na casa de Dodona pelos fundos, colocando as peças no quarto de Nêni. Em seguida lavaram a única prova circunstancial: as mãos cheias de tinta.

Para disfarçar, ficaram conversando amenidades em frente à igreja de São Gonçalo. A lua ajudava a espairecer. Mas eis que surgem quatro soldados, comandados por um cabo. “O que é que vocês estão fazendo por aqui?” perguntou a autoridade. Nêni foi o único a conseguir falar o óbvio: “Estamos conversando.” O cabo retrucou: “Eu vi vocês passando com um saco nas costas.” Nêni continuou com o mesmo tom calmo e baixo: “Não, passaram dois sujeitos aqui com um saco nas costas, mas já estão lá em baixo, já devem estar na Vila Rubim.” Enquanto o cabo os olhava desconfiado, Nêni convocou os companheiros: “Bem, já está na hora de irmos embora.”

Os cúmplices saíram um pouco na frente: moravam na Praia Comprida e já não havia mais bonde. Nêni os acompanhou, todos de vez em quando olhando para trás. Mas o cabo não seguiu a pista. Nêni, reproduzindo o clichê da literatura policial, voltou então ao local do crime. Muita gente espiava e discutia a presença da rosa vermelha em cima do que restara da aparelhagem.

Houve inquérito, logo esquecido porque o chefe de polícia, Dr. Targino, achou preferível que o povo continuasse espalhando o boato que o acusava como responsável: sentia-se muito importante por ter, indiretamente, ajudado Bernardino Monteiro. O boato virou consenso.

— Tio Jerônimo só soube quando, na campanha seguinte, ele precisou de um jornal para fazer campanha política. Então eu o chamei e disse: O senhor pode comprar a máquina que está na mão do seu amigo Dr. Guimarães que no dia seguinte eu ponho tudo em ordem. Então ele comprou e no dia seguinte estava tudo funcionando. No dia seguinte ao “crime”, começaram a aparecer os autores. Eu chamei tio José, levei lá para o quarto onde estavam os dois caixotes todos direitinhos. Olha, falei, aqui está, olha, se o senhor quiser pode comprar a máquina que eu conserto. Ele falou: Mas como você mantém um negócio desses aqui na casa da sua avó? E se derem uma busca aqui? Eu disse: Não tem perigo. Peguei um parafuso, limpei bem limpinho e dei ao tio Bernardino, que era o governador. Ele disse: O que quer dizer isto? Eu respondi: Eu estou lhe dando de presente um parafuso da máquina. E ele: Mas não foi o Targino?

Nêni trabalharia durante dois anos como auxiliar da secretaria do Ginásio do Espírito Santo. Em 1916 seria reprovado na seleção para a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade do Rio de Janeiro, localizada no Catete. Dos nove “candidatos” [do Espírito Santo] que fizeram provas, só ele foi reprovado. Talvez por um único motivo: não levara “pistolão”. Em 1917, conseguiu uma apresentação do tio Jerônimo Monteiro (em cuja casa se hospedava) e, “sem ter pegado em nenhum livro”, foi aprovado. A maioria dos cursos jurídicos, na prática, dispensava a freqüência: os capixabas iam ao Rio entre os meses de junho e dezembro só para fazerem provas. O bedel (contínuo) é que respondia à chamada, ganhando para isso uma gratificação dos interessados.

Nêni pretendia ser médico, mas, como agronomia era mais fácil, planejou estudar a matéria com o primo Benvindo de Novaes. Uma gripe muito forte não permitiu que embarcasse para se matricular na escola de Pinheiral, no estado do Rio. O que não o impediu de ser campeão de futebol naquele ano, jogando pelo Sul América Futebol Clube, na primeira disputa promovida pela Liga Esportiva Espírito-Santense, fundada em maio de 1916. Os times Juventude e Vigor (hoje Rio Branco), Barroco, Vitória e Moscoso também participaram do certame.

O ensino era muito maçante: ele tinha horror da disciplina Filosofia do Direito. Gostava mesmo da “parte de crime, porque o professor contava uma porção de histórias, crimes que tinham acontecido aqui e ali, de modo que distraía muito a gente”. Na mesma ocasião, recebeu o certificado de 2ª categoria do Serviço Militar, em Vitória: fizera apenas algumas provas, porque já havia estudado em colégio de orientação militar, o Salesiano de Niterói: um oficial do Exército aparecia lá em certo período, colocava todos os adolescentes em forma e “ensinava a mesma coisa que se ensina no próprio Exército”. No entanto, continuava muito aborrecido: queria estudar medicina, tinha certeza de que seria um bom médico, mas um péssimo advogado. Ainda assim continuou o curso, até ser diplomado em 22 de janeiro de 1921, colando grau, já fora da época de formatura, na secretaria da Universidade do Rio de Janeiro: não compareceu à festa porque administrava então a Fazenda Monte Líbano.

