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Os vizinhos de Florentino Avidos – Por Jair Corrêa

Flor de Maio

Eu nasci em Vitória, na Rua Domingos Martins, 42, atrás da Catedral. Lá fiquei até 1918, após a Primeira Guerra. É que papai tinha migrado para Campos. E ficamos, eu, a mamãe e mais seis filhos, aqui sozinhos. Foi quando veio a Gripe Espanhola e nós passamos uma situação muito difícil, porque faltava quase tudo. Até a alimentação faltava. Isso era em 1918, 1919, depois da Primeira Guerra. Eu tinha, então, mais ou menos 9 anos. Nessa época nós tivemos um período apertado pois passamos seis meses só comendo bucho e feijão, porque nós não tínhamos dinheiro para mais nada. Apesar de que havia o meu padrinho, José Bento, que tinha um hotel e para a mamãe ganhar algum dinheiro para a nossa alimentação ela passava as toalhas do hotel. E a toalhas, na época, tinham mais de dez metros de comprimento, pois as refeições eram servidas numa mesa só. Então era um meio de arranjar dinheiro para a nossa alimentação.

E nós tínhamos como vizinho Florentino Avidos. A filha do Florentino Avidos, a Diná, era muito amiga nossa. Florentino Avidos tinha sido presidente do Estado. E a Diná gostava muito de mim. E nós brincávamos muito juntos e ela me convidava: "Jairzinho, vamos lá em casa comer um bife, comer uma coisa". Mas a mamãe nunca deixou. Nós éramos proibidos de comer qualquer coisa fora de casa, de aceitar qualquer coisa de fora. Nem na casa de minha tia, que morava no São Francisco. E nós íamos lá aos sábados e aos domingos, visitar a minha avó. E a mamãe não nos deixava comer nada lá.

Então papai tinha migrado para Campos. E mamãe resolveu que nós íamos para lá, à procura dele, porque nós não tínhamos notícias sobre ele. Não sabíamos se ele estava vivo ou se estava morto, não sabíamos nada. Mamãe arranjou dinheiro com meu padrinho, o José Bento, e embarcamos. Nós fomos para Campos sem sabermos a situação do papai lá. Sabíamos só o endereço: ele trabalhava na Rua Amazonas, número 12, numa alfaiataria. E quando chegamos em Campos, mamãe foi justamente nesse endereço para saber o paradeiro do papai. E teve uma decepção danada quando soube que o papai estava na Santa Casa, com a Febre Espanhola. Nisso, o proprietário da alfaiataria resolveu alugar uma casa na Rua Goitacás e fomos todos para lá. Uns oito dias depois papai saiu do hospital e se juntou a nós. Ele já tinha, então, melhorado e começou a trabalhar novamente. Passamos em Campos, seguramente, uns dois anos, até quando papai resolveu voltar novamente para Vitória.

Voltamos para Vitória e fomos morar em Argolas. Isso já se passava nos anos de 1920, 1921. Morávamos, então, em Argolas e eu estudava na Escola Modelo Jerônimo Monteiro, ao lado do Palácio. Eu estava no terceiro ano e minha professora era Dona Teresa Calazans. Outra professora que eu tive foi Dona Valdívia Santos. Aliás ela gostava muito de dar beliscões na gente. No quarto ano eu tive como professor o professor Nunes. Este gostava de chamar a gente de "descaradinho, descaradinho". E de pisar no dedo do pé da gente. "Vem cá, descaradinho, vem cá". E pisava no dedo do pé da gente. Quando a gente fazia desordens, é claro.

Mas eu tinha um colega, o Calazans. E nós éramos insubordinaos mesmo. Nós não tínhamos jeito não. Nós pegávamos umas penas, fazíamos cataventos e jogávamos na cabeça dos outros. E com isso o castigo era toda a hora, não tinha jeito.

Aí eu deixei de estudar. Deixei de estudar e papai me disse: "Agora você vai trabalhar". Eu tinha, mais ou menos, uns onze anos. E eu fui trabalhar na Charutaria e Café Globo, na Praça Oito. João Climaco era o dono da charutaria. E eu trabalhei na charutaria. E depois da charutaria eu fui trabalhar com o Parra, agência de bilhetes. Era um espanhol, conterrâneo da mamãe. Ele morava na Praia do Suá. Nós íamos, nos domingos, na casa dele, passar o domingo lá, íamos de bonde. O bondinho ia até a Praia Comprida. Na Praia Comprida havia um conterrâneo do papai, que tinha uma loja de ferragens. E era a única casa que havia lá na Praia Comprida. Era um português. Mas todo domingo nós fazíamos um piquenique lá. Ou na Praia Comprida ou com o "seu" Parra. A senhora do "seu" Parra era a Dona Lali Parra.

