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Convento da Penha – Transferido para a Mitra, 1898

Convento da Penha - Edson Quintaes, 2015

Aproximava-se a era da renovação espiritual do Espírito Santo, pela criação de sua própria Diocese. E, na marcha infalível do tempo, a 15 de Novembro de 1895, a Santa Sé desmembrava do Bispado do Rio de Janeiro todo o território do Espírito Santo e a Freguesia de São Miguel do Veado.

Eleito Bispo do Espírito Santo, Dom João Batista Correa Néri chegou a Vitória, no dia 18 de Maio de 1897, para assumir a direção da Diocese, no dia 23, festa máxima do Estado, porque recorda o desembarque, em Vila Velha, do primeiro donatário Vasco Fernandes Coutinho.

No dia 26, S. Exa., acompanhado de Monsenhor Jerônimo Secretário do Bispado, e do Pe. Tomaz. Aristóteles Guizan, sacerdote espírito-santense, foi à Penha. Verificando o abandono daquele relicário inestimável, porque o Administrador franciscano residia no Rio de Janeiro e somente aqui vinha para a festa, na segunda-feira da Pascoela, resolveu pedir à Santa Sé que transferisse para a Mitra o Convento e o Santuário. Disso tratou, quando, em 1898, foi ao Rio de Janeiro e a São Paulo, esmolar para a Diocese. Atendido, recebeu o Rescrito da Internunciatura Apostólica, datado de 18 de Dezembro do mesmo ano (1898), autorizando-o a tomar posse da Penha e do Convento de São Francisco, em Vitória. Por isso, ao regressar ao Espírito Santo, em 1899, S. Exa., munido das instruções dadas pelo Sr. Internuncio, dirigiu-se a Vila Velha, no dia 14 de Março, e em presença das testemunhas Ovídio dos Santos, substituto do Juiz Seccional, Adrião Nunes, Despachante da Alfândega, e clérigos José Blanco y Gonzales, Samuel Fragoso e Joaquim Mamede da Silva Leite, recebeu as chaves do Convento, que estavam em poder do sacristão João Ramires. Nomeou, em seguida, encarregado do Santuário o seminarista Joaquim Mamede, e mandou proceder ao arrolamento de tudo que encontrou: — móveis, paramentos, alfaias, jóias, etc.

No dia 15, transferiu para lá o Seminário Diocesano, estabelecido no Carmo. Durou apenas um ano. O seminarista Joaquim Mamede, posteriormente bispo de Pouso Alegre, ordenou-se, em Vitória, no dia 8 de Janeiro de 1900.

Para o cargo de primeiro capelão da Penha, Dom João Néri, no dia 18 de Março, designou Monsenhor João André Casella, o piedoso ancião que, em 1877, se transferira da América do Norte para o Brasil, conduzido pelo ideal de exercer o apostolado entre os silvícolas. Restabelecido o serviço religioso e aberto o Santuário, diariamente, das seis às dezoito horas, reanimou-se a vida litúrgica ali e, no dia 10 de Abril seguinte, realizou-se a grande festa da Penha, precedida de novena, e com solene Pontifical, — o primeiro celebrado naquele templo.

Dai em diante, a festa querida do povo capixaba não mais lhe faltou. Anualmente, na segunda-feira já referida, movimentam-se o clero e o povo, sobem a ladeira ou se transportam de automóvel, pela estrada de rodagem, para a comemoração tradicional.

Em princípios deste Século e durante muitos anos, a orquestra da Penha atuava sob a regência da Sra. Lavínia Veloso. Eram cantadas, nas festas do Santuário as seguintes estrofes: —

Nossa Senhora da Penha,

poderosa intercessora,

diante do vosso Filho,

patrocinai-nos, Senhora.

 

Nossa Senhora da Penha,

livrai-nos de todo o mal,

assim como fostes livre

do pecado original.

 

Nossa Senhora da Penha,

atendei nossos clamores;

consolai todos que sofrem,

socorrei os pecadores.

 

Cada estrofe era bisada, no coro, pela orquestra. O povo a repetia, em tom diferente.

Uma das providências tomadas pela nova administração da Penha foi a de instalar pára-raios, que protegessem o Santuário dos efeitos desastrosos das centelhas atmosféricas. Isso porque, na madrugada de 8 de Janeiro de 1900, uma descarga poderosa, ali, se verificou e os prejuízos foram vultosos: — paramentos queimados, rombos nas paredes, peças danificadas, etc. Encarregou-se da instalação o Sr. José de Sousa Pacheco; ofereceu gratuitamente seus préstimos. Em Agosto seguinte, já se achavam instalados três aparelhos, conforme o exigiu a posição do monumento.

Dom João Néri deixou a Diocese do Espírito Santo, em princípios de 1901, e foi substituído pelo primeiro bispo espírito-santense, Dom Fernando de Sousa Monteiro, que dedicou sua Pastoral de saudação aos seus diocesanos à "Devoção ao Divino Espírito Santo e a Nossa Senhora da Penha".

Chegou S. Exa. a Vitória, no dia 3 de Março de 1902, e, no dia 9, tomou posse da Diocese. Voltou-se logo para o Santuário querido e incentivou romarias, de modo a despertar, nos seus filhos espirituais, fervorosa confiança na Virgem Imaculada. Por isso, além desse movimento piedoso, em Vitória, a 11 de Maio de 1903, vieram de Santa Leopoldina, Santa Isabel, Viana e Araçatiba, romeiros que se reuniram em Vila Velha. Os de Santa Leopoldina partiram da Barra de Mangaraí, em duas lanchas, às seis horas, e chegaram às dezessete, em Vila Velha. Eram em número de cem. No dia seguinte, Dom Fernando celebrou o santo sacrifício da Missa e distribuiu a Sagrada Comunhão a todos, assistidos pelos vigários das respectivas paróquias.