Ainda em Vitória, em 1917, ele encontrava tempo para remar: ganhou duas medalhas de prata e uma de bronze, integrando a equipe do Saldanha da Gama. Aos sábados, à noite, trajando terno completo e o inseparável chapéu, Nêni não perdia um baile nos clubes sociais: as danças continuavam sendo o tango brasileiro, a valsa e, em certos clubes, como o Ninho das Ninfas, o maxixe.

Em 27 de outubro do mesmo ano, após o afundamento de três navios, o governo brasileiro reconhece e proclama “o estado de guerra, iniciada pelo Império Alemão contra o Brasil”. Começa a agitação nacionalista. Um mês depois, o governo decreta o estado de sítio no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por causa das agitações políticas e operárias e pela presença, nos estados do sul, de grande concentração de imigrantes alemães. Na viagem para Gibraltar, em 1918, ocorre “a batalha das toninhas”: os brasileiros abrem fogo sobre um cardume de toninhas, pensando serem submarinos alemães. No dia seguinte à chegada a Gibraltar, os brasileiros são surpreendidos com o armistício: a guerra terminara.

Possivelmente a gripe espanhola foi trazida para o país por marinheiros que estavam em Dacar, na África (morreu grande parte da tripulação do navio). O nome surgiu porque os primeiros surtos da gripe foram diagnosticados na Espanha, embora, segundo outra versão, teriam sido em Kansas, nos Estados Unidos, possivelmente num acampamento de soldados. Matou mais do que a guerra: aproximadamente vinte milhões de pessoas em todo o mundo.

A gripe chegou ao Rio em outubro: mais de seiscentas mil pessoas foram atingidas no país, entre elas o próprio presidente da República, Rodrigues Alves, que não chegou a tomar posse para seu segundo governo. A situação de calamidade no Rio era tão grande que até o campeonato sul-americano de futebol teve que ser transferido; o número de coveiros era insuficiente: utilizaram-se prisioneiros políticos. Com base em projeto apresentado por Jerônimo Monteiro, que era senador, o governo decretou que, como as escolas estavam fechadas, todos os alunos fossem aprovados. Chamou-se a essa medida “passar por decreto”.

A espanhola chegou a Vitória em novembro: “Era raro um que não pegava. Tinha uma espanhola em uma casa, pegava a casa inteira, dava mui ta febre.” Nêni pegou a gripe, “passou mal pra burro, só não morreu de ruim”. Depois viajou para o Rio e, aproveitando o decreto, tentou concretizar o sonho: matriculou-se na Escola de Medicina (chegaria a freqüentá-la, após a gripe, durante seis meses). Mas, como não conseguiu emprego no Rio, e como a mãe, a avó e a tia não poderiam sustentá-lo, desistiu e voltou a Vitória, onde foi transferido da secretaria do ginásio para a função de segundo escriturário da Secretaria da Fazenda. Um ano depois seria nomeado terceiro escriturário, atividade que exerceria até 1920.

Entre as vindas e idas ao Rio, Nêni recebeu da avó Riqueta, em 1919, uma função: “fazer o levantamento da escrita” da Fazenda Monte Líbano, então administrada por João Evangelista de Carvalho. Enfrentou grande dificuldade no início: não entendia nada daquilo, mas “acabou aprendendo”. A produção da fazenda era muito pequena: os cafezais morriam, era preciso renová-los, plantar mais. A sugestão partiu do próprio João Evangelista. Chegaram a plantar trezentos mil pés de café. Em 1920, Nêni passava mais tempo na fazenda do que em Vitória, já desempregado e desvinculado da Secretaria da Fazenda. Passou então a advogar em Cachoeiro, fazendo pequenos serviços de contrato.

De herança do tio bispo, Nêni e a prima Maria Stella de Novaes (Stellinha) receberam uma casa. Nêni preferiu vender à prima a sua parte, paga em apólices federais de dois contos e 200 mil réis. Da mãe recebeu como parte da herança do pai mais dois contos e 500. Trocou tudo em marcos alemães, por sugestão do tio José, que antes trocara 50 contos de réis pela moeda alemã. O marco caiu até não valer nada: ao mudar a moeda, o governo alemão fez com que os marcos antigos – que Nêni tinha comprado — não valessem mais nada. Ele perdeu tudo.

