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As Pontes de Vitória - Francisco Aurélio Ribeiro

Se o Por do Sol é assim, imagine aquela Lua ...

O bom de ficar velho é que temos muitas histórias pra contar; isso se não acharmos que tudo está começando agora ou que já era assim, sempre. Nestes últimos cinquenta anos, então, o mundo passou por tanta mudança, e tão rápido, que foi uma loucura, pra minha geração, acompanhar tamanha transformação. Algumas invenções, então, ficaram obsoletas tão depressa que nem deu tempo de aprender a usar ou de conhecer. Quando aprendi a usar videocassette, parar filme, rebobinar (o quê?), já tinham criado o dvd, o blueray, o mpnão sei das quantas anda, o smartphone, o ebook, o kindle, o ipod, o ipad... Socorro! Quero de volta o lp, o livro de papel, o cheiro, o som e o gosto de tudo que não seja eletrônico, virtual, de última geração. Me tragam de volta o silêncio das noites enluaradas, os banhos de rio e cachoeira, o barulho do mar sem o fedor das baleias mortas, o... Quero de volta o mundo ingênuo que perdi na infância, na Serra do Caparaó, quando vivia protegido pelas montanhas, pelos pais. Não quero mais ensinar, guiar, proteger, mostrar, enxergar. Tudo isso eu diria, se pudesse... Mas ninguém pode deter o tempo, nem voltar ao passado e nem não viver o que já viveu. Resta a memória, registro impiedoso do tempo que passa, inexoravelmente.

Uma das lembranças que me ficaram do passado é a dos anos sessenta, quando Vitória só tinha duas entradas pelas pontes que a ligavam ao continente, pelo sul, e duas ao norte, por Camburi ou pela Reta da Penha. Pelo sul, chegávamos pelas Cinco Pontes, a famosa ponte de ferro construída por Florentino Avidos, ousada obra de engenharia alemã, construída na década de 1920. Vínhamos pelo sul do estado, de Guaçuí, Alegre, Muqui ou Cachoeiro, quando tínhamos de resolver alguma coisa em Vitória. Geralmente, caso de doença. A BR 101 era pior do que hoje, como se pudesse; uma estrada estreita, cheia de curvas, subidas e descidas, asfaltada no antigo trilho das mulas, tropas e tropeiros, como também relatou o Ormando Moraes, no seu livro já clássico. Mas havia poucos acidentes, pois o trânsito era pouco. Saíamos de madrugada e, cinco ou seis horas depois, com uma parada em Iconha, pra comer sanduíche de pernil, chegávamos a Jardim América, onde começava o sofrimento. O trânsito congestionava, pois a passagem pela ponte do Camelo, em São Torquato, era lenta e penosa. Depois, a travessia das Cinco Pontes, muita estreita, era como um hímen protegendo a integridade da nossa capital. Só quando chegávamos à Vila Rubim, o trânsito fluía e, então, respirávamos aliviados, com a vista do Penedo, do canal da baía de Vitória, do palácio Anchieta, das escadarias. Chegar a Vitória e, principalmente, atravessá-la era uma conquista suada; para nós, do sul do estado, Vitória terminava em Camburi, Jardim da Penha e Ufes. Dali pra frente, era o desconhecido. Portanto, eram duas as pontes que ligavam a ilha ao resto do mundo; ao norte, a Ponte da Passagem, ou a de Camburi, e, ao sul, as Cinco Pontes, ou a Florentino Avidos. E assim passaram-se anos.

