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Um professor esquecido nos anais da história do Espírito Santo José Ortiz

Professor Ortiz

Um primeiro registro sobre o nosso professor vem do Sul do Espírito Santo. Em 11 de julho de 1855, sabemos que foi “nomeado interinamente para professor de 1ªs letras da Vila de Itapemirim, o Dr. José Ortiz” (CORREIO DA VICTORIA, 11/07/1855, p.2). Em 1856, por resolução de 21 de fevereiro, o presidente da província informava que havia nomeado “Dr. José Ortiz para professor interino da cadeira de francez, geografia, e histtoria, o qual deve chegar breve a esta capital” (idem, 1856, p. 2).

Já residindo na capital, o professor José Ortiz entrou em exercício da cadeira de francês, geografia e história do Liceu. E, na sessão “Notícias Diversas” do Correio da Victoria, um articulista anônimo nos dá algumas dicas das exigências para se considerar bom um professor de História daquele início da segunda metade do século. Dessa forma, ao explicitar a felicidade pela chegada do professor José Ortiz, exortou também que “As habilitações que tem o ilustre professor, sua longa prática de ensinar, suas eminentes qualidades como cidadão são mais que suficientes garantias para o bom desempenho de seus deveres no magistério e nós estamos certos que o Sr. José Ortiz não desmentirá seus honrosos precedentes” (CORREIO DA VICTÓRIA, 03/04/1 856, p. 2). Em 1862, uma fala do presidente da província, Costa Pereira Junior, fornece parte da biografia do professor interino de História:

Contratado para ensinar na “[...] 2.ª cadeira de 1ªs lettras dessa Capital actualmente encarregado da regencia da escola normal. Este professor deixando sua importante familia e interesses de ordem mais elevado no Rio Grande do Sul, pondo de lado as aspirações a que tinha direito pela educação litter aria que recebera entrega-se com ardor ao ensino de 1ªs lettras e arrastando pela força da vocação guia com especial e nunca desmentido zelo da instrucção da infância” (PEREIRA JUNIOR, 1862, p. 29).

José Ortiz era natural da província do Rio Grande do Sul; Doutor em medicina; Bacharel em letras; Membro do Instituto Histórico de França; Ex-Lente do Colégio do Padre S. Thiago, Rio de Janeiro; Professor de Francês, História e Geografia no Liceu da Victoria; Professor de Primeiras Letras na Escola Normal da cidade. Além do Novo  Sistema  de  Estudar  a  Gramática  Portuguesa  por  Meio  da Memória, Inteligência e Análise Ajudando-se Mutuamente, de 1862, o professor José Ortiz escreveria outra obra da mesma natureza, a Gramática Analítica e Explicativa  da  Língua  Portuguesa, em colaboração com Cândido Mateus de Farias Cabral, no Rio de Janeiro, em 1871.

O site do Museu de História da Medicina de Rio Grande do Sul traz preciosas informações sobre aquele que se configura como um dos primeiros professores de História no Espírito Santo. Confirma o Rio Grande do Sul como local de nascimento, embora não informe a data. Ortiz faleceu no Rio de Janeiro em 4 de março de 1880. Foi doutor em Medicina pela Universidade de Paris, fundador e diretor de colégio em Itapemirim, no Espírito Santo, lente do Liceu de Vitória do Espírito Santo e do Liceu Niterói, no Rio de Janeiro, além de professor livre de línguas e filosofia e autor de livros didáticos.

Entretanto, o que pode nos informar uma gramatica da língua portuguesa sobre um professor interino de História, que também acumulava o cargo de secretário do Liceu? (CORREIO DA VICTORIA 21/02/1856, p.1). A dedicatória de José Ortiz ao Presidente da Província do Espírito Santo, José Fernandes da Consta Pereira, pode informar primeiramente que:

A sabedoria, zelo e acrisolado patriotismo com que V. Ex. [Ilm. e Exm. Sr. Dr. promove a regeneração e uniformidade do ensino público nesta Província, confiada aos ilustrados cuidados de V. Exm. já eram motivos mais que suficientes para inspirarem profundo respeito, e admiração , a um Brasileiro que só aspira a gloria de ser contado como um dos mais inteligentes entre os operários da verdadeira civilização (ORTIZ, 1862, p .1)

Pode mostrar também que, para José Ortiz, um professor de História deveria ter em mente que, ao ensinar, estaria diante de gradações de alunos “que nada sabem, e a dos adiantados”. Sabendo disso, um livro, bem como um professor, deve proporcionar o “alimento espiritual” em “doses fraccionadas e até homeopáticas para os de espirito infante e fraco, e em maiores proporções e alopáticas para os de inteligência adulta e robusta ” (ORTIZ, 1862, prefácio).

Motivo pelo qual Ortiz dividiu o livro em duas partes.

No caso da cadeira de História do Liceu, com alunos provavelmente com inteligência mais “adulta e robusta”, José Ortiz, resguardadas as especificidades, usaria a História de forma “allopatica”. De acordo com o professor autor, um grupo de alunos que desejar ir até “penetrar na natureza das palavras e das orações, e nos porquês gramáticos e philosóficos, terá [...] amplo campo para farta-lhe a scientífica curiosidade” (ORTIZ, 1862, Prefácio, s/ d).

O professor Ortiz estava convicto de seu método. A proposta pedagógica do professor de História era a de “entrelaçar a teoria e a prática com a analyse”, de modo a mudarem as aulas que lançam mão da “memória sem intervenção da intelligencia e sem o apoio da analyse”. (ORTIZ, 1862, Prefácio. s/d). Para Ortiz, agir pedagógica e epistemologicamente seria o caminho.

