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Grapuá - Tipo Popular, por Elmo Elton

Catedral de Vitoria - 1958

Toda gente o conhecia em Vitória, embora andasse pouco pelos logradouros mais centrais da cidade. Tipo alto, mulato, maltrapilho, de calças sempre arregaçadas, mostrando as canelas finas. O cinto era uma gravata velha. Braguilhas desabotoadas. Falava pouco, tinha voz cavernosa, quase inaudível. Durante o dia, batia à porta de casas da cidade alta, ora pedindo comida, ora dinheiro, assustando os moradores com sua figura sinistra, cabelos eriçados, duros de sujo, a barba crescida. A criançada, também homens e mulheres, todos, todos mexiam com ele:

Grapuá, Grapuá, Grapuá...

A resposta ele a dava não tanto com palavras, que o timbre da voz não o favorecia, porém com gestos obscenos, abraçando-se aos postes e movimentando-se como se em coito. Nada tinha de engraçado. Era sisudo, mal educado, não se comunicando com ninguém, nem mesmo com os que lhe prestassem algum auxílio.

Exibia, contudo, exagerada carolice. Manhã cedinho ou à tarde, invariavelmente, era visto na Catedral, ajeitando, quando não de joelhos, pequenas coisas suas (maços de velas, caixas de fósforos, vidrinhos vazios de remédios e garrafa de aguardente) sob o vestido e manto de Nossa Senhora da Vitória, grande, antiga imagem de roca, colocada, sobre andor, frente ao altar do Santíssimo Sacramento. Na igreja, andava de um para outro altar, mas acabando sempre, prostrado, diante da venerável imagem da padroeira da cidade.

Aos domingos, sobretudo aos domingos, talvez para ser visto por muitos, assistia a todas as missas ali celebradas, isto é, da missa das cinco até a das dez horas, esta frequentada pela melhor sociedade vitoriense. Desviava, com suas repetidas genuflexões e balbucios, a atenção dos fiéis, que disso reclamavam. Não deixava, ainda que bêbado, de acompanhar procissões.

Usava, à guisa de colar, um terço feito de caroços de azeitonas, desses confeccionados na Terra Santa, mas, à entrada do templo, retirava-o do pescoço e se punha a dedilhá-lo, demoradamente.

Teve uma rival: - Rainha das Flores, adiante focalizada, em texto de cordel. Brigavam os dois, porque Rainha não gostava de ver Grapuá ajoelhado diante das imagens de sua (dela) devoção. Brigavam, ainda, porque o pedinte costumava acender velas no piso da igreja, sujando-o, enquanto Rainha levava flores aos altares.

Grapuá (Fabiano), segundo consta, nasceu nas proximidades de Vitória, precisamente no distrito de Itaquari, sendo que, depois de mais velho, pernoitava em barraco do morro da Fonte Grande. Dizem que, quando moço, trabalhou na lavoura. Faleceu, louco, na década de 40.

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

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