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Do outro lado da História - Em 11 de novembro de 1889

Dom Pedro II partindo para o exílio - Acervo: Hélio Silva

Na noite de 11 de novembro de 1889, o Governo brasileiro homenageava oficiais de Marinha chilenos, com um grande baile na ilha Fiscal. Noite quente de inicio de verão. Parece que toda a sociedade da época fora convidada para a festa, tal o número de pessoas que se aglomeravam na estação de barcas que as conduziriam à ilha. Segundo o Jornal do Comércio da época, nos salões de baile havia cerca de 5 mil pessoas.

A família imperial retirou-se à uma hora da manhã, antes da fantástica ceia que foi servida aos convidados. Na ocasião houve troca de discursos entre o visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho e o ministro do Chile, Manuel Villamil Blanco, representante diplomático de seu país junto à Corte do Rio de Janeiro.

Esse baile ficou famoso, não apenas por marcar o fim do Império, mas também pelo luxo e extravagância com que se realizou. De madrugada, quando os convidados chegaram ao cais Pharoux, onde deveriam tomar suas carruagens, de volta às suas casas, cruzaram com o 22.° Batalhão de Infantaria que ali estava para embarcar para o Amazonas, onde cumpriria a pena imposta pelo ministro da Guerra.

No dia seguinte, pela manhã, o imperador e a imperatriz seguiram para Petrópolis, onde procuravam refúgio para o calor. No dia 14 o imperador veio cedo ao Rio de Janeiro, pois devia presidir a um concurso para a cátedra de inglês no Colégio D. Pedro II.

O dia 15 de novembro começou tranqüilo para a família imperial. A falta de meios de comunicação permitiu que, de manhã, à hora em que as tropas começavam a chegar diante do Quartel-General, o conde d'Eu fizesse seu passeio a cavalo em Botafogo, acompanhado por seus filhos Pedro e Antônio. Ao voltar para o Palácio Isabel (hoje Palácio Guanabara), leu os jornais do dia. Nada de relevante, a não ser no Diário do Comércio, uma nota sobre uma possível revolta na Escola Militar. Os ministros tinham ficado reunidos na véspera, até tarde, no Ministério da Guerra. Por volta das dez horas da manhã chegam ao Palácio Isabel, esbaforidos, o barão de Ivinheima e o visconde da Penha com a novidade de que a 2ª Brigada se revoltara e que o barão de Ladário, ministro da Marinha, fora morto. Mais tarde aparecem outras pessoas chegadas à família imperial. Aumentam os boatos. Quando dizem ao conde d'Eu que todas as tropas estavam reunidas diante do Ministério da Guerra, tendo à frente Deodoro e Quintino Bocaiuva, estas foram as suas palavras: "Nesse caso, a Monarquia acabou".

A tarde o imperador desce de Petrópolis e, no paço recebe Ouro Preto. Este sugere o nome de Silveira Martins para chefiar o novo Gabinete. Mas o conselheiro se encontrava no Rio Grande do Sul, o que significava, àquela época, cerca de quatro dias de viagens.

Por iniciativa da princesa Isabel, os conselheiros de Estado são convocados a comparecer ao paço com a maior brevidade. A noitinha se reúnem. O visconde de Taunay propõe que se tenha uma conversa com Deodoro. Depois de grandes confabulações, sem que o imperador fosse ouvido, são encarregados daquela missão os conselheiros Manuel Pinto de Sousa Dantas e Manuel Francisco Correia, como representantes dos dois partidos políticos da Monarquia.

Chegam à casa de Deodoro e a porta está fechada. Batem. A empregada informa que o general não estava e não sabia informar onde se encontrava.

