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Em Palácio – D. Maria Lindenberg

D. Maria e Carlos Lindenberg em Palácio

Tia Sílvia e tio Leitão vieram para a posse de Carlos e participaram da solenidade e das comemorações.

Em meu primeiro dia como a dama número um do Espírito Santo fui informada de que fazia jus a uma quantia para o meu uso pessoal, praticamente uma terça parte da remuneração que o governador percebia. Muito maneiroso, o funcionário explicou que a utilizasse para os "meus alfinetes". Eu lhe perguntava o porquê do dinheiro, e ele insistia na resposta dos alfinetes. Aborrecida com a sua persistência, despachei-o de forma mais ou menos malcriada: "Senhor; para os meus alfinetes, uso o dinheiro do meu marido. Faça, o que quiser com o outro". Mantive-me firme e jantais aceitei qualquer quantia do governo.

O novo cargo não modificou Os nossos hábitos domésticos. Continuávamos tão simples quanto antes, apesar das mordomias. Era época de férias, as meninas estavam conosco, e eu preparei um quarto para elas perto do nosso. Carlos Fernando sentia muito medo daquele palácio tão grande, cheio de salas e de corredores, por onde — segundo lhe disseram — o fantasma do padre José de Anchieta vagava de noite, arrastando as pesadas correntes de praxe. Sem conseguir dormir, o coitadinho batia na porta do nosso quarto, mas eu o mandava de volta para o seu. Não percebi o quanto ele sofria.

Os domingos — livres de audiências, de reuniões, e de telefonemas oficiais — eram inteiramente nossos. Em palácio, só havia movimento na parte residencial. Era a ocasião perfeita para colocar a preguiça em dia, aproveitar o ócio e esquecer os tique-taques dos relógios.

Carlos, Quetinha, Lourdica e eu nos valíamos da calmaria para vestir roupas caseiras e confortáveis. Carlos gostava de ficar à janela olhando o mar e as atividades do porto. Numa determinada tarde, ele viu um casal de turistas subindo a escadaria que leva, da rua, à entrada do palácio. De imediato, concluiu que o motivo de tal escalada era visitar o túmulo de Anchieta. Sem se preocupar com a camisa velha e puída, ele desceu, atravessou o andar térreo, saiu pela cozinha e foi ao encontra dos visitantes. Cumprimentou-os, certificou-se de que realmente queriam ver a sepultura do padre e os conduziu à capela ao rés do chão. Abriu-a e deu todas as informações pertinentes. O senhor é daqui?, quis saber o homem. Sou! Eu trabalho aqui. Os turistas teriam se despedido e partido, se o secretário de Educação, Fernando de Abreu, não tivesse atravessado a rua e saudado o chefe: - Boa tarde. senhor governador!", Carlos, encabulado por causa do traje, respondeu à saudação sob o olhar surpreso do casal. O homem, bastante desconcertado, perguntou: - O senhor é o governador?"Apanhado em flagrante, Carlos não teve como negar. Após as apresentações, para ganhar o controle da situação, ele convidou os ilustres pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz para um cafezinho, na certeza de que uma boa acolhida apagaria a má impressão do primeiro instante. Quando nós ouvimos o barulho de passos, o trio já estava às portas da sala anexa ao Salão Dourado. A conversa corria animada, e o copeiro se desincumbia adequadamente de suas funções, quando, movidas pela curiosidade, as meninas foram sorrateiramente espiar as visitas pela fresta da porta. Quetinha, de molecagem, empurra Lourdica que, descalça, com o rosto coberto por um creme branco e com os cabelos enrolados em papelotes, cai de joelhos dentro da sala, para espanto de todos e particular desgosto de Carlos, que se viu novamente envergonhado e obrigado a apresentar a estranha aparição. Lourdica - nessa época, aluna do requintado Sion — esmera-se em uma caprichada reverência e foge tão de repente quanto surgira. Passada a zanga, nós todos rimos daquela insólita entrada e especulamos a respeito da imagem que os eminentes pesquisadores de Manguinhos formaram do governador do Espírito Santo e de sua família.

