Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Ano Novo - Por Eugênio Sette

Penedo e Saldanha da Gama antes do aterro da Av. Beira Mar - Foto: Isauro Rodrigues, 1950

Quando Você pousar os olhos nesta crônica, terei envelhecido um ano, porque sou dos muitos que amanhecem o Ano Novo contando tempo.

À minha mesa estarão amigos, aqueles com quem ainda posso dividir a minha afeição e dos quais posso discordar sem temer, porque todos nos respeitamos naquilo que temos de mais nosso — a opinião própria.

Mas lhe direi que esse entardecer ainda não me incomoda, porque não me doem as juntas, a respiração se faz sem haustos, a barriga não cresceu, e, sobretudo, porque acredito na poesia e ainda não vendi a alma ao diabo.

Apenas, a visão está diminuindo e diminuindo doloridamente, resultado da leitura de aperreados processos, de livros estranhos de histórias estranhas, de notícias que arrepiam os meus já escassos cabelos. Processos, livros, autores, réus, notícias e cabelos que rareiam no alto do crânio, está tudo a me deixar um gosto amargo de descrença na recuperação.

Não lhe faço votos, pois, nem lhe desejo nada, que o meu surrão é pobre. Papai Noel só me trouxe avisos bancários anunciando próximos vencimentos e o meu Dever está maior do que o meu Haver, tudo porque nunca fui intendente, jamais andei pelos corredores da Cexim. (65)

São coisas do destino, é a mão de Deus.

Não é justo, porém, que eu esteja aqui, na entrada de mais um ano, a cassandrar, a chorar misérias minhas e as do país. Jeito não posso dar e Você, leitor, também não. A nossa rebeldia não nos levará a ponto algum, porque os salafras são sempre em maior número e o pouco de moral que nos resta, se bem pensamos, só nos levará à conclusão a que eles, os sabidos, já chegaram há muito tempo — os trouxas somos nós...

É, pois, inútil a pregação de moral, o apelo ao bom senso, ao caráter, à dignidade. A mim me parece que tais palavras estão perdendo — se já não perderam — o sentido, o valor, o peso, a medida. Pongetti (66) disse, não faz muito, que estamos num paul. E que é que se pode esperar de um paul? Mau cheiro...

Mas não me chame, nem conte comigo, para resolver a situação. Pois se assim está escrito desde o início dos tempos, assim deverá ser.

Eu sou é da poesia. Meu xará O'Neill (67) perguntava: "Por que tenho receio de dançar, eu que amo a música, o ritmo, a graça, a canção, o riso? Por que tenho medo de viver, eu que amo a vida, a beleza da carne, as cores vivas da terra, do céu, do mar? Por que tenho medo de amar, eu que amo o amor?"

O que resta de tudo, amigo, é a poesia. Acima e além das misérias e desgraças da vida. Vamos embora, irmão. Deixemos que o mundo se acabe...

 

Notas

(65) Comissão de Exportação e Importação do Banco do Brasil

(66) O cronista Henrique Pongetti

(67) Eugene O’Neill (1888-1953), dramaturgo americano, Prêmio Nobel de Literatura

 

Fonte: Praça Oito, 2001
Autor: Eugênio Sette
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto 2014

Literatura e Crônicas

Ponte da Aliança - Por Ester Abreu Vieira de Oliveira

Ponte da Aliança - Por Ester Abreu Vieira de Oliveira

Quem não passa na Ponte da Aliança? Ó Deus! Por ela todos podem passar, pois não há discriminação... Todos passam.

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Paradise Bar Island Blues

Pois este é o êxtase: os milagres de ver, de ouvir, de tatear, de cheirar, de gustar de você, excelência, leitora vil, avessa do zero até onde é o mil! 

Ver Artigo
O Marrocos

Acabo de saber - mas que castigo, que acaba de fechar meu velho bar!

Ver Artigo
Bares, doces bares amargos da juventude - Por Milson Henriques

O Britz Bar  ficou famoso por estar localizado perto das redações de todos os jornais e logicamente freqüentado pelos jornalistas que viam o sol nascer em suas cadeiras

Ver Artigo
O Bar do David - Por Miguel Depes Tallon

Ao longo dos anos, o Bar do David foi se especializando em frutos do mar e peixe, com o melhor caranguejo 

Ver Artigo
Bares? Eu hein, nem pensar! - Por Marilena Vellozo Soneghet Bergmann

Para as colegiais de recatadas saias (quatro dedos abaixo dos joelhos), os bares eram um lugar cheio de proibições e ambivalências. Tinham algo de sombra e mistério, sedução e... fumaça

Ver Artigo