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O Diário Proibido da Maçã do Amor - Por Adilson Vilaça

Capa do Livro - Mercados e Feiras 11 Escritos de Vitória

(Conto de paixões desamorosas em três sketches, ambientado em três feiras)

 

E para encerrar, fica decretado o seguinte: só é permitido chorar se a gente sentir saudade e não puder se conter. Ou, então, por amor. Carmélia Maria de Souza, in Croniquinha..., de o Vento Sul.

 

Primeiro sketch: A paixão segundo São Sebastião

1

Na feira,

 
algazarra fenícia,

 
a província é uma delícia.

 

2

... a receitinha do biscoito de nata é de pouca ingrediência e de fácil feitura. Uma xícara e meia de nata, quatro colheres de sopa de açúcar, uma colher de sopa de fermento em pó, uma colher de sopa de margarina, meia colher de chá de sal, o necessário de farinha de trigo. Depois de misturar os ingredientes medidos, acrescentar farinha de trigo até a massa dar ponto de enrolar; feitos os rolinhos de massa é só cortar os biscoitos e levar a forno pré-aquecido. Passar no açúcar cristal ainda quente e convidar ...

 

3

 

Ai, meu santo mercadinho de São Sebastião, que pecado aqui me trouxe? Pecado de olhar escuro e mãos de apertar peitinhos de inhame, alheio à nênia da aula de culinária, e me derreto biscoito de nata molhada já amnesiada de todo pó dessa receita de prendas que jamais herdarei. Digo assim:

 — Oi, sou a maçã do amor!

Ele me olha de vulgar soslaio e quase estrangula a pera de tesão. Seus dentes me apalpam com um riso de tigre devorando gazela. Desacompanhava a prima entretida em enrolar biscoitos, ai, na palma da mão.

— Antes da maçã, preciso de xarope de agrião — rosnou feito sátiro resfriado.

Fui sua zona do agrião na pia, no banquinho, no fogão. Ele me suspirou e me deixou gripada de rugidos, arrepiada de ronrons, espetada de flechas que Cupido me alvejou após roubá-las do martírio do mercadinho de São Sebastião. Coração sangrando de novo desejo, ai, então ele se foi e virou lembrança antiga, desguardado de toda gaveta do afeto, ficou assim retrato de um tempo remoto como o frontispício do mercadinho de São Sebastião, entalado nos muros da mocidade, Jucutuquara de 1949.

 

Segundo sketch: Pecado no albergue de Gutenberg

 

 1

Na feira,

 
palimpsesto de Babel,

 
o discurso é afrodisíaco de papel.

 

2

 

... e o Sonho de Polifilo é anterior ao século XVI, impresso certamente em 1499, por Aldus Manutius; um retrato de sonhos eróticos capaz de provocar as maiores excitações na atualidade, sendo perene obra-prima da literatura sensual. Foi escrito por Polliam Frater Franciscus Columna Peramavit, que assinou a obra de maneira original: somente juntando-se as letras capitulares, que, evidente, iniciavam os capítulos, obtinha-se o nome do autor. Embora circulando no desprestígio do anonimato durante anos, o artifício salvou-o da perseguição religiosa e ...

 

3

 

Ai, que tanto pó de Gutenberg esfarelando-se no meu tato concupiscente, úmido de cio, suor, é melhor tirar a mão me diz seu olhar de guia guiado para o foco do meu tremor. Como dizer: oi, sou a maçã do amor? Assim tão deserudita e desavergonhada e descabida dizer que o desejo nessa feira guia de Gutenberg, anjo olhar barroco, arquitetura compleição de manso albergue, aqui mesmo numa clausura desse convento Salesiano eu maçã assim tão Salomé? A cama forrada de livros do tempo masmorra da inquisição tortura-me de orgasmo tão hoje prazer como se chama?

— Mário Hilário Gomes e Farias.

Como não rir de um nome hilário, Mário? Como não registrá-lo na proibição de nomes do meu diário? Mas você me faria o favor, gomo a gomo, de me descascar até o caroço?

— Oi, eu sou a maçã do amor.

Aprendi tudo sobre a Bíblia de 42 linhas, impressa por Gutenberg, eu espremida por Mário, de 1455 até o apocalipse de São João me lambendo labaredas, depois extinta chama incinerada no silêncio sem adeus do meu diário agora desinédito. E foi essa minha feira da mais tatuada impressão.

 

Terceiro sketch: A abençoada maldição de São João

 

1

 

Na feira,

 
tempero de antiguidades,

 
as anquinhas pulsavam de saudades.

 

2

 

... não se deve falar da art nouveau como um par de décadas perdido no entusiasmo pela decadência. A angústia curvilínea do fim do século XIX redescobriu a beleza do floreado gótico, da antiguidade clássica e do oriental muçulmano, com asseverado tempero da arte japonesa. A primavera de tulipas, o cingir de ramos e gavinhas e outros arabescos florais não devem ser rotulados como supérfluo, exagero ou fenômeno de impureza. Audrey Beardsley, reconhecido príncipe da art nouveau, paralelamente famoso por seus desenhos eróticos em O livro amarelo, é um nome essencial para a desmistificação do simplicíssimo e do reducionismo próprios dos avessos a art nouveau ...

 

3

 

Ai, meu São João Crisóstomo, santo da Antioquia, é sua maldição bizantina que me traz ao teatro para esse espetáculo sem palco nem caco, para ver esses cacos do tempo acomodados no hall. "Visitar teatros conduz à fornicação, intemperança e a todo tipo de impureza", pregou meu São João, o do exílio no Mar Negro, árido como um deserto, mas dilúvio em sua profecia. Sento-me na cadeira de anquinhas, falta-me a saia-balão mas sobram-me pernas e decalque de calcinha sob a saia-balinha.

— Não é permitido sentar — disse com gelo de mogno.

Nem a maçã do amor derreterá seu desdém?

— Oi, sou a maçã do amor — nem. Comprei a cadeirinha.

Nem? Era ali no Carlos Gomes que não convém, mas em casa sentei e rebolei as anquinhas e aprendi que a cadeirinha nem era art nouveau, era arte meu amor senta aqui senta, do reinado de Dom João VI, depois o sétimo delírio, o oitavo, o nono, eu e as anquinhas um só tremoço. E ele ficou, ficou, ficou e a feira não tinha fim e o meu diário já nem cabia rima e nanquim e tanto ficou que foi ficando ruim. Mas na fogueira do vento junino, desapartada da vaidade, minhas anquinhas pulsando por liberdade, assei batatas no fogo da cadeirinha e doeram-me pancadas de teixo no fim da feira antiga gaveta de horror. Oh, perdida era da inocência, tempo em que o catecismo ensinava pecados litúrgicos, diário que não volta mais.

 

 

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA - Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES
Autor: Adilson Vilaça
Prefeito Municipal: Paulo Hartung
Secretário Municipal de cultura e Turismo: Jorge Alencar
Coordenadora do Projeto: Silvia Helena Selvátici
Conselho Editorial: Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Bibliotecárias: Lígia Maria Mello Nagato, Cybelle Maria Moreira Pinheiro, Elizete Terezinha Caser Rocha
Revisão: Reinaldo Santos Neves
Capa: Mercado de São Sebastião restaurado pela Prefeitura Municipal de Vitória (1995)
Foto de Leonardo Bicalho
Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer
Impressão: Gráfica Ita
Compilação: Walter de Aguiar Filho, Junho/2022

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