Carlos nasceu predestinado à política e a exerceu com honradez e seriedade, jamais abusando do poder. Nunca privilegiou parentes ou amigos. Foi secretário de governo, deputado, senador e governador, desempenhando suas funções com paciência e boa vontade. Uma vez, comentei: "Você está trabalhando demais para fulano. "Ele respondeu: "Não é para fulano. É para o Espírito Santo com o qual tenho obrigações."

Como sua mulher, eu tinha um papel a cumprir e, espelhando-me em seu comportamento, procurei executá-lo segundo as suas expectativas, sendo amável sem pieguice; elegante, sem os maneirismos da moda; firme sem teimosia. Ter bom-senso é essencial. Um dia, uma pessoa avisou: "Maria, prepare-se porque você vai receber muitas cartas anônimas informando disso e daquilo." Reagi: "Olhe, minha filha, quando uma carta não tem assinatura, eu a rasgo sem ler. É pura perda de tempo," Jamais recebi algo do gênero.

Nunca fui ciumenta. Em um banquete no interior, o tema da conversa era confiança, e o padre local perguntou: "E a senhora, D. Maria, confia em Dr. Carlos?" Minha resposta foi: "Não! Confio em mim mesma." Carlos, sentado ao meu lado, riu que se acabou.

Como "primeiro casal" do Espírito Santo, nós vivemos algumas situações hilariantes e outras bastante aflitivas, mas a prática nos ensinou como sobreviver às circunstâncias. Ouvíamos com atenção discursos intermináveis; suportávamos sorridentes solenidades com o Sol a pino; comíamos com aparente satisfação aquilo que detestávamos e frequentávamos sem vontade dezenas de festas e de bailes pelo estado inteiro. Em todas essas ocasiões havia um protocolo a cumprir. Nos bailes, o cerimonial exigia que nós dançássemos a primeira música. Carlos nunca foi um bom dançarino. Diria, até, que ele era bastante ruim, muito duro, sem ginga e sem graça. Nesses momentos, seu sangue, alemão vinha à tona. Nós apenas dávamos a volta obrigatória pelo salão e voltávamos para a mesa. Eu adorava dançar e aguardava que algum de seus auxiliares não me deixasse sentada por muito tempo. Várias vezes, esse desejo resultou em pés pisados e moídos. Eu suportava o dissabor com um sorriso nos lábios; mas Carlos não se deixava enganar e implicava: "Quer dançar? Então aguente."

Houve uma vez, entretanto, em que os fados conspiraram contra nós e quase nos levaram a uma situação muito constrangedora. Carlos, Lourdica e eu visitávamos um município e contávamos ficar hospedados com um cunhado de Eurídice, como estava combinado. O prefeito, entretanto, não abriu mão de ter o nobre casal em sua casa. Só Lourdica conseguiu escapar da hospedagem forçada. Quando nos acomodamos no quarto que nos fora destinado, notei que, na penteadeira, havia pó-de-arroz, talco, perfume, e tudo aquilo que uma mulher precisa para se tornar mais bonita. Ficamos encantados com tanta delicadeza, e eu pensei com os meus botões: "Que gente fina, preocupar-se com o meu conforto!" Era hora do almoço e fomos para a mesa. Estávamos famintos provamos de tudo e repetimos. De volta ao quarto, descobri, consternada, que o armário estava ocupado por blusas, saias e calças alheias, não restando um único cabide para pendurarmos nossas roupas. Tive que colocá-las na cabeceira da cama, inclusive o smooking de Carlos e o meu longo, especialmente levados para o acontecimento da noite: o baile em honra do governador e da miss local.