Na década de 1980, Vitória explodiu com a industrialização e o êxodo rural. Milhares de pessoas vieram do interior, não só do estado, mas também da Bahia, de Minas e do Rio, para viver e trabalhar em Vitória. Eu, também. Cheguei para ficar, em fevereiro de 1980, para ser professor na Escola de Aprendizes de Marinheiro do Espírito Santo, do outro lado da baía. Por opção e pelas belezas de Vila Velha, eu e a esposa resolvemos estabelecer-nos na Praia da Costa, onde comprei meu primeiro apartamento, na rua D. Jorge de Menezes. Como havia passado no concurso de professor, também, na rede estadual, escolhi minha cadeira em Cobilândia, pois a antiga diretora da escola Godofredo Schneider, na Prainha, que seria minha primeira opção, retirou a cadeira, para que eu não a escolhesse, reservando-a para uma afilhada. Coisas da ditadura, da qual ela foi defensora fanática. Como trabalhava em tempo integral em Vila Velha, não havia necessidade de me deslocar de carro para Vitória. Naquela época, havia as lanchas e era só deixar o carro no estacionamento da Prainha, pegar a barca e saltar na Costa Pereira, nos Salesianos ou na Rodoviária; tudo rápido, fácil, num cenário maravilhoso, a baía de Vitória. Quando uma naviarra (sabia que um dia ainda usaria essa palavra) passava, fazia tanta onda que a lancha quase virava. Aí era uma gritaria seguida do alívio geral. Até hoje não consigo entender como acabaram com essa via de transporte, da mesma maneira como não tem explicação terem acabado com os trens. Ou melhor, ter tem, mas nem vale a pena lembrar isso, pois só quem viajou de trem ou de barca sabe o prazer, a praticidade e a economia que esses tipos de transporte traziam, se compararmos com o absurdo uso de automóveis, nos dias atuais. Espero, ainda, antes de morrer, ver concretizadas as tão prometidas, em época de campanha política, ferrovias litorâneas e os metrôs de superfície, subterrâneos ou túneis submarinos. Sairão, um dia, dos papéis e das promessas vãs? Só Deus sabe...

Comecei a trabalhar na Ufes em 1982 e, para chegar lá, tínhamos de dar a volta em todo o percurso passando pela Av. Carlos Lindemberg, passar por S. Torquato, Ilha do Príncipe, Vila Rubim, Centro, Praia do Canto, Reta da Penha, atravessar a Ponte da Passagem, Jardim da Penha e, enfim, a Ufes. Esse trajeto levava uma hora e o fazíamos em um único ônibus circular, que saía de hora em hora. Lecionava de manhã na Marinha, à tarde e à noite, na Ufes, pois não tinha dedicação exclusiva, ainda. Se perdesse um ônibus, na saída das aulas, tinha de esperar o próximo e o último, que saía às onze, só chegava à meia-noite em Vila Velha. Aí, comprei um carro, um chevetinho seminovo, porém batido (claro que não sabia, mas quem escapa da lábia de vendedor de carro, hoje e de cavalo, no passado?), que me deu muita dor de cabeça. Uma delas foi, numa noite, quando saí da Ufes para casa. Chovia muito e a cidade estava toda alagada. Vim escapando das poças e das enchentes enquanto pude, mas, ao chegar à Ilha do Príncipe e tentar atravessar o viaduto que dava acesso à rodoviária, o carro boiou. Muitos carros já estavam parados ali, com água no carburador. Entrei na água suja e empurrei o carro até um local seco, à margem do rio que se transformara a pista, abri o capô e fiquei olhando pra aquele monte de cabos e válvulas com cara de paisagem. Nunca entendi nada de mecânica automotiva e fiquei à espera de uma ajuda do céu para sair dali. E ela apareceu. Até hoje não consigo entender como um ser humano fez isso por mim, naquela situação, e só consigo atribuir isso à providência divina. Conto como foi.

