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Na Rua da Lama - Por Mário Gurgel

Capa do Livro - Crônicas de Vitória

Fomos procurar lá para os lados da Engenharia, no último domingo pela tarde, uma velha conhecida nossa da Ilha do Príncipe, quase surda e desmemoriada. Encontramo-la de cócoras com algumas vizinhas, conversando aos gritos e em meio a gestos largos e significativos, numa eloquente demonstração de esforço para vencer o olvido completo dos fatos e no receio de mergulhar definitivamente no alheamento.

É bem estranha a atuação da sociedade em relação à velhice pobre. Essa anciã é o símbolo de milhares de velhos que caem por aí pelas estradas largas desse Brasil desumano e ingrato. Escapam aqueles a quem piedosos meninos de Copacabana, num requinte de divertimento, jogam álcool por cima e ateiam-lhes fogo, para depois serem moderadamente admoestados pelas autoridades. Velho brasileiro e pobre só tem um destino: pedir esmolas, divertir garotos vadios, morrer esquecido e humilhado em nossos asilos, que existem à custa de sacrifícios sem conta de senhoras e moças que peregrinam pelos escritórios e repartições solicitando ajuda e vendendo ingressos de recitais.

A nossa velhinha mora na Rua da Lama. Só o nome da rua constitui opróbio e significado social. No meio do matagal, nos fundos da Escola de Engenharia, vivendo modestamente num quarto pequeno e triste, solitária, quase surda, imaginamos a desdita daquelas noites de insônia e medos que a agitam na fragilidade dos seus mais de 80 anos.

As velhas ricas, as anciãs da sociedade, têm as suas acompanhantes, as suas enfermeiras, as suas assistentes, são postas ao sol para se aquecerem, observam da janela o movimento das ruas, e, quando podem ouvir, recebem dessas serviçais a leitura, a dedicação sincera ou fingida, mas paga pelos parentes, que têm as suas recepções sociais, seus espetáculos de teatro, seus torneios de buraco, suas horas de lazer e distração. Não fossem as Irmãs de Caridade, não tivéssemos um grupo de senhoras — que se revezam de acordo com o movimento da política, mas sempre a serviço dessa bondosa devoção — não sabemos o que seria daquele grupo de velhos que espera serenamente a morte.

Diz um velho artigo lido, parece, num livro de Humberto de Campos, que numa cidade mineira havia um asilo de velhos, no qual a morte fazia periodicamente sua ceifa terrível, em grupos expressivos. Um dia um capitalista lembrou de comprar algumas máquinas, e passou a patrocinar a fabricação de tarrafas, de cestos e vassouras, e, milagre!, os velhos deixaram de morrer. O amor àquela modesta posse, a certeza de poderem comprar um pouco de fumo, de fazer um jogo de bicho, de comprar umas rendas de almofadas com o próprio dinheiro, com o seu próprio ganho, ressuscitou neles a chama quase extinta da vida.

Alguém nos disse há algum tempo que só numa epidemia de gripe — epidemia de rotina, dessas que de vez em quando aparecem — morreram 18 velhos e velhas. Chamado para atender a alguns enfermos a sabendo que há muito tempo não ia ali um médico, um sacerdote resolveu dar a extrema unção a todos os velhos, na certeza de que poucos escapariam. Os que se salvaram continuam lá, cachimbando o seu pito apagado ou aguardando a visita de domingo, quando alguns amigos aparecem e lhes fornecem um pouco de material para acendê-lo. As velhas se aquecem ao sol e desfiam com os dedos trêmulos os fios prateados de cabelos ralos, alheias ao tempo e às pessoas que as rodeiam.

Fazemos por isso um apelo aos que querem efetivamente ajudar à atual diretoria daquela casa. Comprem algum material que possa servir para modestos trabalhos, reduzidos artesanatos, experiências leves que façam reanimar as fisionomias amortecidas daqueles homens e mulheres, que tragam um fulgor aos olhares esmaecidos daqueles vultos respeitáveis. Ao invés de pães, pedaços de bolo, pedaços de rolo de fumo, cigarros, tragam aos que dirigem a casa assistencial possibilidades para realizar algo nobre e digno, algo melhor que a esmola dirigida a um canto, para escondê-la aos olhos espantados das ruas.

A velhinha que está de cócoras na Rua da Lama, foi uma mulher trabalhadora e ativa, criou filhos seus e dos outros, lutou, sofreu, tirava caranguejos para sustentaras crianças que a sociedade não acolhia ou aqueles que os próprios pais abandonaram. Está se acabando agora, esquecida e silenciosa, numa rua coberta de mato e com um nome que ofende a sua dignidade e os seus brios de mulher lutadora.

 08/11/63

 

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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