Pondo de lado o protocolo, Carlos galantemente tirou a homenageada para dançar, abrindo a festa. Porém, depois de apenas alguns rodopios, ele sentiu aquelas inconfundíveis contrações que nos impelem a procurar imediatamente um banheiro. Desculpando-se com a moça, ele disparou porta a fora, seguido pelo cunhado de Eurídice, que viu, ali, uma emergência. Dirigindo, a toda velocidade, o bom samaritano salvou o governador de uma situação catastrófica e, passada a urgência, a dupla voltou lampeira para o salão. Eu, dançando ora com um, ora com outro, meio tinha percebido a aflição de Carlos e somente depois tomei conhecimento do quase desastre. Terminada a noitada, retornamos à casa do prefeito e nos deitamos. De madrugada, comecei a sentir as mesmas terríveis contrações que Carlos experimentara antes. Minha situação era menos aflitiva porque tanto os quartos quanto o banheiro davam para uma saleta interna. Minha satisfação foi prematura porque, ao tentar ligar o interruptor da saleta, o fósforo que o segurava caiu no chão, e ele não funcionou. Na escuridão, saber qual das várias portas era a do banheiro, virou um desafio. De gatinhas, fui abrindo uma a uma e, a cada insucesso, minha angústia aumentava. Gelada de suor, iminência de uma situação sem volta, eu imaginava o impensável; o que fazer depois que o pior acontecesse? O que diria a cidade quando a notícia se espalhasse? Nunca uma primeira-dama se viu em uma situação pior. Fui salva pela Providência no derradeiro instante. Ela me fez encontrar o lugar procurado. Escapei, por muito pouco, de fazer história na casa daquele senhor prefeito. Deitei-me, ainda abalada, e dormi o sono dos justos até às cinco da manhã quando, em homenagem ao governador, a banda municipal, estacionada em baixo da nossa janela, atacou o toque da alvorada. Rapidamente, o nosso quarto — que não tinha chave — foi invadido pelos de casa. Um a um, eles entraram procurando por suas roupas, seus perfumes, seu pó-de-arroz ou seus sapatos. Sem alternativa, Carlos e eu cobrimos a cabeça com o lençol e esperamos a tormenta passar. Quando o último parente pegou seus pertences, nós suspiramos aliviados, mas a provação ainda não terminara. Ouvimos um chorinho de criança vindo do pé da cama. Olhamos sem poder acreditar: de propósito ou por descuido, um bebê havia sido deixado ali. Carlos se portou como um perfeito pai e político: colocou o pé na barriga do abandonado e ninou-o carinhosamente. O pobrezinho logo dormiu e nós também. Foi uma visita inesquecível.

Quetinha casou em 1948, durante o primeiro mandato de Carlos; e, mais uma vez, contei com a ajuda e o carinho de Tia Sílvia já, então, viúva. Regina, a elegante e refinada mulher de Sílvio, havia posto, à disposição, todo o seu lindíssimo enxoval parisiense, dizendo-me para copiar o que desejasse. Aceitei a gentileza, fui ao Rio e decalquei os bordados de seus lençóis, toalhas e roupas. Aqui, contratei uma bordadeira que trabalhou com perfeição. Pedi-lhe recibo de todos os pagamentos para evitar qualquer mal-entendido futuro. Queríamos comprovantes de que as despesas corriam todas por nossa conta.

Muitos amigos e centenas de correligionários de Carlos prestigiaram a cerimônia religiosa e o almoço em palácio, transformando-os em eventos sociais. O povo, desejoso de ver a chegada da noiva e a dos elegantes convidados vindos do Rio, em avião fretado, dividiu-se em duas frentes: uma à porta da catedral e outra junto ao palácio. A aeronave trazendo o futuro genro do governador havia causado um grande rebuliço na véspera e aumentara a ansiedade e a expectativa. Quem antes não estivera disposto a ficar em pé na calçada, mudara de idéia. Miguel, o noivo, pertencia a uma importante família do Nordeste, muito bem situada no Rio de Janeiro e amiga do cardeal dom Jaime de Barros Câmara, que fez questão de oficiar a missa do casamento. Novo comentário de Tia Sílvia: "Maria, nunca assisti a um casamento realizado por um cardeal".

