Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Ano de 1560 – Por Basílio Daemon

Mem de Sá - Governador Geral do Brasil. Em óleo, de Manuel Victor Filho

1560. Parte da Bahia, a 16 de janeiro deste ano, o governador geral do Brasil Mem de Sá,(71) que ia ao Rio de Janeiro com o fim de expulsar daquela capitania a Villegaignon e mais franceses que dela se achavam de posse. Trazia consigo oito embarcações, alguns soldados, munições e armamentos; passando pelas capitanias dos Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo recebeu em todas elas contingentes, mormente aqui, donde levou maior número.(72) Mem de Sá, depois de aqui demorar-se alguns dias, seguiu ao seu destino, chegando ao Rio de Janeiro a 21 de fevereiro do mesmo ano, onde, depois de alguns dias de demora à espera das forças vindas da capitania de São Vicente, a elas se reuniu e atacou a fortaleza de Villegaignon a 16 de março, tomando-a e destruindo as fortificações. Daí seguiu a 31 do mesmo mês e ano para São Vicente, onde se demorou dois meses, partindo daí a 18 de junho para a Bahia com toda a armada e aportando em alguns lugares, chegando a esta capitania onde demorou-se alguns dias, encontrando desanimado o povo por ter o donatário Vasco Fernandes Coutinho renunciado à donataria a favor de el-rei de Portugal, D. Sebastião, que estava sob a regência de D. Catarina.(73) Aceitando Mem de Sá a renúncia feita perante o ouvidor, por assim o pedir os povoadores que com suas mulheres e filhos lhe rogavam a aceitasse, é lavrado a 3 de agosto do mesmo ano, na então vila da Vitória, o termo da dita renúncia e provimento dado a Belchior de Azeredo Coutinho, o Velho, para capitão-mor da mesma capitania, com todos os poderes discricionários que tinha o donatário, visto assim o querer o povo que para esse fim o elegeu, ficando, no entanto, salvo o direito das partes reclamantes.(74) Aqui fazemos algumas considerações a respeito não só do donatário, como sobre Belchior de Azeredo. Vasco Coutinho, embora dotado de bom coração, galhofeiro e mesmo valente, não fora talhado para o mando, pelo que esta capitania, com os recursos que teve, não pôde prosperar como de direito se esperava; à proporção que envelhecia, ia Vasco Coutinho mais se relaxando em seus costumes e entregando-se aos vícios, entre eles o de beber, jogar e mascar fumo, pelo que quase não lhe obedeciam; avelhantado e muito doente, viu-se então forçado a renunciar à capitania em favor da Coroa; contudo, são concordes todos os historiadores e cronistas em certificar a sua bondade e bonomia, não havendo um único ato seu de opressão ou vingança, até sendo por demais frouxo em castigar os delinquentes, dando guarida a muitos criminosos que na capitania procuravam homizio. No entanto, força é confessar que Vasco Coutinho sacrificara todos os seus haveres e vida a bem de fazer prosperar a capitania do Espírito Santo, e que só abandonou-a quando mais nada podia fazer em seu benefício, já por falta de meios ou pela idade avançada em que se achava e doença de que estava afetado; se não foi um bom administrador também não foi um régulo, pelo que honra seja sempre feita à sua memória. Agora tratemos de sanar um ponto de controvérsia na história pátria, e é a seguinte: existiram naquela época na capitania dois homens de igual nome, e que ocupavam nela importantes lugares, e foram Belchior de Azeredo Coutinho, o Velho, e Belchior de Azeredo Coutinho, o Moço, este sobrinho daquele, ambos fidalgos, este último por alvará de 27 de novembro de 1566, e aquele por carta régia de D. João III em 1530, em que fora nomeado cavalheiro e fidalgo da Casa Real,(75) pelo que vê-se que foi Belchior de Azeredo, o Velho, nomeado capitão-mor da capitania a pedido do povo, e que para aqui viera por instâncias de Vasco Coutinho para exercer o lugar de administrador da Justiça e seu secretário particular, não sendo Belchior de Azeredo, o Moço, que mais tarde o vemos como capitão de uma galé, a São Tiago, (76) e depois do navio São Jorge, e quando em 1565 era confirmada por D. Sebastião a nomeação de provedor da Fazenda Real e dos defuntos e ausentes, onde se o encontra ainda de posse desse emprego em 1566.(77) 

 

Notas

71 “Concordados os chefes no modo da expedição, aos 16 dias de janeiro de 1560 saíram da Bahia com a armada composta de duas naus de alto bordo...” [Pizarro, Memórias, I, p. 31]

72 Teixeira discorda de Daemon quanto à contribuição da capitania do Espírito Santo, apesar de citar essa passagem em sua nota 23 e das alusões que faz a Silva Lisboa e a Fernandes Pinheiro. [HEES, p. 100]

73 (a) Segundo Freire, a renúncia do donatário teria ocorrido no dia 3 de agosto de 1560 [Vitória e a capitania, in RIHGES, 1935, 8:8-9] (b) Pizarro, Memórias, I, p. 30.

74 (a) Sá, Mem de, Carta para el-rei, III, p. 466, e II, p. 228, apud Vasconcelos, Ensaio, p. 15.

75 “A Belchior de Azeredo foi feita a mercê de cavaleiro fidalgo por alvará de 27 de novembro de 1566; era ele sobrinho de outro Belchior de Azeredo, também cavaleiro fidalgo...” [Vasconcelos, Ensaio, p. 17]

76 “Dirigindo-se Belchior de Azeredo ao Rio de Janeiro como capitão da galé – S. Tiago...” [Vasconcelos, Ensaio, p. 17]

77 “Foi provedor da fazenda real, e dos defuntos e ausentes, confirmado pelo rei em 1565.” [Vasconcelos, Ensaio, p.17]

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2019

História do ES

Os inacianos – Suas grandes propriedades territoriais

Os inacianos – Suas grandes propriedades territoriais

Muribeca, fazenda de criação de gado, foi célebre e rica propriedade dos jesuítas. Chegou a ter quase duas mil cabeças de gado

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Juízes de direito na Província do Espírito Santo

Reunimos, pois, sob a forma de uma sinopse, aquilo que pode demonstrar à evidência a província do Espírito Santo, baseando assim em documentos e em trabalhos de própria lavra e que aqui descrevemos

Ver Artigo
O recrutamento do Ururau - 1827

Gravíssimo incidente abalou o Espírito Santo quando da passagem, pelo porto de Vitória, do brigue de guerra Ururau, em 1827

Ver Artigo
O Espírito Santo na 1ª História do Brasil

Pero de Magalhães de Gândavo, autor da 1ª História do Brasil, em português, impressa em Lisboa, no ano de 1576

Ver Artigo
Dia do Capixabismo – Por Francisco Aurélio Ribeiro

O dia de hoje deveria ser feriado estadual e não apenas municipal. O capixaba tem baixa auto-estima e pouco sabe de sua história e de sua cultura

Ver Artigo
Mês da Colonização do Solo Espírito-Santense

O site Morro do Moreno irá publicar matérias especiais sobre a Colonização do Solo Espírito Santense, comemorado em 23 de maio

Ver Artigo