“Começou a vida” com uma porca, comprada por 180 mil dos 280 mil réis que ganhava como segundo escriturário. Na fazenda haviam permanecido, após a abo lição, os ex-escravos Salomão, Narciso (o único solteiro), Francisco e Cirilo Vicente, que havia comprado um lote de terra de Sinhá Riqueta. Todos, junto com os filhos, trabalharam na fazenda até sua venda em 1924. Cirilo tinha uma porca, da raça piau, preta e branca, com onze leitões. “Ah, Cirilo, você quer me vender essa porca?” perguntou Nêni. “Quero sim, senhor”, respondeu o outro. “Quanto você quer?” “180 mil réis”. No dia seguinte, Cirilo levou a porca, que se juntou às outras dezenas da fazenda. Na hora de matar e vender porcos, Nêni separava a que comprara. Não precisava gastar nada: a alimentação era a mesma dos outros. Quando os leitões foram crescendo, ele os vendeu, já gordos, e foi juntando um dinheirinho: acabaria vendendo a porca por dois contos de réis. Chegaram então os “muladeiros”, “uns sujeitos que apareciam tocando uma porção de burros”. Nêni comprou seis burros por seis contos de réis. Um deles escolheu para montar (“Eu o levava para o cocho para comer, etc. e este burro nunca pulou, foi quase amansado por mim”). Um outro era “bom de sela”. Era uma besta, castanha e com uma estrela na testa, e “devia ter alguma barda” (defeito), segundo João Evangelista, porque era “muito boa”. Com os dois animais Nêni percorria a fazenda. Mais tarde, vendeu todos por seis contos de réis cada um, “juntando mais um dinheirinho”. Acrescentava-se a isso mais um pouco dado pela avó, pelo seu trabalho em época de colheita.

Em 1920, Nêni foi candidato à prefeitura de Cachoeiro. Confiava no prestígio da família. Certamente se esquecera do que presenciara um ano antes, ao fiscalizar a eleição no município da Serra. Sabia que tudo era mero pretexto, porque o governo ganhava sempre, falsificando os votos. Na Serra, atrás de uma grade, um coletor federal, com uma lista, chamava os eleitores, dando-lhes a cédula que queria. Quem se recusava a receber era marcado com uma cruz vermelha. A maioria ficava com medo e aceitava. Em cidades menores nem havia eleição.

Na véspera da eleição de 1920 apareceu à tarde na Fazenda Monte Líbano um escrivão, cunhado de Marcondes Alves de Souza, ex-presidente do estado. Marcondes era candidato, junto com Seabra Muniz, este casado com uma filha do presidente de então, Bernardino Monteiro, tio de Nêni. O escrivão Agostinho Alves dos Santos montava uma mula muito bonita e parecia não ter pressa:

— Seu Agostinho, o senhor por aqui, logo hoje? perguntou Nêni.

— É, vim pernoitar com vocês.

— Mas como, se a eleição é amanhã, você é escrivão lá, como é que fica?

— Não, a eleição já está aí na garupa da mula, explicou o escrivão.

— E eu? insistiu a curiosidade de Nêni.

— Você? Tem meia dúzia de votos.

Apesar da “surra”, Nêni ficou em segundo lugar, ultrapassando o coronel Marcondes.

Em 1922, ele percebeu que a fazenda estava tendo prejuízo porque vendia café em coco e o café pilado encontrava melhor preço no mercado. Nêni pensou ter encontrado a solução reformando uma máquina que vira em funcionamento de 1908 a 1912, quando a família toda morava no local. Um carpinteiro ajudou-o com as correias de couro de boi (a industrializada era bem mais cara). Como as rodas d’água já não funcionavam, optou pela movimentação elétrica. Mesmo desconhecendo como funcionava, Nêni comprou um motor, calculando que aguentaria “o negócio”, e chamou um eletricista: o café dos colonos e o da fazenda aguardavam o funcionamento da máquina para a moagem. A inauguração foi um desastre: com a “barulheira danada” da máquina, os colonos saíram correndo e Nêni, sozinho, acabou quebrando a máquina, sem mesmo saber como funcionava: ela tinha uma velocidade de 100 rotações, ele colocara 1.200 rotações.

No dia seguinte, com a tranqüilidade de sempre, Nêni foi para Cachoeiro; na usina do amigo Lídio Machado, sentou-se em cima de um saco de café, observando a máquina dele, diferente, mas elétrica, pilando o café. Ao tomar conhecimento do fato, Lídio disse que a máquina rebentara o descascador e o separador (uma folha de zinco). Nêni ouviu todas as explicações, mas esperou um mês até sua máquina ser recuperada. Desta vez, o sucesso: depois de pilado, o café era repartido com os colonos, que trabalhavam no sistema de meia (metade para os colonos, metade para a fazenda). Aumentou assim a renda da Monte Líbano.

