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Bares? Eu hein, nem pensar! - Por Marilena Vellozo Soneghet Bergmann

Hotel Estoril - Inaugurado em 1958

Remissivas sensações me fazem caminhar pelas ruas ainda vazias nesta manhã de sábado. Meu olhar busca os bares – não; não quero entrar, como não entrava antes. Antes, eu só passava (e só passar já era ousadia).

Para as colegiais de recatadas saias (quatro dedos abaixo dos joelhos), os bares eram um lugar cheio de proibições e ambivalências. Tinham algo de sombra e mistério, sedução e... fumaça.

Lá dentro era o mundo dos homens.

... O mundo dos homens!? Riam (falavam de mulheres?), gesticulavam em exacerbada discussão (política, com certeza), falavam de trabalho, trocavam informações e sempre havia um poeta a buscar nos bolsos o último poema. Ali, nos bares, negócios eram fechados, presidentes depostos, deputados retalhados, fofocas comentadas – ancas redondas e seios fartos evocados. Se vislumbrados pela porta aberta, rasgavam suspiros, provocavam atropelada saída de uns quantos que ali ficavam, na calçada, ávidos, o copo na mão esquecida, o olhar de gula. Eram personagens do machismo obrigatório. Faziam seu papel.

Não. Não era lugar para uma menina. Convinha até cruzar a rua antes de passar por certos bares.

Caminho vagarosamente pela Jerônimo Monteiro. A janela do tempo, aberta, traz ventos insopitáveis – a praça do relógio, o calçadão de sinuoso desenho, o bar-café do Almeidinha (que não mais existe), símbolo de uma época, que ostentava em sua fachada um grande espelho onde se lia, gravado em letras brancas: “Here you drink and buy the Best coffe of the world”. Era o ponto de reunião dos homens à saída do trabalho. Os mais velhos para um café, um aperitivo (ou um bom trago mesmo), um dedo de prosa. Os mais novos, assumindo ares adultos, para flertar com os brotinhos que desfilavam no obrigatório footing do fim da tarde.

Para as mocinhas era muito in sair àquela hora para serem vistas por breves momentos ao passar para ir ao correio, a uma rápida comprinha (pretextos não faltavam), às aulas na Aliança Francesa (as mais elegantes seriam citadas nas colunas sócias, no dia seguinte). Mas não era fino ficar de lá pra cá.

Tinham it aquelas meninas, com suas esvoaçantes saias godê guarda-chuva, as anáguas rendadas, os cabelos presos em esmerada armação que o laquê mantinha, intacto, apesar do vento solto a galope. Figurinhas leves, antigravitacionais, que deslizavam sua insustentável leveza ao entardecer.

Passavam, em grupos, entre risonhas e sérias, disfarçando o interesse em olhares oblíquos à rapaziada em torno. Ah, os olhos de Capitu!... mas nem sempre capitulavam, pois o tempo do flerte era o mais gostoso, com sua expectativa e frisson.

Afora os muitos cafés e botecos, dos quais se passava ao largo, tínhamos casas bem montadas como a Sorveteria Pingüim e o bar-restaurante do Hotel Sagres, onde se ia tomar chá ou sorvete, de papai e mamãe a tiracolo – tipo família unida – aos domingos. Ambos, a seu tempo, muito chiques. Fora do centro, perto da Santa Casa, o Bar Santos oferecia a peculiaridade charmosa de mesas com pés trabalhados em ferro e tampo hexagonal em mármore.

Um fato me marcou.

Na praça Costa Pereira, outros bares, sempre cheios, refratários às mulheres, abrigavam a mesma fumarada, o mesmo mistério. Só a mudinha lá entrava. Faziam-lhe troças, perguntavam-lhe coisas que ela, sem entender, respondia sorrindo, em sons guturais, na inocência de sua surda mudez. Uns tempos depois ficou grávida – de quem? Ouvi meu pai comentar. Foi o primeiro choque e a primeira indignação. Para mim, aquele bar – o Simpatia – ficou sempre ligado a uma dolorosa sensação de inocência ultrajada. Doeu.

A vez das meninas chegou com a moda das lanchonetes, mais adequadas – o bar comportado: o Bob’s, o Dominó, e mais tarde o Blitz... que tomávamos de assalto após as sessões nos Cines Glória, São Luiz e Santa Cecília (os mais cotados).

No cardápio: Sanduíche americano (com montanhas de queijo), vaca-preta (coca cola com sorvete) e até Cuba Libre para as mais ousadas.

Manhã morna, prevendo chuva.

Diluem-se minhas mais remotas lembranças do mormaço que toma conta da ilha.

Minha vivência de Vitória dá um salto no tempo. Parti. Vivi mundo. Voltei.

E não é que foi aqui, ao voltar, que vim a conhecer o Triângulo das Bermudas? Teco-teco, Bilac, Partido Alto – Bananas e Bahamas – Bordel, Jamaica – Cachaçaria do Raul Tremendão – que sei mais? bares, bares, bares, bares... repletos de mulheres – meninas, coroas – que à vontade riem (falam dos homens?), discutem impeachments, falam de negócios, fumam, fofocam, descontraídas e donas do pedaço. O chopinho espuma, a paquera é franca, as tigresas têm unhas negras e íris cor de mel.

Se antes os bares tinham em seu interior uma infra-estrutura com espaço para mesinhas e conforto dos fregueses, hoje, qualquer cubículo serve para abrir um bar – as calçadas generosas e democráticas abrigam as mesas e o vaivém dos garçons. Transeunte não tem vez, carros estacionados quase se misturam às mesas, gentes e bandejas equilibristas. Música, aos berros. As mulheres, desenvoltas, ombro a ombro com os homens, anulam qualquer desigualdade.

Volto ao espelho do tempo que reflete uma anamorfose da imagem real perdida nos espaços da minha memória e procuro uma explicação que me leve aos arcanos dessa metamorfose na qual o então mundo dos homens serve hoje de palco para o indiscutível reinado das mulheres. Mas vejo que seria tema por demais vasto querer penetrar no mérito dessa questão. Melhor assim – apenas esvoaçar no prazer do voyeur que ronda o mistério sem jamais invadi-lo.

 

Fontes: Escritores de Vitória, 1995
Autor: Marilena Vellozo Soneghet Bergmann
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014

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