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Saias pregueadas de azul – Por Glecy Coutinho

Escola Normal Pedro II - Ginástica Sueca, 1952 - Fonte: Memória Capixaba

Das velhas impressões da infância a ideia grata

Perdura no fiel, volvam embora os anos;

Em vão do nosso abril as flores sofrendo danos,

A imagem delas fica indelével, exata.

Prudhomme - Lembranças

 

Na década de 50 estudar em Vitória era o sonho de todos os jovens do interior, principalmente porque eram raras as cidades que possuíam ginásios.

Nessa época Vitória era cheia de pensões e pensionatos de estudantes, o mais famoso deles era o Pensionato São Luiz que ficava no Parque Moscoso no morro atrás do casarão da família Buaiz. Era dirigido pelas freiras da ordem de Cristo Rei. Elas eram muito rigorosas nos horários, as meninas entravam às 21 horas durante a semana, aos sábados e domingos às 22. Os namorados não gostavam nada da rigidez dos horários pois o chique da época era ir à sessão das nove no Cine São Luiz. Para ir aos bailes do Saldanha ou do Clube Vitória, o pedido era dirigido às freiras em grupo. Às vezes elas liberavam. Namorado só ia até o portão do pensionato. Quem dormisse fora sem avisar podia preparar uma boa desculpa ou seria mandada embora.

No Pensionato São Luiz adormecia-se ao som do canto gregoriano das freiras e o barulho inconfundível do bonde de Santo Antônio que descia a D. Fernando até a Praça do Quartel, hoje Misael Pena, entrava na 13 de Maio, ganhava a avenida Antônio Carlos, hoje Marcos de Azevedo, o Bar Santos, a gafieira Está Cruel e a casa de dona Nabiha Elias e sumia lá pelas bandas da Vila Rubim.

Eu não estudei em Vitória, mas estive muitas vezes no Pensionato São Luiz, minha irmã morava lá. Mas me lembro até hoje da inveja que eu tinha das meninas da Escola Normal Pedro II. Aquela escola linda, aquele prédio antigo com escadarias de madeira e seus belos flamboyants. Como se não bastasse a beleza da escola havia o uniforme. Blusa branca de mangas compridas, meias brancas, sapatos pretos, saia pregueada de casemira, bolero, tudo azul marinho. Boina e luvas só em dias de festa. Ah! aquele bolero era o sonho de todas as adolescentes do interior.

Sinônimo de normalista naquele tempo era estudante da Escola Normal, ainda mais nessa época, em que Nelson Gonçalves gravou "Normalista", uma música de muito sucesso.

Vestida de azul e branco

trazendo um sorriso franco

no rostinho encantador.

Minha linda normalista

 rapidamente conquista

meu coração sem temor.

 

Eu que trazia fechado

dentro do peito guardado

meu coração sofredor.

Estou bastante inclinado

a entregar meus cuidados

àquele brotinho em flor.

 

Mas a normalista linda

não pode casar ainda

só depois que se formar.

Eu estou apaixonado

o pai da moça zangado

o remédio é esperar.

 

Essa música era cantada por todos os rapazes e até por algum velho mais afoito quando as normalistas passavam.

E as festas cívicas da Escola Normal eram famosas, eu assisti a muitas. Havia demonstrações de ginástica rítmica no pátio em frente à escola, vizinha do Palácio Anchieta, as alunas usavam blusa branca, aquelas bombachas com elástico na cintura e nas pernas que elas teimavam em puxar para cima e a professora de Educação Física, Arlete Cipreste, em mandar baixar. E havia bandeiras em profusão, discursos das alunas e mestres, poesias de Maria Filina, cantos ensinados pela professora Maria Penedo, cantados em coro de vozes indisciplinadas. Era realmente um belo espetáculo, às vezes o Dr. Bolívar de Abreu, que era secretário de Educação, deixava a Secretaria que funcionava no Palácio Anchieta e ia até a Escola Normal assistir a essas festas. E os mestres em frente: Ruy Lora, Aflordízio, Antônio Dias de Souza, Hélcio Leão, Ana Bernardes, Van-Dyke, Magdalena Pisa, Cristiano Fraga, Luiz Buaiz, Dr. Belesa e outros.

Estudar em escola pública era motivo de orgulho. Namorados não podiam levar as alunas à porta da escola. Ir ao cinema de uniforme? Nem pensar.

Hoje, vendo todos os alunos de camiseta e calça jeans, me lembro com saudades daquele uniforme. Até Carlinhos Oliveira em seu primeiro livro de crônicas, Olhos dourados do ódio, fala das alunas da Escola Normal “Ah! As garotas da Escola Normal, com suas fartas saias fartas agitadas pelo vento sul de agosto.”

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 10 – Escolas, 1995
Autora: Glecy Coutinho
Nascida em João Neiva (ES)
Jornalista e professora da UFES (aposentada)
Pesquisadora da imigração italiana
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2020

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Ali perto, Diná andava pela calçada, entre outros travestis. Com as unhas pintadas de vermelho vivo combinando com o batom, a mini-blusa de malha apertada sobre o short comprado na Vila Rubim

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