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Jerônimo Monteiro – Urbanismo em Perspectiva

Aterro feito no campinho (Parque Moscoso) pelos burrinhos, no Governo de Jerônimo Monteiro 1908-1912

O programa de urbanização elaborado por Jerônimo Monteiro, compreendeu: drenagem, aterros, água e esgoto, limpeza pública, visita domiciliária, hospital de clínica, de isolamento, cemitério público, matadouro municipal e lavanderia.

No campo urbanístico: jardins, parques, arborização, desapropriação das matas fronteiras à Rua Sete de Setembro, alargamento de ruas, iluminação pública e particular, arruamentos e edifícios.

No setor econômico: energia elétrica, fazenda-modelo para instrução e aperfeiçoamento agrícola e fomento animal. Fica-se abismado pela rapidez da concepção, mais ainda, pela justeza cronométrica dos prazos em que ela foi executada. Não se devem esquecer as dificuldades inerentes à época em que tudo era incipiente no Brasil e em que, no Espírito Santo, faltava pessoal técnico especializado para a multiplicidade dos serviços a se realizarem. Eram obras inéditas. Mas Jerônimo sabia vencer todos os obstáculos. Ainda hoje sua obra resiste à crítica mais severa. O que Jerônimo fez, em determinados setores da administração pública, repercutiu através de muitos anos na vida econômica e política do Estado, não obstante o crime de lesa-pátria, praticado por muitos governos, abandonando, destruindo ou alienando o patrimônio imenso, que ele erigira. Vejamos em análise sucinta, setor por setor, o que se realizou, em quatro anos, pela vontade poderosa de um homem singular.

No registro dos navegantes, o porto de Vitória adquirira fama pela beleza panorâmica do canal de acesso e pelo perigo do contágio de epidemias mortíferas. A história demográfica da cidade está marcada, através dos séculos, por infortúnios dolorosos. Suas condições sanitárias não ofereciam resistências aos surtos das moléstias imigratórias e transmissíveis. Por muitas vezes a letalidade atingiu cifras impressionantes, que as crônicas contam com cores melancólicas. Febre amarela, peste bubônica e varíola, em cidade pobre e sem defesa, exterminam populações. As obras de saneamento são caras. Exigem recursos vultosos, técnicos e materiais. Jerônimo Monteiro presenciara a obra de Pereira Passos, Paulo de Frontim e Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Não ignorava a transcendência do cometimento. Mas seu amor à terra o desafiava. Fossem quais fossem os sacrifícios, era preciso remir o labéu que conspurcava a salubridade climática da capital.

Diz o presidente, na "Exposição sobre os Negócios do Estado": "Sendo indispensável, a bem da saúde pública e do embelezamento da cidade, o aterro e a drenagem do Campinho (Vila Moscoso), resolvi mandar executar essa obra, extinguindo assim um foco permanente de infecção, como era aquela extensa área". Sua intenção é sempre fazer o melhor. O Campinho ou Vila Moscoso, hoje Parque Moscoso, nome que lembra o presidente da província, foi o primeiro objetivo. Nomeou uma comissão de oito engenheiros, para opinar sobre a drenagem e, acatando o parecer, mandou que se fizesse o resolvido. O canal da Rua da Vala, projetado pelo engenheiro Pedro Bosisio, no governo anterior, recebeu drenos secundários, coletando os lacrimais e vertentes de toda a bacia do Moscoso. A Rua da Vala transformou-se em, Avenida da República, cobrindo o canal em concreto armado e laje de metal "deployer". (26) Superfície ampla, com mais de quatro hectares, o Parque Moscoso havia resistido a todas as tentativas de aproveitamento.

Em vão o primeiro Conselho Municipal procurara recuperar a esplêndida planura. As esperanças todas foram depositadas na Companhia Torrens, mas não medraram. Tudo não passou de quimérica ilusão. A Avenida Marcos de Azeredo, antiga José Carlos de Carvalho, com sua meia dúzia de "chalés", alinhados contra o morro de Santa Clara, transformava-se em córrego caudaloso nos chuvas do estio.

O impaludismo morava com os poucos habitantes do recanto.

Com sacrifício se reuniam exóticos sócios da rinha de galos, na esquina atual das Ruas 23 de Maio e Marcos de Azevedo, onde depois se construiu o prédio para sede do Clube Vitória, fundado em 16 de julho de 1912. Atualmente erguem-se os Edifícios D. Marieta e Serafim Derenzi.