Durante seu governo, Jerônimo Monteiro construíra a Fábrica de Cimento Monte Líbano (Portland) dentro do perímetro urbano da cidade de Cachoeiro (o que foi considerado “um erro do ponto de vista higiênico”), à margem esquerda do rio, com mecanismo da firma alemã Amme, Giesecke & Koenegen, de Braunschwieg, “por conta do governo

do estado” (isto é, o Banco do Espírito Santo). Quando se iniciara a montagem de uma grande parte do mecanismo, após a construção do edifício principal, a produção da fábrica foi suspensa. Num relatório de 1925, o então presidente Florentino Avidos informava que “não obstante a qualidade superior do produto obtido, o Banco do Espírito Santo desistiu da exploração permanente. Pela sua natureza esse gênero de indústria não oferece remuneração, senão em larga escala e com ínfimas despesas de transporte, porém a fábrica não comporta uma grande produção nem as condições de transporte são favoráveis. Para se modificar essa situação, seria necessário o emprego de grandes capitais, o que não convém ao Banco nem ao Estado”.

O calcário era fornecido pela Fazenda Monte Líbano. Mas houve desavenças familiares: netos como Henrique de Novaes e o genro Florentino Avidos chegaram a afirmar que “comeriam todo o cimento que aquela fábrica produzisse”. A afirmação, mais uma briga política entre os dois filhos, Jerônimo e Bernardino, em 1920, colocaram Sinhá Riqueta “danada da vida”. Acreditava que, após sua morte, os parentes brigariam mais ainda por causa da herança. A solução: vender a Fazenda Monte Líbano, que era considerada “um brinco” na época. Com quinhentos alqueires, foi colocada à venda por 360 contos de réis.

Havia um prêmio de cinco contos para quem pusesse uma fábrica de cimento em funcionamento. Sinhá Riqueta tinha interesse em fazer a fábrica Monte Líbano funcionar não só por causa disso, mas também como homenagem ao filho Jerônimo, que iniciara a construção em 1911 (em 1924, faltava pouco para ser concluída, mas a fábrica só passaria a funcionar em 1932). Apareceram o gaúcho Sr. Mourgues e o português Antônio Rebelo Zenha como interessados, porém com exigências: só poriam a fábrica em funcionamento se comprassem a fazenda. Não queriam só arrendar as jazidas de calcário, como pretendia Sinhá Riqueta. O contrato foi assinado em 1º de março de 1924.

Foi até então a maior frustração da vida de Nêni, que queria comprá-la, mas não só lhe faltava dinheiro, como enfrentava um dilema familiar. Seu amigo Antônio Pedro Tavares Baião, proprietário de uma serraria em Cachoeiro, chamou-o quando soube da notícia da venda: “Carlos, a fazenda não pode sair da família. Carlos, você vai comprar a fazenda.” Carlos respondeu: “Eu? Com que dinheiro? Dez contos de réis é o que eu tenho. Não é possível.” Antônio Pedro foi objetivo: “Eu estou dizendo para você comprar a fazenda, não estou perguntando se você tem dinheiro. A sua avó está dando um prazo de dois anos. Com a madeira que você tem lá você paga nestes dois anos. Quem vai pagar a fazenda sou eu. Vou tirar as perobas que você tem lá. Você vai me pagar com a madeira que tem lá, só de peroba.” Diante da indecisão e do silêncio de Nêni, ele acrescentou: “Compra. Não deixa de comprar não. Vai sair de graça para você.” “Vou pensar”, disse enfim Nêni.

Foram necessários oito dias para que Nêni se decidisse a procurar o amigo. Antônio Pedro parou todo o trabalho na serraria, quando ele chegou, só para ouvir a decisão. Como era de seu feitio, Nêni disse calma e tranquilamente: “Muito obrigado a você. Fico muito grato com sua bondade, mas não vou comprar pelo seguinte: a família está toda brigada, irmão contra irmão, primo contra primo. Eu tomo conta da fazenda; se eu comprar a fazenda meus primos, meus parentes, que também são herdeiros de minha avó, vão ficar zangados comigo, achando que eu comprei porque convenci a minha avó a me vender nesse preço barato como está. Vão dizer que a minha avó vendeu porque era para mim. De modo que eu não compro não.”

