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Governos melancólicos do Século XIX no ES

Vista geral da cidade de Vitória - Fotógrafo: Victor Frond, 1860

Os relatórios apresentados pelos presidentes à Assembléia Legislativa Provincial, sua correspondência – cada vez mais amiudada – para o governo central, a imprensa, os livros que – embora raros – vão sendo publicados, os anais da Assembléia local constituem as fontes de informações sobre a vida capixaba da segunda metade do século XIX.

As falas presidenciais se sucedem em desoladora monotonia. São dezenas, e todas lamentam a facilidade com que o júri absolve os criminosos que lhe são confiados para julgamento. Louvam, sem discrepância, o trabalho das colônias e se queixam da falta de meios para atender às necessidades do culto religioso. Ano após ano, apontam as deficiências do ensino e das estradas.

Seria inoportuno tentar aqui uma explicação para a falta de iniciativa dos governantes, mas, examinando-se a lista dos presidentes que estiveram à frente da província, verifica-se que – exceção feita de uns três ou quatro – todos eram principiantes bisonhos, que vinham pescar, no Espírito Santo, uma cadeira de deputado geral.(1) Dois ou três conseguiram fazer carreira política. Os demais – a quase totalidade – desapareceram no cenário nacional.

Os pequenos relatórios, cartas, ofícios – quase diários – encaminhados aos Ministérios do Império e da Justiça tratam de pequenos crimes, questões eleitorais de ínfima importância, dão notícias das epidemias para reclamar sobre vacinas ou pedir dinheiro.

Os jornais espelham a vida pacata. Noticiário relativo à administração e política de aldeia. As folhas da oposição combatendo sistematicamente os atos do governo e as deste defendendo-lhe, incondicionalmente, os erros. Como em todos os tempos e lugares.

A população urbana – em constante aumento – não demonstra aspiração de progresso. Seja na Capital, seja no último dos distritos, o povo se deixa arrastar melancolicamente pela rotina. (I) Nenhum empreendimento marcante: nem no terreno das construções materiais, nem no campo social. Falta, talvez, de uma elite que marchasse à vanguarda, despertando iniciativas.

A gente do campo persevera nos métodos antiquados de cultura.(2)

O café, passo a passo, conquista a liderança da economia capixaba. Não consegue, entretanto, o fastígio que obteve na província do Rio de Janeiro.

As grandes realizações que modificam a fácies do país no decorrer do governo de Pedro II só mui remotamente ecoam no Espírito Santo.

Os fatos falam mais eloqüentemente que quaisquer comentários.

Comentários, aliás, de que nos temos esquivado, sistematicamente, para oferecer a maior cópia possível daquilo que se poderia denominar história maciça.(3)

 

NOTAS

(I) –

“Vejamos qual o espírito ou pensamento que domina a população da Província do Espírito Santo, apreciação que faremos, segundo nos cumpre, com toda a imparcialidade.

A este respeito pode-se dizer que há natural diferença no seio da população, manifestando-se em certos pontos um espírito ousado, empreendedor e ativo, e em outros resistindo ainda à rotina dos tempos coloniais. A ousadia em quaisquer cometimentos e a iniciativa manifestam-se no seio da população das comarcas de Itapemirim e de S. Mateus.

Provém isto em grande parte da emigração que, para aqueles pontos afluiu das Províncias de Minas, Rio de Janeiro e Bahia, emigração composta de homens que não trazem somente o concurso material de braço, mas principalmente o do espírito que pensa, vê e enxerga o futuro de longe. Na Vitória, porém, e nas comarcas adjacentes em geral, não se manifesta, no mesmo grau igual tendência para os grandes cometimentos da indústria. Há ali, como nas comarcas de Itapemirim e S. Mateus, espírito de ordem, mas certa quietação e falta de iniciativa que de alguma sorte prejudicam.

Em referência à Capital provém isto em grande parte da tendência, aliás não exclusiva desse lugar, para os empregos públicos.

Limitando as suas aspirações, desejos e trabalhos à posse de um emprego mais ou menos lucrativo, inteligências que poderiam servir vantajosamente à indústria, sobretudo a agrícola, deixam de entregar-se a empreendimento com que melhor poderiam servir a si e ao país.

Pesa-me exprimir-me nestes termos; mas, como já disse, só devo aqui repetir a verdade.