O número de pessoas presentes à recepção ultrapassou de muito, o esperado, e a festa fugiu inteiramente ao nosso controle. No dia seguinte, os tapetes do palácio amanheceram cobertos de camarões, canapés, doces e bolos mordidos e abandonados, sendo que grande parte dos nosso convidados não conseguiu se aproximar da mesa. A confusão criada nos faz boas risadas até hoje. Essa experiência mudou os planos para o casamento de Lourdica, oito meses depois. Tratamos de realizá-lo à tarde, desta vez oficiada pelo arcebispo de Mariana e nosso querido amigo Dom Helvécio Gomes de Oliveira. A recepção, como a de Henriqueta, foi em palácio, mas, desta vez, me livrei do vexame de ouvir dos amigos: "não comi nada...''. O jantar foi oferecido em pratos que já chegavam prontos aos convidados. E assim foram todos servidos e todos ficamos felizes. No final ainda brinquei com Carlos: essas recepções deveriam ser pagas metade pelo governo, já que a maioria dos convidados são políticos sem relação com a família.

Carlos foi eleito governador pela segunda vez em 1958, depois de oito anos no Senado, e a cerimônia de posse não teve a presença de minha querida tia Sílvia, que havia falecido quatro meses antes. Ela sofreu dois infartos em casa de seu filho Aluysio; o primeiro enquanto supervisionava os netos na ausência da nora Letícia, que viajara para São Paulo. Nós ainda estávamos no Rio, aguardando a posse de Carlos, em janeiro do ano seguinte; essa espera me permitiu ficar com ela diariamente. Seu estado melhorou, e o médico, Dr. Cruz Lima, garantiu não haver inconveniente em minha vinda à Vitória para as celebrações dos vinte e cinco anos da Formatura do Carmo. Suas palavras exatas foram: "fique descansada, D. Maria. Dessa vez, D. Sílvia pulou a fogueira. Viaje tranquila que não há mais problemas." Então, eu embarquei dia 3 de dezembro, participei das comemorações e retornei dois dias depois. Ansiosa para vê-la, pedi ao motorista do táxi que parasse em Botafogo, na 19 de Fevereiro. Subi ao seu quarto e a encontrei recostada na cama e com boa aparência; disse-me que a manicure tinha acabado de fazer suas unhas. Conversamos um pouco. Contei-lhe sobre os festejos da formatura e fui embora, prometendo voltar depois do almoço. Justo quando me preparava para ir vê-la, o telefone tocou e Regina, sua outra nora, avisou: "Maria, venha imediatamente porque D. Sílvia está morrendo." Ela sofrera um segundo infarto. Fui de carro, com Quetinha dirigindo o mais rápido possível, mas a minha querida faleceu antes da nossa chegada. Tinha apenas 65 anos. Eu a contemplei desolada. Suas unhas rosadas contrastavam com a palidez de suas mãos. Chorei grossas lágrimas de pesar, da dor, de angústia e da saudade durante muito tempo, lamentando a perda de quem me amara como uma verdadeira mãe. Foi um momento de muita aflição; um momento terrivelmente difícil. Mas resignar-se faz parte da vida e, com o tempo, meu sofrimento abrandou.

Em janeiro de 1959, mudamo-nos para palácio. Mais experiente do que no governo anterior, percebi que duas salas da parte residencial não atendiam bem à sua finalidade: a de refeições e a de visitas. A primeira era bem mais ampla do que a segunda. Achei melhor usar o espaço maior para receber convidados e o transformei em sala de estar. Passei os móveis de uma para a outra, mas não fiquei satisfeita. A mobília estava muito desgastada, tornando os ambientes feios e sem graça. As salas precisavam ser melhoradas de alguma forma. Carlos, um governador austero e preocupado com as finanças do Espírito Santo, logo avisou que não pediria, à Assembléia, dinheiro para embelezamentos. A solução era fazer o necessário, gastando o menos possível. Contratei João Henrique, um conhecido decorador do Rio, para dar sugestões. Enviei-lhe fotos das duas salas e recebi de volta duas maquetes mostrando o que deveria ser feito.

