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Território livre da Ufes - Por José Roberto Santos Neves

Pedra do Ócio - UFES Flickr - Filipe Borba

A primeira palavra que me vem à mente quando penso na Universidade Federal do Espírito Santo é liberdade. Para um jovem que cursou o ensino primário, ginasial e o científico em colégio religioso, adentrar o campus de Goiabeiras, na segunda metade de 1989, representou um divisor de águas. A liberdade se traduzia inicialmente no jeito de se vestir: saíam de cena os uniformes com logotipos de escolas e bermudas de helanca enfadonhas e no seu lugar entrava todo tipo de roupa, de camisas de Che Guevara a estampas de bandas de rock, de calças desbotadas a tênis All-Star.

Com o ingresso na Ufes, descortinava-se para mim um novo mundo onde jovens de diferentes classes sociais, raças, religiões, orientação sexual e ideologias podiam conviver em harmonia. Sinto-me privilegiado, pois fiz parte de uma geração que cresceu motivada pelo desejo de democracia, após 21 anos de ditadura militar. Lembremos que o ano de 1989 foi emblemático para a geopolítica internacional, para o Brasil e para o Espírito Santo, com a queda do Muro de Berlim, as primeiras eleições diretas para presidente da República desde 1960, e a inauguração da Terceira Ponte, apenas para citar três exemplos.

A Ufes, naturalmente, refletia toda essa inquietação com muita democracia. Discussões sobre Filosofia e Sociologia dominavam as salas de aula. Estudávamos Paulo Freire, Karl Marx, Max Weber e a escola de Frankfurt sem medo de ser feliz. Tinha-se consciência de que a política representa um instrumento essencial para a construção da cidadania.

No curso de Comunicação Social, pude experimentar todas as possibilidades que a Ufes proporcionava aos alunos. Havia muito a se fazer: no intervalo entre as aulas da manhã e da noite, uma boa pedida era curtir a programação do antigo Cineclube Metrópolis (lembro-me de ter assistido Luiz Tadeu Teixeira contracenando com Maria Zilda em "Vagas para Moças de Fino Trato"). Igualmente saborosas eram as tardes garimpando livros na Biblioteca Central, as sessões no Planetário, as visitas aos colegas do Centro de Artes, o ócio nas pedrinhas, os "clássicos" de totó na cantina do CCJE e aquela gostosa sensação de sentir o tempo passar em volta das árvores sem ter de se preocupar em posar para selfies ou comunicar ao mundo o que se está fazendo o tempo inteiro pelo celular (em 1992, não existia telefone celular, Google, YouTube, WhatsApp, redes sociais - e éramos felizes mesmo assim). Havia tempo para os estudos, e não posso deixar de citar neste espaço mestres como José Irmo Gonring, com seu vasto conhecimento sobre literatura do Espírito Santo e artes em geral (a disciplina de Estética e História da Arte era uma das minhas favoritas. Até hoje guardo com carinho o livro "Universos da Arte", de Fayga Ostrower). Da mesma forma que guardo boas lembranças das aulas de Victor Gentilli, Ismael Thompson, Ricardo Conde, Silvia Chiabai, Alexandre Curtiss, Renato Soares, Arlindo Castro, entre outros professores que passaram pelo curso de Jornalismo.

E havia, é claro, o rock'n'roll. Eu tocava no lhe Rain e tive a alegria de participar de um desses encontros no qual se forjou o Lordose pra Leão, numa sala de aula do ED IV, em 25 de junho de 1992. Espécie de filho temporão da Turma do Balão Mágico, o Lordose tinha como composição mais conhecida "Jullyetzsch", inspirada no então chefe de departamento do curso de Comunicação Social, que não deve ter gostado nem um pouco da homenagem. Havia ainda o Abre-Bodes e o Encerra-Bodes, os festivais de música, as exposições de artes, as mostras de cinema, o congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o bandejão do RU, a efervescência da Universitária FM, os lançamentos literários. Mais tarde, com a inauguração do Teatro Universitário, a universidade ampliou sua posição de destaque entre os polos culturais do Estado.

Estar naquele ambiente era tão prazeroso que, em dado momento, constatei que a Ufes se assemelhava a uma "bolha", espécie de realidade paralela onde busca-se valorizar e cuidar do que é público, do que é de todos, com o mesmo zelo com que cuidamos da casa da gente. Mesmo assim, eu queria correr riscos, ir para a vida, buscar outro tipo de liberdade. E assim concluí a graduação e fui para o mercado, onde aprendi a regra do jogo de que o jornalista Claudio Abramo tanto falava.

Trinta anos depois, ao olhar pelo retrovisor, reconheço que o curso de Jornalismo da Ufes tinha lá suas falhas. Demonizava-se o mercado da mesma forma como o mercado demoniza hoje a gestão pública. Mas se vocês pensam que serei eu a dar combustível para os detratores do "marxismo cultural", estão muito enganados. Querem saber? Diante do Brasil de 2019, minha vontade é a de voltar para a "bolha" da Ufes. Com orgulho, esperança e - acima de tudo - liberdade.

 

Fonte: UFES: 65 anos – Escritos de Vitória, 33 – Secretaria de Cultura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), 2019

Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Francisco Aurélio Ribeiro, Elizete Terezinha Caser Rocha, Getúlio Marcos Pereira Neves

Organização e Revisão: Francisco Aurélio Ribeiro

Capa e Editoração: Douglas Ramalho

Impressão: Gráfica e Editora Formar

Foto Capa: David Protti

Foto contracapa: Acervo UFES

Imagens: Arquivos pessoais

Autor: José Roberto Santos Neves

Jornalista. Escritor. Pertence à AEL

Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2020

Variedades

Jerônimo Monteiro -  Capítulo IV

Jerônimo Monteiro - Capítulo IV

Na foto, recepção ao Dr. Álvaro de Tefé, Secretário da Presidência da República, na estação de Argolas, Vila Velha, da Estrada de Ferro Leopoldina (1912). APEES — Coleção Jerônimo Monteiro, 128

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