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Hermógenes - Comunista e vereador mais votado

Hermógenes Lima Fonseca - Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo, 2013

Maria Angelica Fonseca conta que seu pai começou a se interessar por assuntos políticos ainda jovem, quando trabalhava na Western Telegraph. Naquela época, ele também tinha a incumbência de todos os dias levar almoço para o seu padrasto, que trabalhava na Estiva. “Aí, os companheiros de vovô pediam para papai contar quais eram as últimas notícias, pois ele, embora jovem, era bastante informado dos assuntos da imprensa. Então, contando e comentando as notícias com desenvoltura, os trabalhadores foram lhe sugerindo a candidatar-se a vereador”. Segundo Angelica, dessa forma Hermógenes foi se entrosando com os estivadores, trabalhadores das Docas e com o pessoal do Sindicato dos Arrumadores.

O historiador Yêdo Alberto Menezes Freire apurou que, de fato, assim que começou a trabalhar na Western Telegraph, por volta dos 15 anos, e tendo iniciado o contato com os portuários, Hermógenes foi recrutado pelo Partido Comunista Basileiro (PCB), atendendo convite de Clementino Santiago. “Vale ressaltar que o ambiente no Porto de Vitória e Vila Velha era frequentado por Hermógenes, pois seu padrasto era estivador e sua entrada no PCB ocorreu no início da década de 1930. Com a implantação do Estado Novo, Hermógenes e seus camaradas sofreram perseguições, sendo presos e acusados pelo Estado repressor”.

Além de atuar na seção capixaba do PCB, Hermógenes foi dirigente nacional do Partido, condição em que viajou para a União Soviética, Portugal, França e Espanha.

Com a aproximação do pleito municipal de 1947, Edgar Castro, secretário do PR (Partido Republicano), convidou Hermógenes para disputar utilizando a sigla do seu partido. “Esse convite ocorreu devido a vários fatores, entre os quais podemos citar: 1 – A atuação de Hermógenes junto às camadas populares de Vitória; 2 – Sua participação nos movimentos organizados como os sindicatos que ajudou a construir, e a assistência no tocante à contabilidade dessas organizações; 3 – sua participação na vida cultural da cidade, pois ajudou a construir as organizações carnavalescas na capital; somando a estes aspectos, destacamos ainda a política do Partido Comunista que determinava que o militante tinha que ter um vínculo direto com as massas”, pontua Menezes Freire.

Menezes Freire observa ainda que, após o convite e depois de ser consultado, o PCB, que se encontrava na iminência de se tornar ilegal, dá o aval e Hermógenes garante sua candidatura. Observa ainda que esta manobra ocorre a apenas duas semanas do pleito.

Na entrevista a Freire, Hermógenes detalhou como foi a campanha. Segundo ele, com a sua presença, eram realizados comícios-relâmpago e panfletagens na entrada de fábricas. Além disso, na hora do almoço, o candidato marcava presença junto aos trabalhadores. Visitava, principalmente, os da área portuária, para tratar de assuntos políticos e também reforçar sua propaganda. Os comícios aconteciam à noite em diversos bairros e, “devido a seu bom relacionamento com comerciantes e empresários, recebia ajuda para colocar em ação sua campanha”.   O autor destaca que a “garimpagem” de votos se deu democraticamente, sem a intervenção da polícia.

Segundo Freire, o quadro político de então “se dividia em duas famílias tradicionais: o ‘Venha a mim’ – termo utilizado para denominar a influência dos Monjardins, que tinham uma área demarcada do Mercado da Capixaba, estendendo-se a Jucutuquara; e os ‘Agarra-me’ – denominação dada à família Aguirre, que tinha influência nas áreas do Morro do Saldanha até a Vila Rubim; sobrando para Hermógenes apenas o Morro da Fonte Grande, onde residia”.

Sua candidatura foi sustentada por sindicatos, pela União das Batucadas e Escolas de Samba, concentrada na Fonte Grande, pelos moradores daquele bairro e por parcela das classes média e alta da sociedade vitoriense, com as quais mantinha bom relacionamento.

“O discurso do candidato seguia as diretrizes do Partido Comunista, que determinava o tom radical da campanha. Seus pronunciamentos tinham como ponto central a questão nacional, batendo de frente no governo Dutra, citado como marionete dos norte-americanos pelo candidato, que defendia a soberania nacional”, observa Freire.