Além de mandar os croquis do mobiliário, ele também propôs fazendas para cortinas e estofados. Satisfeita com o resultado, fui ao Rio comprar os tecidos e, em busca de melhores preços, percorri, de ponta a ponta, a Senhor dos Passos, rua onde esse tipo de material é bem mais em conta. Terminadas as compras, de tão exausta e nervosa por não conseguir um táxi, sentei no meio-fio e chorei. Depois de muitas lágrimas, surgiu um carro disponível e, sobraçando parte dos embrulhos, feliz por ter cumprido a missão, achei-me uma vencedora.

O mobiliário desenhado pelo decorador foi executado no Rio por uma senhora chamada Nair, dona de uma casa de móveis. Tudo ficou tal qual os croquis e, muito importante, por uma quantia bem razoável. Com cortinas, sofás e móveis colocados em seus lugares, tornou-se evidente a falta de objetos de decoração. Impossibilitada de gastar mais dinheiro, fui ao Museu do Solar Monjardim em Jucutuquara, que estava fechado na época, e tomei emprestados tinteiros e castiçais de prata, lampiões de opalina, compoteiras e jarras de cristal, imagens de santos barrocos e vários outros enfeites. Sugeri e assinei uma listagem dos itens retirados para evitar qualquer dúvida sobre o paradeiro dos mesmos. O palácio ficou lindo. Uma semana antes de Carlos deixar o governo, eu voltei ao museu e devolvi tudo o que lhe pertencia junto com a correspondente relação de peças. Durante os anos de empréstimo, supervisionei limpeza de todas elas, apavorada de que alguma se quebrasse.

Foi no segundo mandato de Carlos que me tornei Presidente da LBA (Legião Brasileira de Assistência) do estado, cumprindo horário como qualquer funcionário. Entrava às 14 horas e saía no final do expediente. O cargo era sem remuneração, mas eu tinha total liberdade para contratar meus auxiliares. Para a área de saúde, consegui o Dr. Thomas Tomasi, um médico maravilhoso e bastante dedicado. Procurei pessoas competentes que me ajudassem na difícil tarefa de administrar uma instituição tão importante. Com elas, fundei casas para crianças, assisti famílias carentes e encaminhei meninos de rua para um abrigo que construímos em Cariacica. Lá eles viviam em regime semi-aberto e frequentavam uma escola local. Cuidamos de aproximadamente 50 jovens dos quais somente um voltou à vida de antes. Um dos rapazes chegou a casar-se com uma assistente social da entidade que, por coincidência, era sobrinha de Bio.

Além do trabalho na LBA, eu promovia chás para arrecadar fundos destinados a diversas associações; contatava artista do Rio e de São Paulo para shows beneficentes e encabeçava campanhas para auxiliar hospitais. Dessas, a maior foi a Campanha do Milhão em favor do hospital infantil.

Minhas obrigações como primeira-dama mantinham-me bastante ocupada, mas sempre havia tempo para as velhas amigas. A vida familiar corria tranquila; as meninas estavam casadas e morando no Rio; Carlos Fernando, na escola; e eu lidando muito bem com a pressão de ser mulher de governador.

Todas as noites, eu consultava a minha agenda para conferir os compromissos do dia seguinte, pois nada podia ficar esquecido. Fazer a triagem de quais solicitações atender e a que eventos comparecer era um trabalho meticuloso, porque sempre havia uma longa lista de pedidos e de convites. Recusar qualquer deles era difícil. Além disso, era preciso atender aos empregados domésticos e cuidar da parte residencial do palácio que necessitava ser dirigida como qualquer outra casa, pois naquela época não havia quem o fizesse. Apesar de tudo isso, eu não abria mão de uma coisa: almoçar com Carlos, todos os dias, era o meu compromisso mais importante.