As 11h30 da noite, depois de muitas súplicas da princesa, o imperador concorda em receber os conselheiros. As conversações, devido à gravidade do momento e o avançado da hora, são feitas em voz baixa. Mais parece uma reunião de conspiradores. O Conselho unânime é para que o imperador constitua imediatamente novo Ministério. Depois de alguns instantes de reflexão, o imperador se decide em confiar a missão ao conselheiro Saraiva. Cabe ao marquês de Paranaguá ir a pé a Santa Teresa, àquela hora, acordar o conselheiro Saraiva. A 1h30 estão de volta ao paço. Após uma curta conferência com o imperador, Saraiva escreve uma carta ao general Deodoro, pedindo-lhe uma entrevista, a fim de compor com ele o novo Ministério. O major Trompowski é encarregado de levar a carta ao general. As três da manhã retorna com a resposta. Deodoro o recebera no leito. Declarou-lhe que não tinha resposta a dar, porque a República já estava definitivamente implantada. Fez várias considerações, entre as quais acusações contra o conde d'Eu, pois o considerava autor das medidas contra o Exército.

Na manhã do sábado, 16 de novembro, os jornais publicavam o texto da proclamação da República, a organização do Governo Provisório, a nomeação do chefe de Polícia e outras das primeiras medidas do novo Governo.

Por volta das dez horas o paço, onde se encontrava a família imperial, foi cercado por um destacamento de Cavalaria. As sentinelas estavam a cavalo, com as carabinas assestadas para o edifício, quase tocando as janelas. Foram colocadas sentinelas de Infantaria em todas as portas de acesso e proibidas a entrada e saída de qualquer pessoa. As três da tarde chega um esquadrão de Cavalaria. O major Frederico Sólon Sampaio Ribeiro que o comandava, seguido de três oficiais subalternos penetra no paço. Querem falar ao imperador. Entregam-lhe um papel e se retiram. Era a intimação, assinada por Deodoro, para deixar o país em 24 horas. A resposta do imperador foi redigida pelo barão de Loreto. E começam os preparativos para a partida.

Pela madrugada o conde d'Eu é despertado, pela chegada do coronel João Nepomuceno M. Mallet. O Governo Provisório temia que houvesse derramamento de sangue na partida da família imperial, pois soubera que havia um grupo disposto a fazer uma manifestação em favor do imperador. Por isso aconselhava que ele abandonasse o passo antes do romper do dia. As três da manhã deixam todos o palácio rumo ao cais. Uma pequena lancha ocupada por uma guarnição de alunos da Escola Militar transporta a família imperial à canhoneira "Parnaíba". Lá, é entregue ao imperador o decreto assinado por todos os membros do Governo Provisório, concedendo à família imperial, a título de manutenção e para as primeiras despesas de sua instalação no estrangeiro, a soma de 5 mil contos. Por volta de meio-dia a "Parnaíba" se movimenta a caminho da ilha Grande, onde a família imperial é transferida para bordo do paquete "Alagoas". Finalmente, na noite de 17 para 18 partem rumo à Europa.

Quando o navio atinge São Vicente (ilha de Cabo Verde), o imperador envia uma carta ao visconde Nogueira da Gama, dizendo que não receberá, assim como toda a família, senão as dotações ou outras vantagens a que têm direito pelas leis, tratados e compromissos existentes. Se Nogueira da Gama, porventura, tiver recebido os 5 mil contos, que os restitua sem perda de tempo. Em São Vicente o imperador recebe a notícia de que o visconde de Ouro Preto também fora banido e que viajava para a Europa no paquete alemão "Montevidéu".

No dia 7 de dezembro chegam a Lisboa. É o inicio do exílio.

 

Fonte: Nasce a República 1888, 1894 – ano 1975
Autor: Hélio Silva
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2014

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Dizer o que significou para a nossa pequena Vila aquela visita é quase impossível. Mais fácil seria imaginar, ao lerem as dezenas de ofícios e prestações de contas que Carlos Augusto Nogueira da Gama, presidente da Câmara, enviou ao Presidente da Província, senhor Dr. Pedro Leão Vellozo, dando ciência dos preparativos e gastos

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