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Ticumbi: O Baile dos Congos para São Benedito - Por Osvaldo Martins de Oliveira

Ticumbi: O Baile dos Congos para São Benedito - Por Osvaldo Martins de Oliveira

O baile dos congos para São Benedito, mais conhecido como ticumbi, é uma referência cultural ou celebração festiva afro-brasileira específica do Espírito Santo, embora mantenha relações e algumas semelhanças com outros bens culturais afro-brasileiros, como congos, congadas, cacumbis e cucumbis. Trata-se de uma dança que acontece, segundo a memória e a genealogia de seus integrantes, há mais de 200 anos na região norte do Espírito Santo. O baile é definido pelos dançantes como uma tradição cultural proveniente da África e que os africanos e seus descendentes teriam recriado nas senzalas, quilombos e, posteriormente, nas comunidades negras da vila de Itaúnas e da cidade de Conceição da Barra.

Os integrantes do baile, sob a liderança de um mestre, ensaiam dois meses no mato ou na roça e, entre os dias 30 de dezembro e 20 de janeiro, realizam suas festas e apresentações em homenagem a São Benedito, seu santo padroeiro, na cidade de Conceição da Barra, na comunidade de Barreiras e na vila de Itaúnas. Na pesquisa que realizei nos anos de 2008 e 2009, constatei que no município de Conceição da Barra, existem quatro bailes dos congos:

GRUPO

MESTRE

LOCAIS DE ENSAIOS

LOCAIS DE APRESENTAÇÃO

Baile dos congos de São Benedito de Conceição da Barra

Tertolino Balbino

Comunidades quilombolas de São Domingos e de Roda D’Água

 

Igreja de São Benedito na cidade de Conceição da Barra, Igreja de São Benedito das Barreiras e praça de Itaúnas

Baile dos congos de São Benedito do Bongado

Anísio Bongado e Vantuil Gomes

Sertão de Itaúnas e sítio Areia Branca

Praça de Itaúnas

Baile dos congos de São Benedito de Itaúnas

José Batista Souto e João Falcão

Sítio River e vila de Itaúnas

Praça de Itaúnas

Baile dos congos de São Benedito do Angelim

Ângelo Camilo e Benedito Conceição Filho

Comunidade quilombola de Angelim Porto dos Tocos

Comunidade quilombola de Angelim Porto dos Tocos e praça de Itaúnas

 

O baile, conforme se verifica na citação a seguir, é organizado pelos mestres que lideram seus integrantes, denominados congos.

O baile é uma sequencia de discursos poéticos, danças e canções acompanhadas ao som de pandeiros e viola. Ele é composto por dezoito personagens, dois reis, dois secretários, doze congos tocadores de pandeiros, um violeiro e um porta-bandeira. Todos se vestem de branco e portam capacetes enfeitados com fitas e flores coloridas na cabeça. O mestre é um dos integrantes do baile - que pode ser um dos congos ou o violeiro - responsável pela gestão da festa, que vai da criação dos versos, composição das canções e da realização dos ensaios aos dias propriamente da festa. Seu papel é reafirmar sempre a devoção e o compromisso religioso dos congos com São Benedito (OLIVEIRA, 2009: 41).

O baile dos congos é um ritual que representa uma guerra entre o Rei de Congo e o Rei de Bamba e seus secretários ou embaixadores, que portam espadas no decorrer do ritual. A guerra acontece porque o Rei do Congo, por ter se convertido ao catolicismo, se considera o dono da festa para São Benedito e não aceita que o Rei de Bamba, classificado como pagão, seja digno para fazer a festa. A guerra sempre termina com a vitória do Rei do Congo sobre o Rei de Bamba, que é interpretado e atualizado como os inimigos da cultura negra e os expropriadores dos territórios das comunidades quilombolas, como observei no discurso do Rei do Congo na festa realizada em 1 de janeiro de 2010.

Secretário do Rei de Bamba

O culpado são vocês

Que a grande floresta plantou

De cana-de-açúcar e eucalipto

E os quilombolas da terra expulsou

E vocês vão morrer de fome

Ou comer erva daninha

Porque raiz de cana-de-açúcar

E nem de eucalipto

Não serve pra fazer farinha

E tampouco criar gado,

Porco e nem muito menos galinha.

 

As festas dos integrantes das comunidades negras e quilombolas do norte do Espírito Santo, conforme verifiquei na pesquisa documental e na memória de seus integrantes, desde a segunda metade do século XIX, têm sido apropriadas pelos agrupamentos organizadores das festas como meio de mobilização política em favor da autonomia e dos ideais de liberdade. Os discursos dos principais agentes da festa são de denúncias contra aqueles empreendimentos que continuam cometendo injustiças contra as comunidades quilombolas.

Os discursos dos agentes do baile dos congos exaltam a dimensão da tradição e da antiguidade de seus bens culturais, como a ”espada“ do secretário do Rei de Congo, que, segundo ele, tem mais de 300 anos, pertenceu ao seu tataravô e foi transmitida entre diversas gerações de brincantes para seu bisavô, avô, pai, ao mestre do baile e, do mestre, ao secretário, que pronunciou o discurso no momento desta pesquisa. O referido secretário diz ter recebido a ”espada“ para ser ”igual“ ao seu pai (cf. OLIVEIRA, 2009:38), isto é, enfrentar e vencer todas as batalhas, sejam elas na vida real, sejam encenadas nos rituais festivos. Por isso, a espada é um símbolo das guerras não apenas nas relações entre os reinos africanos do passado, mas também das relações dos quilombolas da atualidade com os empreendimentos expropriadores de seus territórios.

 

GOVERNO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

Governador

Paulo Cesar Hartung Gomes

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Subsecretário de Cultura

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Cilmar Franceschetto

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Coordenação Editorial

Cilmar Franceschetto

Agostino Lazzaro

Apoio Técnico

Sergio Oliveira Dias

Editoração Eletrônica

Estúdio Zota

Impressão e Acabamento

GSA

 

Fonte: Negros no Espírito Santo / Cleber Maciel; organização por Osvaldo Martins de Oliveira. – 2ª ed. – Vitória, (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016
Compilação: Walter de Aguiar Filho fevereiro/2022

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