Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Praça Oito

Praça Oito. Foto cedida por Silvio Davel.

Quem passa pela Praça, imagina escutar melancólicos sons fugindo do solitário relógio que emudeceu na primavera, esperando voltar as tardes coloridas que transbordavam ingenuidade em seu redor, invadindo as lojas e lanchonetes, se apossando de todas as pessoas e deixando um cheiro de saudade no rastro.

Na loja Flor de Maio, as marcas do tempo estampadas nas vitrines e prateleiras, misturavam-se ao aomontoado de gravatas e guarda-chuvas, chapéus e malas à espera do assíduo freguês.

Os mesmos objetos expostos, ainda fazem parte da memória da Flor de Maio, que resiste até hoje, solitária e só, de frente para a Praça, cúmplice do tempo, parceira do Relógio.

Alguém ainda recordará das moças de saia pregueada, combinando com o colete a a gravata azul, vindas da Escola Normal, invadindo a discoteca do Magazin Lojas Unidas, nas tardes mornas de outono.

Algumas alunas ouviam Renato e seus Blue Caps, enquanto outras, ao pé do ouvido, marcavam encontro para o Sábado Dançante no Clube Saldanha, animado por Carlinhos e suas radiolas.

Os rapazes desfilavam suas extravagantes calças boca de sino, e em sinal de protesto exibiam nos dedos um amontoado de anéis tortos e sem valor, imitando os ídolos da época, enquanto outros se reuniam na porta do Café Praça Oito, destacando lustrosas botas de salto carrapeta, compradas na Sapataria Indígena.

Dona Maria, testemunha do tempo há 42 anos, a velha vendedora de balas, encostada na parede da Farmácia Klinger, não encontra remédio para aliviar o tédio e ainda cultiva no mesmo lugar, a sua sombra sob o sol do meio-dia, esperando a noite chegar, inventado pierrôs e colombinas dançando na Praça, vindos do Hotel Sagres, num carnaval que se foi com a tarde.

O Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, BCAES, ainda emprestava réis, os homens vestiam camisas Volta ao Mundo disputadas nos balcões da Camisaria Braizer, os comícios e passeatas, shows e noivados desfeitos, marcavam época, enquanto  o Relógio, vitorioso, marcava as horas.

Em cima da Ótica Petrochi, após percorrer um corredor sujo e mal iluminado, e em meio a uma parafernália de bugigangas e miçangas, estava instalada a Importadora Gui-Gui da Cuca, onde se comprava sempre às escondidas e com receio, as Calças Lee e o perfume Lancaster, importados e difíceis de conseguir naqueles tempos.

Havia sempre alguém com medo, e alertava aos outros:
- Cuidado com a fiscalização, se ela pegar, você fica sem calça e ainda vai preso.

Presa no mesmo lugar até hoje, a Banca de revistas do Coelho abrigava a visita diária do Otinho, Américo Rosa, Maria Cibele, Sebastião Rabelo, Adelpho Monjardim, Nelson Albel de Almeida e Vivi, um tipo caricato e folclórico, feio como só ele mesmo, exibia uma barriga extravagante em baixo da camisa amarrotada e nas mãos um pequeno caderno sujo e desbotado, repleto de autógrafos e marcas de beijos recolhidos das normalistas que revoavam na Praça.

A poesia das noites ainda passeava aos domingos, pelas pedras de ébano e marfim espalhadas pelo chão, em zigue-zague até a Lanchonete Rio Doce, ponto de econtro para um cafezinho, na porta de frente para a Avenida Jerônimo Monteiro, de frente para a vida, próximo à praça.

À meia-noite em ponto, Ratinho, um antigo garçom da Lanchonete, pendurava seu jaleco na parede, desligava a máquina de fazer café, e todos saíam apressados em direção ao ponto de ônibus, abandonando a Praça vazia, enquanto o Relógio encerrava mais um expediente, com trilha sonora de doze badaladas.

Da janela do ônibus, as lojas, as lanchonetes, os bancos, a banca de revistas e o relógio, pareciam acenar aos passageiros suplicando um breve regresso, enquanto a dupla de soldados Cosme e Damião, sem ter com quem conversar, sentava-se no banco em frente ao Banco e esperava outro dia, às oito, na Praça Oito.

 

Autor: José Valporto Tatagiba - nascido em São José do Calçado, ES, 1948. Em Vitória desde 1950. Artistas gráfico e jornalista. Funcionário da Coordenadoria de Comunicação da Emater.
Livro: Escritos de Vitória. 1 - Crônicas (1993)
Compilação: Walter de Aguiar Filho,2011



GALERIA:

📷
📷


Literatura e Crônicas

O Tirador de Areia - Por Mário Gurgel

O Tirador de Areia - Por Mário Gurgel

Arrancando do leito desconhecido e perigoso o produto que exporia mais tarde pelos lados do Cais Schimidt, no Mercado da Vila Rubim

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

As Ilhas de Vitória - Por Délio Grijó

A Ilha das "Cobras", seus proprietários são os herdeiros do Sr. Alfredo Alcure, industrial de muito conceito em Vitória

Ver Artigo
Hoje em dia - Por Carlos Tourinho

Assim como poderíamos imaginar que o Centro da cidade, hoje em processo de esvaziamento e em campanha de revitalização, poderá voltar a ser um lugar bom de se morar

Ver Artigo
Os Acqua Loucos e a inauguração do Clube Cauê

Na Praia de Santa Helena, ao lado da atual Praça Cristóvão Jacques, que tanta controvérsia vem causando, sobre o Morro Itapebuçu, localizavam-se as instalações da Western Telegraph Company

Ver Artigo
Encerramento do livro: No tempo do Hidrolitrol

Trata-se do texto cujo título é "Encontro Desastroso", do livro "Coquetel de Saudades", de Dario Derenzi

Ver Artigo
Praia Tênis Clube - Por Sérgio Figueira Sarkis

Lembro de alguns com a presença de Affonso Queiroz do Valle, Evanildo Silva, Luiz Paulo Dessaune, Reynaldo Broto e Vânia Sarlo

Ver Artigo