Cumpre-me acrescentar que o fato a que me refiro relativamente à Cidade de Vitória mui contribui para que a Província não progrida com a rapidez que fora para desejar. E a razão, bem a compreendereis, senhores, é que não pode a vitalidade estender-se por todo o corpo da Província quando o abatimento e o desânimo apoderam-se de seu coração; quando dele não parte o impulso e o salutar exemplo com que se deverá ativar o espírito público no resto do território provincial.

Dói-me, como disse, confessar este fato, e maiores mágoas vem causar-me quando nele vejo, em parte, a razão pela qual os Presidentes, que são nomeados para o Espírito Santo, não se demoram na Província durante o tempo preciso para ali deixarem seus nomes gravados em qualquer melhoramento de incontestada utilidade.

Chegados à Capital, sentindo-se sem os meios de ação que resultam do concurso eficaz da atividade particular, notando as dificuldades práticas que se lhes sugere quando exibem qualquer idéia nova e útil à Província, pesando os tropeços que na Capital se lhes apresenta relativamente à tentativa de qualquer cometimento em vantagem do público, e, constrange-me dizê-lo, avaliando que o resto da população da Província equipara-se, também, com este sombrio e desanimador quadro que vêem na Capital, os Presidentes deixam-se logo apoderar-se pelo desânimo, tratando, após alguns meses de exercício de se retirarem de uma Província onde entendem que não há por toda a parte pessoal que seja apto para o auxílio de um grande impulso, que, porventura, se queira dar aos melhoramentos materiais e morais.

Assim é que, desde o ano financeiro de 1846, em que a receita da Província era computada na diminuta quantia de 32:992$452, têm as rendas provinciais subido na razão anual de dez por cento até que hoje chega a 300:000$000” (PENA, O Presente e o Futuro, 93-6).

(1) Em uma das suas Cartas, MUNIZ FREIRE e CLETO NUNES diziam: “lá está no Senado o velho representante desta Província, tão notável por seus méritos como pela sua inservibilidade à terra que o constituiu seu mandatário. S. excia., que já se tem mais de uma vez declarado senador por Minas...” (Cartas ao Imperador, 8).

– Os jornalistas referiam-se a Cristiano Benedito Otoni, eleito senador pelo Espírito Santo em agosto de 1879, e nomeado por carta imperial de seis de setembro de 1879 (TAUNAY, O Senado, 202).

– Do antecessor de Cristiano Otoni, o senador José Martins da Cruz Jobim – eleito em setembro de 1850, e nomeado a primeiro de maio do ano seguinte – TAUNAY, O Senado, 201 – BASÍLIO DAEMON escreveu que, apesar de eleito pela província e seu representante no Senado durante vinte e oito anos, não prestou “serviço algum a bem do seu desenvolvimento” (Prov ES, 454).

– Do primeiro senador pela província, Francisco dos Santos Pinto, sacerdote, sabe-se apenas que servira durante alguns anos na matriz da Candelária, no Rio de Janeiro, e que era, em 1807, da Câmara Eclesiástica. Do segundo, José Tomás Nabuco de Araújo, apesar de haver presidido a província, não se conhece ato algum em prol do Espírito Santo.

(2) - “Alguém já me disse, perguntando-lhe porque não usava do arado, que não queria arriscar o seu tempo e que já agora seguiria a rotina de seus pais; fiz-lhe ver as vantagens que lhe poderiam vir daí, porém cansei-me debalde porque em tudo achou e inventou dificuldades que o aterraram: entretanto tive ocasião de conhecer que ele possui terrenos em que o arado trabalharia com facilidade” (Relatório que o exmo. sr. Presidente da província do Espírito Santo, o dr. Evaristo Ladislau e Silva, dirigiu à Assembléia Legislativa da mesma província na sessão ordinária de 23 de maio de 1853 – Vitória – Tipografia Capitaniense de P. A. de Azeredo – 1853).

– Em 1870, o presidente Antônio Dias Pais Leme distribuiu entre os lavradores de Itapemirim, Santa Leopoldina e Serra alguns arados que mandara vir do Rio de Janeiro, por conta dos cofres provinciais (DAEMON, Prov ES, 388).

(3) - Na Nota II, encontram-se documentos relativos a diferentes períodos do séc. XIX, todos eles merecedores da melhor atenção dos estudiosos da História capixaba.

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, novembro/2017

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