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O Colégio Americano dos Meus Tempos - Irysson da Silva

Colégio Americano

Começo este trabalho com ilustres palavras alheias.

Cito-as porvindouras do rei-poeta Davi, figura exponencial da vetusta nação israelita.

São expressões textuais do poderoso monarca referido, fulcradas na aparente nudez do céu-firmamento, obra das divinas mãos, quiçá, ao sabor duma histórica noite plenilunar, nas verdejantes campinas da Palestina.

Ao som melodioso, talvez, de sua harpa magnífica, assim falou o conspícuo rei-guerreiro: "Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela sabedoria a outra noite. Sem linguagem e sem fala, ouvem-se as suas vozes em toda a extensão da terra e as suas palavras até o fim do mundo."

As experiências de um dia e as meditações duma noite asseguram ao perspicaz observador sublimes ideias e alcandorados ideais, que o norteiam e diretrizam pelos caminhos da vida.

Tais elementos são como que a "estrela matutina" que aponta ao homem o seu destino, à conquista de seus ideais.

Foi no bojo destes raciocínios que Loren M. Reno aninhou em sua mente e em seu coração o brilhante ideal duma instituição educacional que alcançasse e favorecesse a mocidade capixaba, sonhadora e futurosa, prenhe de nobres aspirações.

A concretização de nossos ideais passa por exigências e barreiras, vezes muitas, de superação quase impossível.

Nas pugnas em seu favor, aventuramos caminhar por longas e fastidiosas estradas, por veredas ínvias e pedregosas.

Mourejando com destemor, ao tremular do pendão do idealismo e da esperança, o intimorato Loren Reno alçou vôo e lançou-se à batalha.

Espetacular vitória não se fez tardar.

Materializou-se, esta, na aquisição duma expressiva área de terra, ao sopé e às bordas do morro Moscoso.

De relevo montanhoso, aquele terreno era bem o símbolo das lutas a serem arrostadas pelo gigante Loren Reno, em sua caminhada rumo ao cume da Glória.

Ali estava, pois, o que se passou a chamar de "A Chácara".

Dei-me por gratificado e honrado ao conhecer aquele belo sítio, por volta de 1939, oriundo de Castelo, aos 13 anos de idade.

Belos edifícios uns, modestos outros, tendo a capitaneá-los o edifício central, alvo, majestoso, em estilo grego, pontificavam por aquelas paragens, verdejantes e fartas de vegetação.

Sete edifícios ao todo.

Um revestimento floral adornava e opulentava aquele pedaço de terra abençoado.

Ali jaziam jaqueiras frondosas e copudas, mangueiras que transmudavam aquele sítio em autêntico paraíso de insetos, aves e pássaros, todos na ingente faina de seu ganha-pão diário.

As palmeiras e os coqueiros, com imponente majestade, marcavam suas presenças com encanto e graciosidade.

E que dizer da árvore de fruta-pão, dos bambuzais, das goiabeiras e dos araçás, dos cacaueiros e das bananeiras?

Aliando o útil ao agradável, com trato carinhoso e esmerado, lá floresciam belas e garridas roseiras, margaridas, beijos, graxas ou papoulas, girassóis, samambaias, cravinas, amores-perfeitos, avencas e variadas trepadeiras.

Trescalando seus inebriantes aromas, as flores falavam de seus encantos, alardeando, ainda, uma policromia invejável.

Este edênico recanto, com fatores que tais, era, em realidade, uma síntese e um símbolo duma obra maiúscula que germinava célere na consecução dum grandioso ideal.

O ambiente material e físico era, a meu ver, o ninho, o berço, a sede germinativa duma obra magistral que, paulatinamente, se agigantava.

E, neste pensar, não havia nenhum resquício de engano.

O onirismo renista, gradativa e solidamente, adentrava os arraiais do factível.

Agora, o ano escolar, em seu segundo semestre, eclode com intensidade e vibração.

Um verdadeiro formigueiro humano agitava o pátio do colégio, os corredores e as salas de aula do Americano.

Era uma verdadeira ebulição!

O solene e periódico tintinabular das sinetas e campainhas era uma formal convocação daquela buliçosa colméia para os seus labores.