Nisso eu trabalhava com ele. Depois passei a trabalhar com um turco, na "A Violeta", na Praça Oito, Domingos João. Em 1924, a Tatina e a Chiquinha casaram. A Tatina com o Frederico e a Chiquinha com o Diniz. A Tatina foi residir em São Paulo e a Chiquinha foi residir em Campos. O Frederico viajava para uma casa de pianos, lá de São Paulo. E vinha aqui e namorou a Tatina que, nessa época, era caixa da "Flor de Maio". Foi a primeira caixa mulher que teve o comércio aqui de Vitória.

E quando a Chiquinha teve a primeira filha, a Inocência, a mamãe tinha ido para Campos. E papai resolveu ir lá fazer uma visita. E quis me levar. Mas o problema era o turco deixar eu sair da loja para ir viajar. Eu falei com "seu" Domingos e ele disse: "Ah, você não pode sair não". A loja começava a trabalhar às seis horas da manhã e fechava às sete da noite. Então papai disse: "Se ele não der licença, então, você larga o serviço e nós vamos embora fazer a visita". E aí nós fomos para Campos.

Eu e papai tomamos um misto aqui, pernoitamos em Cachoeiro de Itapemirim e fomos a Campos visitar a Inocência. Nisso, a Chiquinha me convidou para ficar lá para estudar. E papai, então, combinou: "Nós vamos para Vitória e, no ano que vem, ele vem para cá para a sua companhia". E no ano seguinte eu fui para Campos, lá para a companhia de Chiquinha, e fui estudar no Colégio Bittencourt. Em Campos estudei dois anos, no máximo. Depois retornei para Vitória. Cheguei aqui em Vitória e não tinha emprego, não tinha nada. Resolvi, então, ir para o Rio. Estávamos, mais ou menos, em 1926, 1927. E resolvi ir para o Rio para aventurar. Cheguei lá no Rio e a situação ficou crítica. Encontrei com um amigo, o Eduardo Neves, que estava lá também desempregado. E ele tinha um quarto lá na Saúde, um quarto que não tinha nem cama. E nós, então, dormíamos lá em cima de jornal, porque não tinha outro jeito. E, então, nós resolvemos embarcar, como ajudante de convés. E até começamos a estudar para isso. Mas quando nós estávamos quase por embarcar, a uma semana para embarcar, mataram o comandante que era o presidente do Loyde Brasileiro. Aí não embarcamos mais.

Nesse ínterim a Casa Hélio abre uma filial no Rio. E eu fui trabalhar na Casa Hélio e morar com a Tatina no Engenho Novo. Papai tinha feito uma viagem para fazer uns exames do duodeno, parece que era uma úlcera que ele tinha no duodeno. E eu fiquei no Rio seguramente uns dois anos, mais ou menos até 1929, 1930. E papai passou por lá. E a Chiquinha já estava morando no Rio. Tinha se mudado de Campos para o Rio. E ela foi morar na Piedade, lá na Rua Assis Carneiro. E eu resolvi e fui morar com a Chiquinha. Deixei a Tatina e fui morar com a Chiquinha lá na Piedade. Lá fiquei mais ou menos uns dois anos. Deixei a Casa Hélio e arranjamos uma máquina para cortar chapas decorativas. Eu e o Diniz. Na época, usava-se muito essas chapas para decorar paredes de casas. Sobre as chapas passava-se a tinta e as paredes ficavam decoradas. Então nós montamos o negócio. O Frederico mandou vir uma máquina de cortar da Alemanha, nós cortávamos, fazíamos os originais e vendíamos nas casas de tintas. Nesse ínterim papai passou pelo Rio, onde tinha ido fazer um exame no duodeno, e, perguntou se eu não queria vir embora para Vitória. E eu falei: "Vai o senhor que depois eu vou". Quando foi no princípio de 1930 eu resolvi e vim embora para Vitória, novamente.

Quando cheguei aqui em Vitória nós estávamos morando na Rua Sete. Papai e mamãe estavam morando na Rua Sete. O Silvestre tinha alugado uma casa na Rua Sete e nós morávamos lá. Anita já era casada com o Silvestre. E papai arranjou para que eu fosse trabalhar na "Flor de Maio". A "Flor de Maio" ficava ali mais ou menos onde hoje está aquele hotel ao lado das Pernambucanas. A antiga "Flor de Maio" era ali. Eu trabalhava com o "seu" Paulo e trabalhei lá mais ou menos uns dois anos. Até que ele adoeceu e foi para o Rio, fazer um tratamento do coração e deixou um tal de Zacarias, sobrinho dele, para tomar conta da casa. Mas ele pediu que eu vigiasse a casa, pois ele tinha outro sobrinho lá danado para botar a mão no dinheiro. Mas eu não podia vigiar. Vigiar o sobrinho dele? Além disso o Zacarias não gostava muito de mim.