Cremos também que é possível que o professor de História construísse sua prática de ensino de História partindo de algumas das próprias lições contidas em sua própria obra. Em relação à perspectiva mnemônica, por sua vez, Ortiz acreditava que “o estudo feito só de memória nenhum proveito deixa que dure além do dia da lição e é um tempo perdido sem a menos a compensação que tira o papagaio que nunca esquece o que uma vez chega a decorar” (ORTIZ, 1862, VIII). E, “Para mudar esta marcha errônea, seguida tão geralmente nas escolas, estabelecei a argumentação [...] a memória, inteligência e o raciocínio (ORTIZ, 1862, VIII).

Nas aulas do professor “operário da civilização”, era muito provável, ainda, que a exposição dos conteúdos e tratamento dos períodos históricos fossem submetidos a uma ordem específica, tendo em vista que toda “definição, toda regra, toda explicação contêm o porquê ou a razão d e tudo quanto disser a respeito de qualquer palavra, oração, período, etc. [...] Trabalhe para ver quem tem razão” (ORTIZ, 1862, p. IX).

Usar a memória, a inteligência e a análise filosófica, para José Ortiz, é mais que um método gramatical de um conhecimento particular. O próprio Ortiz adverte:

Quanto os que pensão que nesta arte, bem como em todas as mais artes e sicencias, qualquer caminho leva a Roma, mas que no entanto não tomam nenhum para tal fim, o único conselho que lhes poderia aproveitar, se fossem capazes de ouvir conselhos seria o dizer-lhes que procurem outro ofício, pois que não nascerão nem para chegarem a nem a Roma dos Pagaos nem Christaos, ainda que mais esforçado e zeloso mestre os quisesse arrastar pelo mais curto caminho que é o da linha recta (ORTIZ, 1863, p. VIII)

No Relatório da Diretoria da Instrução Pública , de 30 de abril de 1861, o então diretor, Antonio Rodriguez de Souza Brandão, preocupado com a uniformização e a melhoria do ensino na Província, transcreveu o que lhe foi comunicado pelo professor José Ortiz, “da 2.a Cadeira da Instrucção Primaria de Victoria”, a respeito do método de ensino que utilizava e dos bons resultados alcançados em sua classe:

O método de ensino que tem me ajudado a alcançar esses resultados, que provão uma reforma na marcha seguida até aqui em todas as escolas da província, é o eclectico, porque é uma fusão ou amalgama dos três sistemas de ensino, conhecidos com a denominação de mutuo, simultâneo e individual. Creio que não é possível uma boa escola onde esses três sistemas, dando se as mãos a propósito, não sejão recursos de incalcolave l alcance para o mestre que deseja dar e conservar sólida instrucção aos seus discípulos (ESPÍRITO SANTO, 1861, p.3).

Assim, temos o Novo Systema de José Ortiz. Um sistema que cria representações articulando “civilização” com “scien cia”, “intelligencia”, “logica”, “regra” e “analyse”. Articula os “porquês” de “Abol ir”, “Banir”, “Cair”, “Decair” e de “Elleger o Futuro”. Não nos esqueçamos: José Ortiz é amante das letras... e, como tal, foi partícipe privilegiado no processo de adesão dos sujeitos que também as amavam. Para levar a cabo tal empresa, usou seu posto de professor de secretário do Liceu.

No dia 24 do corrente pelas 10 horas da manhã tem de começar os exames dos alunos das diferentes aulas do Liceu, os quais prosseguirão nos dias seguintes até ultimarem-se. Espera-se que os amantes das letras honrem com sua presença atos, que muito podem concorrer para animar a mocidade no amor da instrução. O secretário do Liceu. José Ortiz (CORREIO DA VICTORI A, 24/11/1856, p.4).

Na análise do texto de Ortiz é interessante perceber o surgimento de novos sentidos para algumas “palavras”, momento no qual muitas delas assumem o status de “conceito”, uma vez que passam a representar um determinado conceito social e político.

Afinal, como assinalava a epígrafe da capa da obra de José Ortiz, naquele imperial dezembro de 1861:

“Quod enim munus rei publicae adferre maius meliusue possumus, quam si docemus atque erudimus iuuentutem?” [Pois que maior serviço ou mais excelente podemos realizar em favor da república, do que ensinar e instruir a juventude?]

A partida de José Ortiz da cadeira Francez, Geographia e Historia, e da província do Espírito Santo, em 1862, deixou marcas profundas. Uma delas pôde ser sentida no mesmo ano de sua partida, com a aprovação do projeto do deputado provincial Dionisio Alvaro Resendo “criando uma cadeira de gramatica da língua nacional, e História do Brazil , suprimida a de philosophia racional e moral” (CONSTITUCIONAL, 04/07/1862, p. 3, grifo nosso).

Em grande parte, o projeto do deputado Dionísio trouxe a marca dos “Operários da verdadeira civilização”, ao propor, pela primeira vez, nesta província, uma cadeira exclusivamente dedicada ao ensino da História Pátria.

 

Autor: Estevão Zizzi, publicado neste site em 11/11/2021

 

 

 

Personalidades Capixabas

André Carloni

André Carloni

André Carloni nasceu em Bolonha, na Itália, em 28 de janeiro de 1883, e chegou a Vitória em 1890, com sete anos de idade – veio com os pais, Zama Carloni e Marcina Malagute Carloni, e irmãos

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