Minha vida, entretanto, não era só feita de obrigações. Havia momentos prazerosos partilhados com os familiares e com os amigos. Havia também tempo para leitura, um dos meus passatempos favoritos. Como o palácio não possuía biblioteca — lá só havia um livro: A Dama de Espadas, folhetim rocambolesco, feito de cetim —, eu pedia romances emprestados a Waldemar Mendes, deputado amigo de Carlos e dono de uma boa coleção de títulos.

Nosso dia-a-dia em palácio só se modificava quando recebíamos visitantes ilustres tais como governadores — Tancredo Neves, inclusive — e embaixadores estrangeiros. Hospedamos até dois presidentes: Gaspar Dutra e João Goulart.

Gaspar Dutra era um homem muito interessante e ficou conosco por vários dias. Ao contrário das piadas em voga, ele era bastante inteligente e sempre com ótimas respostas. Numa conversa eu lhe disse: "Presidente, os seus retratos não lhe fazem justiça." Eu estava sendo sincera: o homem possuía um encanto não mostrado nas fotos. Ele me respondeu: "A senhora já imaginou, dona Maria, o desastre que foi o meu retrato e o do belo brigadeiro Eduardo Gomes estampados, lado a lado, durante a campanha eleitoral?" O presidente tinha razão. O Brigadeiro — como seu adversário era sempre referido — era um homem bonito e de porte atlético, características que lhe haviam granjeado uma legião de votos, principalmente os femininos. Antes das eleições, pairara no ar um clima de Já ganhou, mas as urnas decidiram outra coisa.

João Goulart também foi bastante simpático conosco. Ele e sua bela Maria Tereza gostavam de Bossa Nova e se deram muito bem com Carlos Fernando, que adorava tocar violão. Os três entravam, madrugada adentro, numa cantoria interminável. Um casal muito agradável.

Eu sempre presenteei as personalidades visitantes com lembranças significativas e de boa qualidade, mas, infelizmente, dei, à mulher do embaixador dos Estados Unidos, alguns pedaços de vidro. Como ela era uma senhora muito fina e elegante, achei apropriado oferecer-lhe pedras semipreciosas. Aconselharam-me a procurar um negociante chamado Raul, conhecido à boca pequena, como Raul Pé de Piano. Sem saber dessa alcunha pouco recomendável, comprei, com ele, algumas pedras por um preço bem caro. Só muito depois, soube que tinha sido enganada pelo tratante. Espero que a gentil embaixatriz jamais tenha descoberto a velhacaria da qual fomos vítimas.

Como governador, Carlos não fez viagens internacionais. Estas só aconteceram quando no Senado. No Espírito Santo, nós nos limitávamos a viajar pelo interior, geralmente para inaugurações. A exceção foi uma ida ao Rio para uma audiência com um ministro. Hospedamo-nos no Serrador, um hotel com preços razoáveis, pois Carlos não admitia gastos supérfluos com o dinheiro público. Por vários dias, ele tentou, sem sucesso, avistar-se com o importante personagem. Então, eu tive uma ideia: "Quer falar com o homem? Dê-me o telefone." Com a minha voz mais simpática, pedi à secretária que me passasse o fulano e, como ele tinha fama de mulherengo, chamei-o pelo nome, fazendo-a crer que éramos velhos conhecidos. "Quem quer falar com ele?" Dei-lhe a primeira resposta que me ocorreu, sabendo muito bem que um nome feminino não causaria espécie a nenhum dos dois. Segundos depois, a secretária informou: "Ele já vai atende-lá". Ouço uma voz masculina: "Alô?!" Passei o telefone para Carlos que, muito satisfeito com a minha esperteza, imediatamente iniciou o assunto de seu interesse. Nós éramos companheiros. Nós nos ajudávamos. Era muito bom! Era muito bom!