As eleições ocorreram normalmente. Confirmando sua grande popularidade, aos 28 anos de idade Hermógenes foi eleito o vereador mais votado da História da Câmara Municipal de Vitória.  Segundo destaca Menezes Freire, o Espírito Santo tinha 101.342 eleitores, dos quais 23.146 em Vitória. No pleito de novembro de 1947, dos 7.161 votos válidos, Hermógenes teve 749, ou 10,45% dos votos na cidade de Vitória, tornando-se dessa forma um “fenômeno eleitoral”, ao eleger 50% do parlamento municipal com seus votos de legenda.

O quadro dos mais votados naquelas eleições, segundo a mesma fonte, era o seguinte: Hermógenes Lima Fonseca (PR) – 749 votos, Oscar Paula da Silva (PTB) – 434 votos, Altamir Farias (PTB) – 260 votos, Ithobal Campos (UDN) – 206 votos, Otacílio Lomba (UDN) – 190 votos. Eleitos com votos de Hermógenes: Ayrton Machado (PR), Oscar Rodrigues (PR), Alceu Aleixo (PR), Segipense Pena e Ethereldes Santos (PR). A posse aconteceu no dia 2 de janeiro de 1948.

Como vereador, Hermógenes teve uma atuação destacada. Além de seguir a orientação do Partido Comunista em suas causas nacionais, também desenvolvia o mandato com autonomia, defendendo o bem estar da população. Nesse sentido, teve aprovados requerimentos, como o de apoio legislativo ao projeto de lei de autoria do deputado Jefferson de Aguiar para encampação da Companhia Central Brasileira de Força Elétrica e indicação de sua autoria para calçamento do trecho entre o mercado da Vila Rubim e a Ponte Florentino Ávidos.

Teve também aprovado um pedido lavrado nos seguintes termos: “Tendo em vista o estado precário da subida do Morro da Fonte Grande, no final da Rua Graciano Neves, em frente à Rua Maria Saraiva, já causando acidentes, pois senhoras e crianças descem com dificuldade e risco de caírem, o vereador abaixo assinado requer, ouvida a Casa, providências do poder executivo para melhoria da referida subida mandando construir uma rampa ou uma escada melhor naquele local”. Solicitou informações sobre regulamento dos serviços de parques e jardins para embasamento de projeto e pediu informação sobre contrato entre a Prefeitura e a empresa de ônibus que fazia o serviço de transporte entre o centro da cidade e os bairros Maruípe e Mulembá. Hermógenes também contribuiu com ações no legislativo para a valorização da cultura popular.

Menezes Freire destaca que a Prefeitura executou todos os projetos de lei, requerimentos e solicitações apresentados por Hermógenes, que foi membro da Comissão de Finanças e primeiro secretário da Mesa Diretora.

Em entrevista concedida ao jornalista e amigo Rogério Medeiros. Na entrevista intitulada “A breve passagem do PCB pelo parlamento capixaba”, da série Partidos do ES (Século Diário), Hermógenes conta como foi sua estreia no legislativo: “Logo na sessão solene de instalação da Câmara eu fiz um pronunciamento, na presença, inclusive, de autoridades, protestando contra a iminente cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas e assegurei que lamentava profundamente não ter sido eleito pela legenda do Partido Comunista Brasileiro. Mas, como se tratava de uma sessão solene, isso não ficou registrado em ata. Na sessão seguinte, eu fui convidado pelo vereador Pedro Maia de Carvalho a ir à Tribuna retratar-me. Eu respondi que estava de acordo com a constituição que nos dava liberdade para credos políticos e religiosos. Resultou aí um início de cassação de mandato mas que não foi levado em consideração, pois foi até arquivado depois pelo Tribunal Regional Eleitoral”.

A militância política custou caro a Hermógenes. Com o golpe militar de 1964, ele acabou preso como subversivo, juntamente com outros líderes de esquerda, como o médico Aldemar de Oliveira Neves, o ex-deputado Benjamim Campos e Clementino Santiago, entre outros. A lista de procurados era composta por 40 nomes, incluindo toda a direção do Partido Comunista, dirigentes sindicais, estudantes e intelectuais. Presos políticos, entre os quais, Hermógenes, relataram terem sofrido tortura nas prisões. Preso no 3º Batalhão de Caçadores (hoje 38º BI), em Vila Velha, Hermógenes escreveu para a filha Luiza uma carta sensível e incrivelmente bem humorada para as condições em que estava.  Note-se ainda nesse documento, além do testemunho de como os presos eram tratados, os sinais de que Hermógenes já se desencantava da militância política. Segue transcrita a carta datilografada.

 

Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo - Hermógenes Lima Fonseca, 2013
Texto: Bartolomeu Boeno de Freitas
Coordenação: Antônio de Pádua Gurgel/ 27-9864-3566 
Onde comprar o livro: Editora Pro Texto - E-mail: pro_texto@hotmail.com - fone: (27) 3225-9400



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