O volume de terra, material escasso na ilha de Vitória; para aterrar o banhado, não preocupou o governo de Jerônimo Monteiro. Era preciso dotar a cidade de novo hospital. A Santa Casa, quase centenária, já não correspondia às necessidades da população. Suas condições higiênicas eram precárias. Os alicerces do novo hospital, iniciado por Moniz Freire, na praia do Suá, aluiam ao castigo do mar. Os médicos aconselharam que se construísse no mesmo ponto a nova casa de caridade. Era necessário aplainar e ganhar área maior no morro, que a providência implantara naquela belíssima curva do fim da Rua do Comércio. Acredito que Jerônimo Monteiro tenha exultado com o projeto. O rebaixo do nível da colina proporcionaria material para o aterro do Campinho e área maior para os pavilhões hospitalares. A rocha, que se encontrasse e a sobra de terra seriam aproveitadas paro novo logradouro, ganho ao mar, fronteiro à ilha do Príncipe. Jerônimo Monteiro planejava em silêncio.

No plano Torrens, os terrenos do Campinho foram divididos em lotes e vendidos antes de recuperados ao pântano. Desapropriou o presidente as partes alienadas, requereu, por aforamento, ao Patrimônio da União, toda a gleba, legítimos terrenos da Marinha. Cometeu ao Dr. João Thomé Alves Guimarães, culto e honesto advogado, a incumbência da desapropriação. Não esperou, porém, o governo pelo término do processamento para iniciar os trabalhos de desmonte e terraplenagem, pois em 27 de agosto de 1910, e, a 26 de fevereiro do ano seguinte, contratava, respectivamente com o Cel. Antônio José Duarte (27) o aterro e com Paulo Motta, o ajardinamento da maior parte da área a ser beneficiada.

Os contemporâneos de hoje, habituados ao uso de máquinas de terraplenagem, com capacidade de centenas de metros cúbicos por hora, não podem conceber o esforço titânico, que se despendeu naqueles meses revolucionários. Toda a escavação foi feita à mão, e o transporte em carroças de burro. Serafim Derenzi e Joaquim Pinto de Miranda, velhos ferroviários da Leopoldina e da Vitória-Minas, empregaram centenas desses veículos hoje obsoletos, mas credores de toda admiração pela vasta rede ferroviária, que ajudaram a construir, antes do advento da mecanização, ocorrida em 1937. Trabalho rude, mas empolgante. A tudo assistia o Dr. Jerônimo Monteiro, acompanhado pelo ajudante de ordens, capitão Hortêncio Coutinho, nas suas visitas noturnas e confortadoras. Irradiava confiança e simpatia. Os operários redobravam esforços para melhor servir ao Estado.

Lembro-me de algumas dessas visitas, do grande presidente à nossa casa, junto ao parque, onde sempre morou minha família. Tudo indagava de meu pai, inteirando-se da produção diária.

À medida que o aterro avançava, Paulo Mota ia esfaqueando os canteiros do magnífico parque florestal e florido, que veio a ser o Parque Moscoso, orgulho dos capixabas e um dos mais belos de todas as capitais. Paulo Mota merece menção especial. Não teve curso superior, mas era um esteta, um panteísta romântico. Toda sua alma se refletiu na forma harmoniosa do jardim, que desenhou, construiu e matizou de mil arbustos policrômicos. As minúcias são quase de ourives: lago, "ruínas", repuxos, fonte luminosa, recantos sombrios, labirintos, pontes, tudo caprichosamente perfeito. Não esqueceu os cisnes abstratos e os gansos vigilantes contra os profanadores intrusos. Paulo Mota difundiu o gosto e o amor à jardinagem. Introduziu inúmeras árvores ornamentais, foi precursor do Horto e sonhava fazer um jardim botânico. Desenhista exímio, foi o autor do projeto da Catedral e de muitas "vilas" em Vitória. Com seu desaparecimento, em 1937, os jardins e a arborização da cidade perderam seu melhor amigo.

O saneamento prosseguia “pari-passu” com todas as demais obras fundamentais. As canalizações de água, a rede de esgoto e as linhas aéreas, para o transporte de energia, acompanhavam os trabalhos de adução, represas, barragens e usina de força.

 

NOTAS

 

(26) Serviço executado por Serafim Derenzi.

(27) Antônio José Duarte, capitalista e sócio da firma Duarte e Beiriz, comerciante em Iconha, foi o empreiteiro geral de todas as obras construídas por Jerônimo Monteiro. André Carloni, construtor da Sta. Casa, Miranda e Derenzi, autores das drenagens e terraplenagem, foram tarefeiros.

 

Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2017

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