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A Majestade de Jorge

Jorge Chaves - Engenheiro Civil

Em pleno verão de dezembro em Guarapari, passados exatos sete anos da conclusão da adutora de água tratada, percorri calmamente (até pelo engarrafamento) todo o trecho e constatei que a “nota plena” dada pelo órgão contratante não havia sido em vão. A “caixa” situada exatamente no ponto de ônibus da avenida principal, que havia sido meticulosamente reforçada, estava intacta, compensando todo o esforço a ela dedicado. No reservatório de Meaípe, informei-me de que não havia ocorrido nenhum vazamento na rede desde a inauguração. Pelo olhar incrédulo do operador da estação de tratamento, acho que ele não acreditou que eu havia sido o engenheiro da obra. Não importa. Eu sabia!

Fiz minha vida trabalhando. E, por especial cortesia do destino, naquilo que amo. Nunca subestimei e nem maltratei a vida, e ela me correspondeu...

Ainda em 2010, depois de assistir de coração apertado ás viagens de minhas filhas para os EUA (Disney) e Irlanda (Trinity College, Durblin), e de minha Bedega para os EUA, finalmente chegou minha vez de viajar para fora da América do Sul. Sim, um tour pela Europa. França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria e Itália, e Bedega a tiracolo. Mais um sonho realizado!

Minha Bedega e eu estávamos sentados de mãos dadas no surrado, mas ainda confortável, sofá de uma maternidade, olhando à frente, como quem busca o nada. Nosso silêncio coincidia com o do ambiente hospitalar. Não sei o que ela pensava, mas garanto que era pensamento de mãe. Já o meu pelo gosto de “viajar”, contemplava a capacidade de adaptação do ser humano. Nunca me senti plenamente à vontade nesta vida. Sempre senti não pertencer a esta época, como quem dança uma musica de que não gosta.

Mas acabei me adaptando, e até aprendi a gostar. Isso não impede que eu prefira a vela à energia elétrica e ame o silêncio, quebrando apenas pelo canto de um pássaro ou pelo toque de um remo num lago, a impulsionar um barco pequeno e vazio.

Meu pensamento traçava o caminho do quanto havia vivido e crescido, mas sem a menor vontade de chegar ao amadurecimento pleno (na plenitude, ele apodrece e morre).

Acabei concordando plenamente com o Millôr: “Viver é desenhar sem borracha”. O “delírio” desaguou num poema simples de autor desconhecido, que julguei apropriado ao momento:

O tempo passa.
A vida acontece.
A distância separa...
As crianças crescem.
Os empregos vão e vêm.
O amor se transforma em afeto.
As pessoas não fazem o que deveriam fazer.
O coração para sem avisar.
Os pais morrem.
Os colegas esquecem os favores.
As carreiras terminam.
Mas os verdadeiros amigos estão presentes, não importa o tempo e nem a distância.
Eles nunca estão mais distantes do que o alcance de uma necessidade.

E eles começaram a chegar, um a um. Alguns deles não procuro, mas inexplicavelmente estão lá, é só ligar! Alguns não fazem idéia do quanto necessito deles – só eu sei! Alguns tomaram conta de mim. Não podem partir antes, pela minha sobrevivência! Amigos. Já vi o fim de um amor, mas de uma amizade sincera, nunca! Foram chegando e se aninhando, com a liberdade e a desenvoltura de um querido irmão de sangue. A corrente estava formada. A vida, no sentido mais amplo, estava presente. A solidariedade, o aconchego, a sinceridade e o amor de mãos dadas, pulsando... Estávamos em 2011, mais precisamente às 12h10min do dia 25 de março, quando a enfermeira nos trouxe, para a contemplação, Miguel, nosso primeiro – por enquanto único – neto. Miguel Chaves de Oliveira, filho da Bruna e do Gustavo. Saudável e lindo! Quem disse que não existe recém-nascido bonito? Pois Miguel era. Nome de arcanjo, chefe de anjo. Que benção! Quanta felicidade! A vontade era de abrir a porta e gritar ao mundo, e que aquele dia nunca tivesse fim...

“Eis a continuidade da continuidade”, pensei orgulhoso diante de imagem tão bela. Prossegui divagando com a simplicidade que a vida aprecia, numa produção poética de frágil inspiração e qualidade técnica ginasiana:

Cheguei à vida.
Passei a ver as estrelas.
a ouvir a voz do vento,
a degustar o mel e o fel,
a sentir o cheiro de uma rosa banhada de orvalho,
a tatear por caminhos desconhecidos.
Recebi sentidos,
Recebi vida.

Pedi um pôr do sol,
recebi manhãs com cheiro de maçã.
Pedi uma profissão,
recebi lazer naquilo que amo.
Pedi um simples amor,
recebi uma Afrodite.
Pedi um amigo,
recebi anjos.

E o tempo,
até então afoito,
agora jaz sonolento e manso,
pisa leve,
receoso de incomodar.

Não tenha medo.
Não tenha pressa.
Vida vivida.
Missão Cumprida.

 

Fonte: Minha Vida em Obras, agosto/2013
Autor: Jorge Chaves
Compilação: Walter de Aguiar Filho/ 26 de agosto de 2013
Nota do Site: O título desta nossa compilação, "A Majestade de Jorge", é nossa homenagem ao amigo conhecido por Majestade

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