Foi difícil para Nêni dizer tudo isso porque a Fazenda Monte Líbano era “o local que mais gostava”. O resto da vida se lembraria de lá como a melhor parte de sua existência. O amigo aceitou a resposta, porém comentou: “Bobagem sua. Essa briga de vocês daqui a seis meses acabou. E vão todos para lá passar tempo com você na fazenda.”

Os compradores não cumpriram o trato: com a falência da fábrica de cimento, nomearam um administrador, que desmanchou toda a casa grande, vendendo a madeira e destruindo as plantações. Em 1934, quando secretário da Fazenda, Nêni seria o responsável pela transação final: a Sociedade Industrial Cimento Monte Líbano Ltda., tendo como principal acionista o gaúcho Antônio Mourgues, entrou em falência. Deviam muito ao estado, mas “ainda levaram 100 contos de réis para se afastarem do negócio”. Porque a firma já havia transferido o contrato para outro grupo com direito de aluguel da jazida por sessenta anos e mais sessenta de prorrogação. A Secretaria de Agricultura desfez o negócio, arrendando as jazidas para outro grupo. Porém as terras entraram em litígio: o novo administrador da fazenda “pintou e bordou, desmanchou tudo aquilo, vendeu toda a madeira que a fazenda tinha, vendeu a madeira da própria construção da casa, que desmanchou, colocando muita gente invadindo o local”.

Nêni nunca se esqueceria do ato de solidariedade de Antônio Pedro Baião: seria seu amigo até a morte. Responderia com a mesma gentileza anos depois, quando acumulava os cargos de secretário da Agricultura e da Fazenda. Baião perdeu tudo, depois que um sócio português que tinha no Rio tomou-lhe a serraria. Baião tinha muitos filhos. Apareceu na secretaria e disse: “Carlos, eu estou em dificuldade e você sabe que meu sócio me deixou limpo. Para eu sustentar a minha família tive que hipotecar a minha casa em Cachoeiro. É com isto que eu estou sustentando a minha família, enquanto não estou fazendo nada. É por isso que vim aqui para ver se você me arranja alguma coisa. Mas eu só sei mexer com madeira.” Nêni pensou e disse: “Olha, existe aqui uma serraria do estado em Barbados, perto de Colatina, que está parada há dez anos. O estado gasta, com o camarada que toma conta, seiscentos mil réis por mês. E dizem que de vez em quando ele ainda por cima vende umas peças por lá. Vá lá e veja o que você pode aproveitar dali e volta e me diz, pois vou fazer um negócio com você.”

Baião voltou quatro dias depois, afirmando que o negócio servia, “mas teriam que ser compradas umas peças que desapareceram”. Além disso, queria um contrato de aluguel com o estado. Nêni ofereceu: “Veja lá o que você pode pagar. Será que um conto e quinhentos por mês de aluguel está bom? O estado assim vai lucrar, pois deixa de pagar seiscentos e ganha com o aluguel. Além disso, você vai produzir, pagar impostos.” Baião aceitou e transformou aquilo numa grande serraria, ao longo dos anos.

Porém Nêni nunca esqueceria a fazenda. Na primeira campanha para o governo do estado, ao passar pela estrada onde ela se localizava, fez questão de saltar do carro. Viram-no de longe, quando encontrou pedaços da cumeeira que os escravos levantaram para a construção da casa grande. Passou algum tempo reconhecendo o local, mas não havia referências, exceto as de sua memória. O som era o do canto das cigarras; tocos queimados substituíam as antigas árvores. Talvez se lembrasse então da presença do pai, na casa grande, quando tinha três anos – tranquilamente, ouvindo as folhas no escuro, olhando as estrelas, com os filhos ao lado. Ou da madrugada, quando tinha onze anos, em que todos ficaram acordados esperando o cometa Halley, que iria aparecer “daquele tamanho”: ninguém viu porque estava muito nublado. Mas depois surgiu bem nítido, bem grande, aquela estrela com uma cauda muito bonita: aonde se ia o cometa estava lá, até alta noite; no dia seguinte aparecia de novo, levou uns seis meses brilhando no céu.

A briga, em 1920, entre os irmãos Jerônimo e Bernardino Monteiro, que provocaria a venda da Fazenda Monte Líbano, foi uma espécie de revolução. Até mesmo para o sobrinho Nêni.

 

Fonte: Carlos Lindenberg, Um estadista e seu tempo
Autor: Amylton de Almeida
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2014

Personalidades Capixabas

André Carloni

André Carloni

André Carloni nasceu em Bolonha, na Itália, em 28 de janeiro de 1883, e chegou a Vitória em 1890, com sete anos de idade – veio com os pais, Zama Carloni e Marcina Malagute Carloni, e irmãos

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