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Os primitivos donos da terra – Por Levy Rocha

Índios Botocudos

O professor Epíldio Pimentel aconselhou-me, por carta: “Outro livro que você poderá escrever, e será importantíssimo: o estudo dos índios, que ocuparam a terra capixaba desde o século XV (até quando poderão ir suas pesquisas, alcançando os primeiros anos do século atual). Nomes de nações, tribos, chefes, vocabulários, usos, etc. Será louvável exemplo para que etnólogos de outros Estados brasileiros o imitem”. E, concluía: “Rondon e Roquete Pinto talvez pudessem tê-lo feito, abrangendo o Brasil inteiro, mas não o fizeram”.

Nem me sobrou tempo para recordar ao amigo a melhor indicação de sua própria pessoa para dar cabo da tarefa proposta, reportando-me à entrevista que ele publicou, em 1934, na Revista do Instituto Histórico do Espírito Santo, com o chefe do Serviço de Índios daquele Estado, Antonio Estigarribia. Poucas semanas decorridas, recebíamos a triste notícia do seu passamento, no Rio.

Ao tratar o momentoso assunto dos índios é preciso considerar, preliminarmente, que o tema foge à competência de um simples escrevinhador, abrangendo os etnólogos, antropólogos físicos, arqueólogos, paleontólogos e geólogos.

Afonso Cláudio, ao apreciar em sua "História da Literatura Espírito-Santense" o livro de História de José Marcelino Pereira de Vasconcelos, acha que o autor deveria ter precedido a obra com idéias gerais sobre a região colonial e seus habitantes aborígenes. Noutro ensaio que publicou duas décadas depois, o crítico volta ao fator indígena na formação do nosso Brasil-Colônia e faz um capítulo relativo à "Indicação das tribos indígenas no Estado do Espírito Santo", que é uma síntese da "Memória" de Afonso A. de Freitas, publicada em tomo especial da Revista do Instituto Histórico do Rio de Janeiro. E menciona as tribos encontradas no Espírito Santo, em 1500: tupiniquins, dominando a faixa litorânea entre o rio Camamu (sul da Bahia) e o rio Cricaré (São Mateus); aimorés, que ocupavam os sertões do interior, desde a Capitania de Todos os Santos até a do Rio de Janeiro; botocudos, dominantes das florestas da Serra do Mar, entre os rios das Contas e o Paraíba; puris, habitantes do extremo-oeste do Espírito Santo, ao longo do rio Santa Maria, até as montanhas de Minas; tupinaés, que ocupavam toda a faixa de Vitória até o rio Paraíba e os goitacás, dominantes do sul capixaba e norte do Estado do Rio.

Em 1963, Judith Freitas de Almeida Melo, reto-mando o assunto, publicou uma colaboração na Revista do Instituto Histórico do Espírito Santo, na qual reproduziu o mapa de distribuição geográfica das tribos indígenas do Espírito Santo, elaborado pelo etnólogo alemão, Curt Nimuendaju, no ano de 1944. E deu extensa bibliografia, necessária aos pesquisadores do assunto.

Índios houve, e muitos, na terra capixaba. Foram tantos que deixaram bem marcada, nos usos e costumes da Capitania, a sua influência. Esta se tornou tão pronunciada que, em 1758, uma carta-régia proibia nomes indígenas, como Reritiba, em novas povoações, segundo Mário Freire, e, informando-me noutra fonte histórica, Basílio Daemon: em 1795, as câmaras municipais das vilas de Vitória e Nova Almeida expediram uma ordem proibindo "o costume de só falar-se na capitania a língua dos silvícolas, viciando-se, assim, o idioma português, sendo os infratores sujeitos às penas de prisão".

Enquanto João Ribeiro, num esforço de síntese escrevia que a história do início da colonização do Espírito Santo "consiste em encarniçadas lutas entre os colonos, que apenas ocupam o litoral, e os índios bravos botocudos e goitacás, que descem de vez em quando em correrias até a costa", o historiógrafo capixaba, Braz Rubim, muito tempo antes fizera a observação: "Seria hoje sumamente difícil assinalar positivamente o território em que cada uma tribo se circunscrevia". E, acrescentava: "Andavam sempre com diferenças e guerras, avançavam ou retiravam-se à medida das necessidades de alimentação ou da sorte dos combates."

As tribos contemporâneas de Vasco Coutinho vinham do interior a mariscar na costa; iam aos mangais pescar ostras e bergigões. "Tomavam tantas que deixavam serras de cascas e os miolos levavam de moquem para comerem entre ano", ao que consignou Fernão Cardim. Foram os casqueiros que reduzidos a cal serviram às construções das fortalezas e dos colégios e igrejas jesuítas.

O peixe que pescavam com grande fartura, os índios sabiam conservar moqueado, assando-o em fogo brando e faziam a farinha de peixe para mais longa duração.

Essas tribos do interior, como todas, não usavam o sal na comida, mas atendiam às exigências do organismo servindo-se do sal em pitadas. Eles sabiam remediar, reduzindo a cinzas espécies vegetais, como o aguapé ou uma palmeira e obtinham o cloreto de potássio, de idêntico sabor. Mas, para o imprescindível cloreto de sódio procuravam o caminho do mar. Iam, também, premidos pela necessidade de obterem os instrumentos de ferro trazidos pelo branco: facas, facões, machados e enxadas. Só assim podiam desprezar os machados de pedras ou cunhas, usados para cortar as árvores e os bastões de cavar, empregados na semeadura das roças de coivara.

Nesse quase meio século decorrido, os fabricantes de cal, o efeito das erosões e o sistemático saque das jazidas arqueológicas deixaram as antiguidades indígenas muito embaralhadas. O livro aberto, das ostreiras, restou com as páginas desordenadas.

Modernamente, empregando a radioatividade, a ciência conseguiu um recurso para determinar a idade desse material, através do carbônio 14; tornou possível a ordenação das páginas do livro aberto e do alfabeto arqueológico.

O assunto passou às universidades, aos centros de ensino e pesquisas arqueológicas, aos competentes estudos em equipes, com trabalhos de campo, escavações, colheitas estratigráficas do material cerâmico e lítico.

Foi assim que encontramos, no Museu de Jucutuquara, o professor Celso Perota, do Museu de Arte e História da Universidade Federal do Espírito Santo, envolvido com farto material de sambaquis do São Mateus: machados de pedra, polidos ou semipolidos, pedras com "covinhas" ou quebra-cocos, pedras martelo, pedras suporte, talhador, raspador com função de faca, vértebras trabalhadas, pontas de flechas de osso animal, cacos de cerâmica decorada, das fases Cricaré e Itaúnas, e até fragmentos de cachimbos indígenas. Alguns crânios e esqueletos incompletos foram remetidos a professores de Belo Horizonte, para maiores elucidações.

Tão boa disposição das equipes, evidenciada no professor Perota, é promessa auspiciosa de que o estudo dos índios conforme desejou Elpídio Pimentel, acabará sendo feito, valorizado e, talvez, definitivo.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha, 1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

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