O cotidiano daquele formigueiro humano tinha sua inspiração numa alegre disciplina formativa.

Levantar-se ou deitar-se nos horários certos, banhar-se e repousar-se à base de previsões regulamentares (nos internatos), adentrar-se às salas de aula ou retirar-se do colégio, tudo se fazia com ordem e naturalidade ao som, vezes muitas, de estridentes campainhas ou sinetas.

As amizades e conhecimentos encetados ali no Americano, àquela época, forjaram e solidificaram duradouras amizades que nos aproximaram de São Mateus, Colatina, Linhares, Conceição da Barra, Guarapari, Iconha, Itapemirim, Alegre, Afonso Cláudio, Domingos Martins, Cachoeiro de Itapemirim, Sauaçu, Castelo, Viana e cidades outras das Minas Gerais.

Em meio a este monumental acervo de belezas, cores, perfumes, amizades, como se olvidar a figura ímpar de nosso diretor, Dr. Alberto Stange Júnior? Não há como.

Sua inigualável habilidade em aconselhamentos, sua lhaneza de trato, seu engenho administrativo, sua presença catalisadora. Na ambiência escolar, ao lado de suas imanentes virtudes, eram uma linda defluxão dos ideais lorenrenistas.

Dois artistas, dois apóstolos nas lides educacionais, em plagas capixabas.

Loren Reno sonhou, arquitetou e concretizou o que almejara.

Com habilidade incomum, Alberto Stange deu segmento aos ideais lorenrenistas, com a roupagem própria de suas idiossincrasias e visão.

As belezas e os encantos ofertados pela velha "Chácara" eram, também e agora, as belezas e encantos duma instituição que, esparzindo educação, cultura e instrução, abençoava jovens às dezenas e centenas, adequando-os a viverem por si e no afã de dignificarem o Espírito Santo e o Brasil com seus labores.

Forja do saber e templo da educação era o Colégio Americano dos meus tempos!

Quanto respeito aos mestres! Quanta dedicação dos professores.

As lições de moral do Dr. Quintino, a doçura e delicadeza do Dr. Almir Gonçalves, a erudição do prof. Ivo, a cultura e didática do Dr. Ceciliano, a sabedoria e o civismo do Dr.Cícero de Moraes, o saber e o humanismo do Dr. Eurípedes, a elegância e o espírito científico do Dr. Belesa, a maestria e a personalidade do Dr. Pereira Franco, a simplicidade e amizade da prof Zilda Andrade, a firmeza e aplicação do prof. Van-Dyke, a musicalidade da prof Ricardina e do Rev. Renato, a espontaneidade e conhecimento do Dr. Nelson Abel de Almeida, o espírito maternal do professorado do primário, este coordenado pelas professoras Hilda Brito e Fany Gonçalves, a energia e o desassombro da profª Maura Abaurre, a dedicação e competência da profª Antonieta Ramos, a pontualidade e eficiência do prof. Léo Ribeiro, tudo se junta num somatório de imorredouras e inapagáveis recordações e nos fazem retroceder, no tempo e no espaço, a um Americano de ouro e de glórias infindas.

O Americano, plantado ali na "Chácara", sem sombra de dúvidas, tornou-se uma, como que, reprodução do que de belo e agradável lhe oferecia o solo em que fora plantado.

Tornou-se, por isso mesmo, um jardim com frutos, flores e perfumes.

Sim, os frutos de vidas preparadas para as lutas da existência, as belas flores duma educação sadia e refinada e o embriagador perfume dum alevantado ideal que se concretizava em realidades palpáveis e eternas.

Seu refrão, seu lema de combate surgiu da mente estudantil:

O Colégio Americano,

Sempre forte e campeão,

Venceu e vencerá

Em qualquer competição.

 

Estas firmes convicções valiam para os esportes e demais cometimentos da vida colegial.

É assim que, em retrospectiva de saudades, consigo ver O COLÉGIO AMERICANO DOS MEUS TEMPOS.

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 10 – Escolas, 1995
Autor: Irysson da Silva
Nascido em Castelo (ES).
Advogado, professor e escritor.
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2020

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