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Carnaval - Por Renato Pacheco

Terezinha, Jones e Joel (um chinês, uma tirolesa e um holandês) prontos para a folia, março/1935 - Fonte: Acervo Cultural - ES

Maria, você é mulata

Como é que pode ser aristocrata

Aristocrata pra lá

Aristocrata pra cá

Você quer tapar o sol com a peneira

Deixa essa mania de aristocracia

Porque você nasceu pra gafieira. Maria.

 

Esta música de Clóvis Cruz e Moacir Araújo foi, segundo Osmar Silva, (1) cantadíssima nos carnavais capixabas de 1934/35, sobretudo pela polêmica que suscitou, porque uma (ou mais, segundo algumas versões) Marias se sentiram ofendidas em seus brios de "mulatas aristocratas".

Mas tudo acabou em carnaval que, segundo os historiadores, era animadíssimo em Vitória, tanto nas ruas quanto nos clubes, irmanando-se classes numa folia só.

Nas ruas havia à noite corso, um desfile de carros a que não faltavam batalhas de confetes, serpentinas e lança-perfumes. Transcorria na Avenida Capixaba e Rua Jerônimo Monteiro (hoje apenas Avenida Jerônimo Monteiro).

As ruas ficavam atapetadas de pedacinhos coloridos de papel.

Pela manhã e à tarde havia blocos sujos que acabavam por encontrar-se no tablado da Praça Oito, mais tarde removido para o Parque Moscoso.

Não havia escolas de samba, como hoje. Eram dignamente substituídas pelas batucadas.

Na Fonte Grande havia a Mocidade e a Chapéu de Lado: na Praia a Centenário e a Mocidade de Santa Lúcia; no Morro do Moscoso, a Conguira: na Vila Rubim, a Estrela e a Está Cruel.

Segundo Hermógenes Lima Fonseca, "as batucadas desfilavam cantando especialmente suas marchas oficiais. O ritmo, às vezes, era quase acelerado. A marcação adiantava e a turma dava no pé, parecia desfile militar. A diferença está nas cores. A fantasia era calça branca, com tênis ou pé-de-anjo, como se dizia. Camisa de mangas compridas, nas cores de cada uma, e, na cabeça, gorro de marinheiro nas cores principais, tanto mulher como homem. Na frente, a porta-bandeira e o baliza puxando 30 a 40 componentes."

"Cada sociedade estava ligada à família do seu líder, que era sempre o presidente, figura de maior respeito. Assim, a Chapéu de Lado tinha como chefe Eduardo Silva e as conversas de decisões se faziam em sua casa." Outros líderes — João da Cruz, da Centenário: Júlio Henrique da Santa Lúcia: Bolinha e Sebastião, sargentos da Polícia Militar, no Andaraí e Mulembá (Maruípe): seu Inácio Lima e D. Mariana, da Mocidade: seu Alfredo para o Prazer das Morenas, em Goiabeiras.

A mais antiga batucada era a Mocidade e se chamava Grupo Musical. A Chapéu de Lado surgiu de uma disputa dos pandeiristas da Mocidade, em 1932 ou 1933. (2)

Havia também banhos de mar à fantasia, tanto na Praia Comprida quanto na Praia da Costa, saindo ônibus direto da Praça Costa Pereira. Davam-se prêmios para o melhor bloco, melhor fantasiado e mais espirituoso. Bandas de música, como a Pega Pato, abrilhantavam estas festas. (3)

Os jornais abriam suas colunas às notícias do carnaval.

"Que venha, pois, o carnaval, que venham as ilusões, os sonhos que não se realizam e que venha tudo, tudo, afinal, até mesmo a D. Desilusão..."

"A ansiedade pelo carnaval já começa a assoberbar os capixabas. Já se pensa nele e com sofreguidão pela chegada de seus três dias," anunciava o Diário da Manhã em 6 de janeiro de 1931. Mais tarde, Elpídio Pimentel escreveria: "Bem haja, pois, Momo imortal que, todos os anos, envolve os 'reis da terra' nas espirais infindáveis de suas serpentinas multicores". (4) O carnaval se abria no sábado à tarde com o bloco Alegria da Vaca, dos funcionários do Banco do Brasil, que fechava ao meio-dia.

Mas o grande carnaval era nos clubes Vitória, Saldanha e Álvares, das classes média e alta, com seus blocos. O Pega a Nega e o Solta a Nega no Clube Vitória, e o Bate-papo e o Street-boys no Saldanha, o Turunas e Brotos Perigosos no Álvares Cabral pontificavam.

