Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Fonte Grande, Identidades - Por Lélio Rodrigues

Rua Sete vista da Fonte Grande - 1945

Para ele, foi uma paisagem vivenciada, desde os seis e por doze anos, década de 40, no sopé do morro de toponímia imprecisa: chácara do Catete, escadaria Gianordoli, final da rua do Vintém ou logo abaixo da casa dos Rabelo. No conjunto, Fonte Grande ao centro e ladeada pelos morros do Moscoso e da Piedade, o verde circundava Vitória, com a baía completando, a jusante, essa delimitação redutora. Tudo o mais eram caminhos estreitos para bairros desvinculados da memória cotidiana.

Vitória mesma se estendia do Colégio Estadual, que derivou para a filosofia, ao Politeama, que derivou para a porno-chanchada. A praça Costa Pereira era, de longe, o referencial mais importante, e dela se alongaram os acessos da Sete de Setembro, com a linha do bonde, e da Graciano Neves, ainda em barro e lama. Automóveis eram raridade: Renato Pacheco teve um, azul claro, para o circuito das aulas; o leite matinal chegava, anunciado por buzinadas, em carrocinha de burro. A rua Sete era a preferida para o futebol. Pela Graciano desciam os blocos da Fonte Grande e da Mocidade, e retornavam apagados ou vitoriosos e confiantes.

Quase todos os domingos e quase um rito, pai, filhos e vasilhame subiam a Fonte Grande, galgando pedras e trilhas, para renovar um suprimento de água mais pura. A fonte era abundante e protegida, vinha logo depois de um claro de jaqueiras majestosas, talvez a não mais de um terço da encosta do morro. Já era cansativo, mas os Lucas, que moravam além do tope, já na outra vertente, faziam diariamente o percurso total.

Ao fim dos estudos e da mocidade, o espaço vivenciado incorpora a noite: o passeio de barco na baía, os bancos da praça, o bar que sobrevive ao lado da ESCELSA. Rodas de ópera, letras e angústias – Hormízio e Cacciari, Rocio e Dalmo. Na volta para casa, as duas ruas estavam vazias e tranquilas, e a grande sombra do morro sempre foi acolhedora, para reconciliá-lo com os desafios e as ilusões.

Uma ruptura ocorre, então, nas lembranças da juventude, até que ele volte para o novo ciclo do trabalho. Em toda a década de 60, a Fonte Grande se manteve apenas como um cenário, apenas contemplado, nunca mais vivido: o casario ascendente, em brancos predominantes, era logo secundado pela mata, o verde multiforme descontinuado apenas pela cicatriz de um pasto, a meia altura do morro. Mesmo assim, a Fonte Grande informava, permanentemente, o seu endereço, os seus registros, a sua identidade.

Ruptura maior se prolonga, depois, num quase desterro, nas miragens do planalto central, onde coube o transcurso de quase uma geração. Ele retornou, agora mesmo, para cumprir o ciclo da terceira idade. Os bondes se foram de há muito, os automóveis se multiplicaram em demasia, os acessos estão asfaltados, sobre galerias pluviais, as noites se tornaram hostis, e dizem que o centro de Vitória se desloca para outras plagas.

De há muito, também, que todos se foram ou mudaram — amigos e vizinhos, parentes e conhecidos. Os Lucas, Eraldo e Geraldo, foram ceifados, pelo automóvel e pelo crime. O desarraigamento é inevitável, no contexto microssocial, e resta apenas a paisagem.

O casario subiu algo mais pela encosta, terá sido contido — não faz muita diferença. A mata se afigura mais rarefeita; no pasto, eventual expansão foi mínima — diferenças tampouco notáveis. Mas agora, um desmatamento se estende retilíneo do pasto ao tope, onde a feiura se instala sob a forma de uma dezena de mega-torres de TV.

Assim é ou se parece a Fonte Grande, vista de frente, desde o centro, e pior ainda quando vista lateralmente, desde as bandas do nascente. Assim como os retratos dos procurados pela justiça, onde o perfil costuma revelar melhor os traços das deformações. Tanto na forma como nos efeitos, a associação imediata é com as "espinhas de peixe" de Bye-bye Brasil, o filme, que expulsam o teatro mambembe na busca de acolhida, de público e retorno, aonde ainda disponíveis.

Estes cadernos da PMV talvez localizem ainda alguma disponibilidade pontual, conquanto, majoritariamente, as pessoas se voltem para outro foco de atenção. A despeito das obras do homem e da dispersão das gentes, a memória de cada um não pode dispensar balizamentos duradouros. A Fonte Grande é o componente central de uma paisagem que perdura, uma geografia que se impõe, embora ressentida, ao antenado e aos desencontros.

Revisitando na Fonte Grande de hoje a Fonte Grande de sempre, ele ainda poderá aprofundar a consciência de onde está, onde sempre esteve, para o reencontro com o que de fato é, ou sempre foi.

 

ESCRITOS DE VITÓRIA — Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.

Prefeito Municipal: Paulo Hartung

Secretário Municipal de Cultura e Turismo: Jorge Alencar

Diretor do Departamento de Cultura: Rogerio Borges

Coordenadora do Projeto: Silvia Helena Selvátici

Conselho Editorial: Álvaro José Silva

José Valporto Tatagiba

Maria Helena Hees Alves

Renato Pacheco

Bibliotecárias

Lígia Maria Mello Nagato

Cybelle Maria Moreira Pinheiro

Elizete Terezinha Caser Rocha

Revisão: Reinaldo Santos Neves , Miguel Marvilla

Capa: Pedra dos Olhos, (foto de Carlos Antolini) 

Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer  

Impressão: Gráfica Ita

Fonte: Escritos de Vitória 12 – Paisagem - Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV
Autor do texto: Lélio Rodrigues
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2019

Literatura e Crônicas

Bodas de Prata de Cinira Benezath Furtado

Bodas de Prata de Cinira Benezath Furtado

Conhecemos Cinira Benezath Furtado quando ela andava, ainda menina, estudando, pela Escola Normal

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Anos de 1567 e 1569 - Por Basílio Daemon

Ainda outra aldeia em Reritiba, hoje Benevente, na rampa de uma montanha e ao redor dela com outra principiada ainda no lugar chamado Orobó, a dez quilômetros pouco mais ou menos do mar

Ver Artigo
Ontem, Hoje e Amanhã - Por José Carlos Corrêa

Gostávamos muito dali pois o Parque na época era o melhor lugar da cidade. Lá morava a Lurdinha, melhor amiga de Dodora, no Edifício Moscoso

Ver Artigo
Quarta-feira no Parque - Por Maria Helena Hees Alves

Admiro as peças antigas que o Parque ainda guarda: um sinaleiro apagado, um chafariz sem água e um relógio parado

Ver Artigo
Fumaça nos meus olhos - Por Marzia Figueira

A jovem de longo vestido branco, em renda e tule,...correm os anos dourados, suave é a noite, o salão é do Clube Vitória e a debutante sou eu...

Ver Artigo
O Fim - Por Maria Amélia Dalvi

A imagem mais recorrente quando eu pensava nele era: nós dois prendendo as bicicletas com correntes nas calçadas da Rua Sete

Ver Artigo