Cantaram os romeiros: —

A Nossa Senhora da Penha

Conduze da procela os teus,

bondosa Mãe,

à secular capela

para onde o bote vai.

Estrela Tu és, nas trevas,

ao porto todos levas,

Maria, Maria,

oh! vem nos ajudar!

 

Sim, vê-nos em perigo,

boa Mãe de todos nós!

Concede-nos abrigo

que suplicamos nós!

 

Bendize nossas penas,

trabalhos e novenas!

Maria, Maria, oh!

vem nos ajudar!

 

Dá-nos, oh! Mãe querida,

um belo proceder;

saindo desta vida,

a graça de Te ver!

Aqui, sê nossa guia,

no Céu, nossa alegria!

Maria, Maria,

oh! vem nos ajudar!

 

Mas, aquelas esculturas finíssimas, em vez de conservadas em sua pureza xilóide, estavam caiadas grosseiramente, e os altares revestidos de uma camada de gesso o que abalou tristemente o fino senso artístico de Dom Fernando. Resolveu, então. S. Ex. contratar o artista francês Augusto Roner para raspar, envernizar e dourar tudo, conforme o estilo da obra. Mestre Augusto trabalhou ativamente, na Penha, na Catedral e noutros imóveis do Bispado, durante quatro anos.

Em 1908, considerando as dificuldades da Igreja, para conservar aquele monumento histórico, pois o alpendre ameaçava ruir, os deputados estaduais votaram a Lei n° 30 pela qual o Estado concorreria com 20:000$000, de auxílio às obras ali necessárias. Surgiu, porém, uma voz contrária, baseada na fé republicana e convicções positivistas. O deputado Antônio Ataíde combateu calorosamente o Projeto. A Lei foi vetada pelo então Presidente do Estado, Dr. Jerônimo de Sousa Monteiro, sob fundamento de que a Igreja estava separada do Estado.

Apesar, porém, de todas as dificuldades, numa diocese paupérrima, Dom Fernando prosseguiu no seu objetivo. Por isso, em 1909, contratado pelo segundo capelão da Penha, Cônego João Maria Cochard, substituto de Monsenhor Casella, falecido a 21 de Julho de 1908, — o marceneiro Pinin foi consertar o piso, e algumas peças do Convento e do Santuário. O alpendre sofreu os necessários reparos. Em 1910, o Comendador Cícero Bastos, fervoroso devoto de Nossa Senhora da Penha, ofereceu o mármore para completar o altar mor. Claudicam alguns articulistas capixabas, quando afirmam que o altar antigo, artístico, foi substituído pelo atual. Assistimos aos entendimentos relativos ao trabalho. O Comendador completou o mármore. Existiam peças desse material, revestidas de gesso, como, por exemplo, as colunas laterais. Veio de São Paulo o Sr. Rigon Umberto, hábil marmorista, que estudou o estilo da obra e completou-a, conforme o Comendador Cícero Bastos anunciara ao Sr. Bispo, em carta de 24 de Abril daquele ano, desejoso de que a bênção do altar reformado se realizasse a 8 de Setembro, Natividade de Nossa Senhora. (26)

Verificou-se, então, que a imagem de Nossa Senhora da Penha não tinha cabeleira. Um lenço de linho, muito velho e fino, envolvia-lhe a cabeça. Minha Mãe, que se encarregava de preparar a imagem para as festas, não vacilou; tomou de uma tesoura bem afiada e zás! ... Lá se foram minhas duas tranças! ... Chegavam-me quase à bainha do vestido, terminadas com lacinhos de fita. Perante minha tristeza de perder as tranças queridas, uma babá consolou-me: "Não chore, minha fia. Nossa Senhora da Penha lhe dará boa cabeça". E, assim, enviadas para o Rio, minhas tranças foram transformadas em cachos negros da cabeleira de Nossa Senhora.

Tratou o capelão da Penha de instalar a luz elétrica, no Convento e na ladeira, empreendimento confiado ao Eng. Joaquim Carrão. Esse trabalho, logo executado, concluiu-se a 7 de Setembro.

Em conseqüência do movimento progressivo, em torno da Penha, surgiu, naturalmente, a idéia de uma estrada de rodagem, que ladeasse a encosta; mas Dom Fernando discordou "Ali não é lugar de passeio. Quem vai à Penha deve ter Fé bastante para o sacrifício da escalada". De certo, ninguém cortaria uma árvore daquela mata belíssima, rica em orquídeas e lianas perfumosas, cuja conservação merecia os melhores cuidados do Sr. Bispo. Sim, aquelas árvores eram sagradas; testemunharam o desfilar constante da piedade e do sacrifício, arrostados, ladeira acima, pelos devotos da Virgem, na ânsia de conforto espiritual, de uma prece fervorosa perante o trono da Augusta Senhora. E as visitas às celas, e outras dependências do Convento instruíam os peregrinos sobre a vida e o espírito cristão daqueles que nos deram, com o Santuário e o Convento da Penha, um relicário de Arte, um monumento da Fé, um escrínio da História, no Espírito Santo. Desde o mobiliário rústico, utilizado, ainda pelos sucessores de Pedro Palácios, até a cozinha primitiva, tudo conduzia os peregrinos à recordação do passado.

Com toda a magnificência da Liturgia, a 8 de Setembro de 1910, benzeu-se o altar. Notava-se primorosa ornamentação, no Santuário. Combinava-se a iluminação elétrica profusa como entusiasmo do povo e a superioridade da orquestra regida pela Sra. Lavínia Veloso.

Para o sermão desse dia, veio de São Paulo o nomeado orador sacro. Cônego João Batista de Carvalho, vigário de Tatuí.

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2018

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