Todo sábado eu ia à loja para fazer a vitrine. Todo sábado à noite. E num desses sábados, quando eu estava fazendo a vitrine, apareceu um viajante, dos calçados "Bussato", que, conversando comigo perguntou:

— Jair, você não tem vontade de trabalhar em Aimorés?

 E eu respondi:

— Eu vou.

— Você vai mesmo? Para lá tem expresso terça-feira, quinta-feira e domingo. Se você resolver mesmo, eu telegrafo para o rapaz de lá, o João Campos, que está abrindo uma loja e precisa de um rapaz bom para trabalhar.

— Pode telegrafar que eu vou terça-feira — disse eu.

Quando chegou sábado eu falei para o Zacarias:

— "Seu" Zacarias, eu não vou trabalhar mais aqui não. Vamos fazer as minhas contas que eu vou sair.

E ele: — Você só pode sair quando o "seu" Paulo regressar do Rio.

— Bom, se o senhor não faz as minhas contas, eu saio de qualquer maneira — respondi.

E eu não recebi as minhas contas até hoje, mesmo porque eu não voltei lá para receber.

Terça-feira eu peguei o expresso e fui para Aimorés.

 

Apresentação do Livro “Os Caminhos por onde andei” – Por José Carlos Correa

 

Foi durante as conversas que sempre tenho com meu pai que nasceu a idéia desta entrevista. Sempre gostei de fazê-lo recordar as passagens da sua infância e da sua juventude. É que percebi que essas recordações são por ele guardadas com muito carinho. Com admirável riqueza de detalhes ele descrevia os fatos, as datas, os cenários, os diálogos. E quando repetia alguma história meses depois, o fazia com notável precisão, com depoimentos rigorosamente iguais. Esse detalhe mostrava, com clareza, que suas recordações eram verdadeiras, rigorosas, fiéis, sem exageros ou omissões tão comuns nas conversas coloquiais.

Inicialmente planejei apenas gravar suas histórias. Queria guardar uma fita com aqueles casos mais conhecidos da vida de meu pai, que eu já tinha ouvido algumas vezes mas tinha sempre receio de esquecer algum dia. Ali estaria a sua voz, o seu jeito característico de falar, as suas memórias mais importantes, suas lutas, seus ideais. Seria, para mim, uma lembrança preciosa a guardar junto com os meus álbuns de fotografias.

Tudo combinado, passamos uma tarde inteira de um domingo de junho de 1988 a conversar diante do gravador ligado. E a medida em que ele falava, mais me convencia que estava diante de um documento importante. Porque enquanto a fita rodava, papai narrava com desenvoltura toda a sua vida, fluentemente, sem pausas, sem vacilações, sem o menor cansaço. E o que seria uma conversa despretensiosa, passou a ser uma entrevista comovente. Papai abriu seu coração, mostrou-se de corpo inteiro como realmente ele é: um homem de coragem, que viveu intensamente a sua época, que construiu uma vida de trabalho que é um exemplo e um orgulho para todos os que puderam compartilhar dos seus dias.

Quando ele colocou um ponto final na gravação, a noite já descia sobre Vila Velha. E ao acender a luz do seu quarto, onde conversamos, eu já sabia que tinha feito a entrevista mais importante da minha vida.

Foi então que decidi passar tudo o que havia sido gravado para o papel. Quem sabe, reescrever as histórias, rearrumá-las dentro de uma seqüência de mais fácil leitura e passar um exemplar para cada filho. E por que não também para os netos? Para as pessoas mais chegadas?

E comecei a transcrever o material. E quanto mais transcrevia mais percebia que a seqüência estava correta. Papai se mostrava um perfeito e competente contador de histórias. Até algumas idas e vindas, a citação de um fato mais recente antes de um mais antigo, um comentário perdido adiante referindo-se a caso já contado, até todas essas coisas tomavam a leitura mais agradável. E resolvi transcrever a sua fala até o fim.

O resultado é o que aqui está. Não foi preciso reescrever coisa alguma. Não foi preciso rearrumar nada. Bastou ouvir e passar para o papel.

A comemoração dos 80 anos de papai me dá a ocasião perfeita para fazer essa homenagem. Uma homenagem que, certamente é dirigida mais a nós, filhos e netos, do que a ele. Porque, em verdade, é ele quem nos dá esse presente no dia do seu aniversário. O presente de deixar, para cada um de nós, um pouco de sua vida, das suas lembranças, da sua emoção. O presente de podermos sentí-lo bem pertinho. Para sempre.

 

José Carlos Corrêa

 

Fonte: Os caminhos por onde andei, Capítulo I Os vizinhos de Florentino Avidos, 1989

Autor: Jair Corrêa
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018



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Ossada Humana - Reportagem do Jornal O Diário, 1912

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