Passou um ônibus lotado, como tantos que já haviam transitado por ali e me dado um banho de lama e água suja e alguém sinalizou, parou o ônibus e desceu na lama, oferecendo-se para ajudar. Estava fardado, era um soldado da PM, ainda novo; ao ver minha ignorância diante do motor, tirou os cabos, as velas, secou tudo e me mandou ligar o motor que, depois de algum engasgo, deu a partida. A essa altura, já estávamos completamente molhados, pois a chuva não parava. Em seguida, foi me orientando até a entrada do IBES, para me desviar de poças e encontrar um local menos alagado para passar. Lá, pediu-me para parar o carro e desceu, sem aceitar qualquer ajuda em dinheiro e nem mesmo aceitou que o levasse em casa, dizendo que não precisava e que não tinha feito mais do que sua obrigação. E, acreditem, nem bombeiro ele era. Fiquei estupefato e só então me lembrei de que, naquele sufoco, não lhe tinha perguntado o nome, nem mesmo observei o que estava escrito na sua plaquinha de identificação. Gostaria de ter enviado uma carta de elogio ao seu comandante ou mesmo de lhe ter agradecido, por escrito, mas não o pude fazer. Até hoje, rezo, em minhas preces, por ele e sua família e espero que tenha se dado muito bem na sua vida pessoal e profissional. Com seu gesto, tive a certeza de que anjos existem, mesmo entre os humanos. Se é que ele fosse mesmo humano...

Depois, no governo Camata, inaugurou-se a segunda ponte e, em 1989, a terceira ponte, que nos ligava, definitivamente, ilha e continente. Da Praia da Costa à Ufes, era um pulo; o trânsito era leve e podia-se ir, trabalhar e voltar, o que fazia quatro vezes por dia. Difícil era só o pedágio, que prometeram acabar em dez anos, já se passaram 21 e nada. Certa noite, aconteceu um fato inusitado. Saíra da aula às dez e havia uma lua cheia espetacular no céu. Todos que já viram a lua cheia sobre a terceira ponte sabem do que estou falando. E não tem essa de dizer que é a segunda ou terceira mais linda do mundo, como dizem do pôr de sol de Colatina, ou do clima capixaba. É simplesmente espetacular, sem qualquer possibilidade de comparação com qualquer outra lua cheia em qualquer lugar! Já me deslumbrei com a lua cheia em Katmandu, no Nepal, ou em São Pedro de Atacama, no Chile, que, também, são indescritíveis, mas não têm o diadema da terceira ponte como decoração. Pois é, estava eu, lépido e fagueiro, retornando para mais uma noite de descanso, após um dia de labuta, quando o carro à minha frente parou, de repente, no alto da Terceira Ponte, antes de começar a descida. Parei também e fiquei aguardando os próximos capítulos. Não havia carro atrás do meu e, desde aquela época, havia alguns malucos ou desiludidos com a alta inflação no tresloucado governo Sarney, que resolviam pôr fim à vida, saltando lá de cima. Imaginei que pudesse ser suicídio, mas desceu um casal do carro, que era tipo um corcel com aquela parte traseira reta e ela deitou-se de costas sobre o capô, levantou a saia, abaixou a calcinha; ele, arriou a calça, a cueca e puseram-se a fazer amor ali, à minha frente, à luz da lua cheia, tendo Vitória como cenário, de um lado, a entrada da baía de outro e eu, solitário, como espectador.

Confesso que não fiquei até o final do espetáculo, pois o pudor não me permitiu. Reduzi as luzes do farol e saí, discretamente, rindo, sozinho, um tanto surpreso com a ousadia daquele casal enamorado que escolheu como motel aquele local inusitado, embora de beleza inigualável. Vida longa ao casal. Espero que estejam fazendo amor com a mesma sofreguidão da juventude até hoje, embora acredite que tenham escolhido outros palcos para suas performances sexuais e que nunca mais tenham conseguido repetir aquela cena presenciada por mim, por esses olhos que a terra há de comer, e espero que seja bem tarde, naquele local, no alto da Terceira Ponte.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 27 - Pontes, 2010
Autor: Francisco Aurélio Ribeiro - Capixaba de Ibitirama, nasceu na pequena cidade da serra do Caparaó, em 1955. Escritor e professor de Literatura, formou-se em Letras e Direito, com doutorado em Literatura Comparada. É pesquisador de Literatura e História do Espírito Santo e das questões da alteridade. Possui mais de 40 livros publicados, dentre literatura infanto-juvenil, crônicas, historiografia e critica literária e dezenas de artigos em revistas e jornais. É cronista fixo de A Gazeta
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2020

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