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Rebeliões permanentes de escravos

Escravo no Brasil

Queimado é o mais bem documentado levante escravo da história capixaba. Isso contribuiu para torná-lo famoso. Não foi, porém, o primeiro nem o último a ocorrer no Espírito Santo no século XIX.

Na Serra, em 1822, aconteceu uma rebelião com objetivo idêntico: a conquista da liberdade. Foi o prenúncio da revolta de 27 anos mais tarde.

A mesma motivação conduziu os negros de São Mateus ao motim, em 1823. A repressão foi brutal e sanguinária. Quem a descreve é o historiador capixaba Gabriel Bittencourt: “Ali, em diferentes pontos da vila, quatro cabeças de escravos, espetadas em estacas, serviam de exemplo àqueles que buscassem o direito à liberdade”. Tamanha demonstração de força e poder parece não ter adiantado, haja vista que, em 1827, 90 escravos foragidos das fazenda ameaçaram invadir e controlar a sede de São Mateus. Mais uma vez a reação do governo provincial foi enérgica. Uma guerrilha policial foi organizada, prisões e castigos foram aplicados aos insurretos.

A revolta da escravatura registrada em Itapemirim, em 1831, foi ousada. Os negros planejavam assassinar todos os brancos da região. Os cabeças do movimento, qualificados de “horroroso plano”, foram capturados e severamente penalizados.  A mesma sorte não teve a elite branca de Guarapari, dois anos mais tarde. Famílias inteiras foram chacinadas por negros rebelados. Mataram e fugiram em massa para as matas e florestas do interior.

A reivindicação das Cartas de Liberdade também foi o motivo principal para um pronunciamento de escravos das fazendas próximas a Cachoeiro de Itapemirim, em 1871. A manifestação foi pacífica, não resultando em conflitos armados ou mortos, mas foi a exteriorização de insatisfações acumuladas.

Em São Mateus, foi catalogado um elenco de líderes negros que, por diversos meios, desafiavam a ordem escravocrata. A história transmitida oralmente preservou o nome de alguns deles: Zacimba Gaba, Negro Rugério, Viriato Cancão-de-Fogo, Constância d’Angola e Maria Clara do Rosário dos Pretos. Vale destacar, além desses, Benedito Meia-Légua que, por utilizar táticas espetaculares, virou “lenda viva” e adquiriu a aura de invencibilidade. Com seu bando de negros foragidos, durante 60 anos Benedito Meia-Légua “aterrorizou os grandes fazendeiros de São Mateus, deixando um rastro de heroísmo, sangue, coragem e aventura”, conforme relata o pesquisador Maciel de Aguiar. Os bandoleiros investiam contra as fazendas e “libertavam os escravos dos castigos nos instrumentos de suplício”. Em 1885, Benedito foi capturado por capitães-do-mato e queimado vivo.

O refrão de uma canção portuguesa ajuda-nos a entender o rancor e a revolta do escravo: “Quem quiser tirar proveito de seus negros, há de mantê-los, fazê-los trabalhar e surrá-los melhor”.

Não é para menos que, ao caracterizar a escravidão, o historiador José Honório Rodrigues tenha sido taxativo ao escrever que:

 

“(...) o capítulo das relações de senhores e escravos não é, como se tem escrito na história oficial, isento de luta e sangue (...). Como reação ao sistema escravocrata, a rebeldia negra, insurreição racial, foi um processo contínuo, permanente (...)”.

 

Foi a própria desumanidade da escravidão que gerou movimentos como a Insurreição do Queimado. Enquanto ela não foi extinta, a classe dominante permaneceu assustada e insegura. Nas senzalas, nas plantações, nos terreiros de café, nas fábricas de farinha e açúcar, ou no interior das residências senhoriais, podia estar sendo orquestrada uma nova conspiração. As tragédias sociais não são obra do acaso.

 

Fonte: História do Espírito Santo – Uma abordagem didática e atualizada, 1535-2002
Autor: José P. Schayder
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2012 

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