Os blocos tinham música própria. A do Bate-papo era de Clóvis Cruz, com letra de José da Ilha, e dizia:

"Bate-papo, bate-papo

meu povo saia da frente

nós temos língua de trapo

falamos de toda a gente...

Esta vida de amargura tão dura

já não posso suportar

Só o que salva esta desgraça sem graça

é o consolo de sambar."

Segundo o depoimento de Paulo Vellozo, grande folião da década de 30, depois que se extingüiu o Pega a Nega, no Clube Vitória, surgiu o Solta a Nega, bloco de rapazes, que substituiu a velha guarda composta de Jonstâncio e Taciano Espíndula e Bianor Machado, entre outros. Os componentes do Solta a Nega eram Paulo Vellozo, Victor Finamore, Sesóstres Andrade, Clóvis Gomes, Emílio Mafra, Aníbal Soares, Ataliba Cabral. Era o bloco oficial do Clube Vitória e animador das festas carnavalescas:

"Nós somos nobres príncipes da fuzarca

do velho império do rei Gandaia

do Solta-nega nós fazemos parte,

e vamos brincar com toda a arte...

 

Para o Carnaval gozar

esta boa farra sem igual

Solta-nega vai mostrar

que não tem rival

 

No Solta-nega só tem gente boa

que vive alegre sem se aborrecer,

quem anda triste e só chorando à toa,

não goza e morre sem viver...

Famosa também era a música do Sorriso, que teve repercussão nacional, feita por Hervê Cordovil, de improviso no Bar Central da Praça Oito, a pedido de "gentis senhoritas da família Castelo". (5)

Sorriso

Quando passa pela rua

Só se vê sorriso

Todo mundo gosta muito de você

Sorriso

Nosso bloco pra brincar não tem igual

Sorriso

Pra alegrar meu carnaval!

Sorriso

Vai-se a vida passando

Sorrindo

Vão-se as dores fugindo

Embora, muitas vezes, mentindo

Um sorriso de amor

Me deixa a vida toda em flor.

Havia também os blocos populares como Chuveiro de Ouro e Chuveiro de Prata, organizados por Pedro Furão, um dos chefes da Capatazia do Porto, ou por Manoel da Hora e Pedro Navalha. O Clube Popular dos Democratas alugava o Teatro Carlos Gomes para festas e na Vila Rubim havia a banda Está Cruel que também promovia bailes.

O cinema Politeama, um barracão no Parque Moscoso, para não ficar atrás realizava em seu palco apresentações da Companhia Mulata Brasileira, com batuque, cateretê e maxixe (6) ou concursos de músicas. Em 1932 venceu "Loura e morena", com letra de Nilo Aparecida Pinto (um bom poeta) e música de Isaías Borges. No ano seguinte o samba "Tenho mágoa", com letra de Jair Amorim (também ótimo letrista) e música de Chiquito, e a marcha "Olha aqui oh", de Lauro Miranda. (7)

Interessante observar que, durante os três dias de carnaval, os blocos dos clubes se visitavam, e cada clube procurava ter a melhor orquestra e grupos vocais, à moda do Bando da Lua do Rio que fizera sucesso no exterior com Carmen Miranda.

Um fato lamentável ocorreu no carnaval de 1934: um soldado do 3° Batalhão de Caçadores, com um revólver F.N. calibre 38 atirou nos populares da Praça Costa Pereira, ferindo três. Os foliões bradaram o célebre "lincha", mas o soldado foi recolhido ao quartel. (8)

Também lamentável para os carnavalescos foi o afundamento, no início de 1943, dos navios Brasilóide e Afonso Pena, em que morreram 123 compatriotas. Diante disto, não houve carnaval de rua, ficando restrito ao tablado no Parque Moscoso e aos clubes. Não havia, de fato, clima para festas momescas (9) naqueles anos trágicos.

 

NOTAS

1 Osmar Silva. Música popular capixaba (1900-1980), Vitória, DEC, 1986.

2 Lima Fonseca, Hermógenes. Contos do pé do morro. Cadernos de Cultura, Vitória, SPDC/ UFES, 1993. p. 32, 39 e 41.

3 Diário da Manhã, 20.01.1931 e 21.01.1934. 

4 Diário da Manhã, 11.02.1934 e A Tribuna de 24.12.1939. 

5 Pacheco, Renato. Carnaval de ontem, carnaval de sempre, A Gazeta, Vitória, 14.02.1973. 

6 Diário da Manhã, 22.02.1931. 

7 Diário da Manhã 6.2.1932. 

8 Diário da Manhã, 6.2.1934. 

9 A Tribuna, 2.3.1943. 

 

Fonte: Os dias antigos, ano 1998
Autor: Renato Pacheco
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2015

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