Foi também nessa época que o governador passou a frequentar a casa de férias, na Praia da Costa, em Vila Velha, onde vivemos dias memoráveis com pescarias, banhos de mar e reuniões de família. Lembro-me muito bem de um festejo junino, quando Raul, o marido de Bio, resolveu fazer um enorme balão colorido que lhe custou dois dias inteiros de muito trabalho. Nós outros palpitávamos e esperávamos. Na hora de soltar a maravilha, todos colaboraram segundo as suas habilidades: o mais ágil subiu no telhado para segurá-la pelo bico; outros, empoleirados a meia altura, esticavam-lhe os gomos, e quem ficou no chão tratou de ser útil de alguma forma, colocando a bucha, acendendo o fogo, abanando a boca da engenhoca, ou simplesmente gritando para criar o clima de empolgação tão importante nesses momentos. Justo nessa hora, Darcy — quem mais? —, com provável nostalgia das peraltices da infância, joga, no meio da roda que se formara em volta do balão, uma dessas bombas típicas das festas dos santos. Alguém grita: "É uma cabeça de negro!"Foi um deus-nos-acuda. A cabeça-de-negro costuma causar ferimentos graves. Todos corremos para longe do perigo. Quem segurava a ponta, quem puxava os gomos, quem abanava o fogo e quem apenas gritava de alegria tratou de salvar-se. O balão abandonado tombou, murchou e pegou fogo. A esperada explosão não aconteceu; a bomba apenas assobiou, chiou, fez puft e apagou. Não era a temida cabeça-de-negro e sim uma bombinha de nada, coisa insignificante que nem a menino assusta. Tudo não passou de malandragem. Quase matamos Darcy, o espírito de porco que instalou o pânico e tumultuou a noite tão esperada.

Entre os dois mandatos no governo do Espírito Santo, Carlos ocupou a Secretária de Agricultura e se ausentava por dias seguidos, viajando pelo interior para conhecer os problemas de sua pasta. Era Jacy quem, então, me fazia companhia, já que eu detestava dormir sozinha. Mas em 1939 ou 40, não me lembro o ano, Carlos foi demitido, de repente, enquanto estava no Rio a serviço. Seu irmão, Fernando Lindenberg, advogado muito bem sucedido, ofereceu-lhe trabalho em seu escritório, passando-lhe vários processos e inventários. Tornei-me secretária de Carlos e, para melhor executar a função, cursei datilografia. Possuo até diploma. Para meu marido, eu trabalhava de graça, mas, para Fernando, cobrava por página.

Dom Helvécio era muito amigo do presidente Getúlio Vargas e conseguiu que Carlos fosse nomeado para a Presidência da Junta de Conciliação do Trabalho, recém-formada em Vitória. O emprego no escritório de Fernando terminou e, com ele, minha função de secretária-datilógrafa. Ficou-me um profundo respeito pelas pessoas que labutam para ganhar a vida.

Carlos foi senador por duas legislaturas e, na segunda, tornou-se vice-presidente do Senado. Ao deixar o Congresso, foi nomeado presidente da Banestes Seguros, cargo que exerceu por dois períodos consecutivos. Em seguida, foi para A Gazeta onde permaneceu, como presidente, até adoecer.

 

Coordenação geral e pesquisa: Nietta Lindenberg Monte
Texto: Lia Neiva
Transcrição de fitas: Líris Ramos
Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros
Editoração Eletrônica: Shan, Gustavo Senna e Renata Machado
Fotos: Arquivo de família
Tratamento das fotos: Luiz Fernando Martinho
Fonte: Parabéns pra você – texto: Lia Neiva, Vitória/ES, 2008
Autora: Maria Lindenberg
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

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