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SALAMÊ-MINGUÊ

Meninas Normalistas do Carmo - Acervo: Walter de Aguiar Filho

Salamê-Minguê um sorvete colore, sou sorteado para falar de Vitória num picolé da memória. Lembram-se do picolê? Formava-se a roda e sorteava-se quem sobrava para pegar os demais. Os demais iam saindo na contagem escondida dos versos do picolê. Salemê-minguê, um sorvete colore, era dessas falas de sorteio. Estou pronto, pois, para correr atrás das lembranças.

Meu alvo é um fugidio e incerto ano 50. Por que 50? Invento motivos, dois reais e um pictórico: vivia-se a metade do século, Vitória tinha cinqüenta mil habitantes e o porvir, bem, o porvir, parecia dourado. Julgo que dei ponderáveis razões.

Neste tempo Vitória não tinha em torno. Aliás, nem esta expressão, significando arredor, criada pelos arquitetos, reconhecidamente seres criativos. Vitória ainda era uma ilha.

Não existia a Grande Vitória, mas a Pequena Vitória. A Serra estava lá na Serra, distante, medievalmente contida à sombra do Mestre Álvaro. Vila Velha, no sopé do Convento, pendia mais para Vasco Coutinho do que para outro Vasco. Cariacica por pouco não passava apenas de nome de cachaça, da boa, e Viana teimava em guardar resquícios de sertão do Santo Agostinho, aonde se ia de trem. Dirão os contemporâneos e os extemporâneos que eu exagero. Mas Vitória era mais ou menos assim, em um ano qualquer, na metade do século.

Com a leveza de sua reduzida população, a ilha ainda ficava alguns centímetros acima do nível do mar. Nas ruas da cidade, as saias plissadas e azul-marinho das normalistas – porque havia as normalistas – eram assediadas pelas golfadas eróticas do vento nordeste ou do encrespado vendo sul. As alunas do Carmo – porque havia o Carmo – galgavam, em uniformes elegantes, a escadaria do colégio, na praça Afonso Schwab, que não era Praça Afonso Schwab. Na praça Costa Pereira, os bondes – porque havia bondes – abasteciam-se de passageiros para Santo Antônio e Praia do Canto, os extremos da cidade. Os poucos automóveis que contornavam a praça paravam, respeitosos – porque havia respeito – dando vez às pessoas que nesses bondes entravam.

Pelo beco da Miséria – porque havia o beco da Miséria – ao lado do Banco Hypothecário e Agrícola de Minas Gerais – que também havia – passava-se da Costa Pereira para a Jerônimo Monteiro. A avenida começava em frente ao Cine Glória e estendia-se para a Praça Oito, onde se formava a opinião pública e impublicável da cidade. Ali, como instituição da terra, também se cultivava a enxova (gozação) – porque então havia e enxova, tradicionalmente alegre.

Para o lado oposto, além do Glória, esticava-se a Avenida Capixaba, ou simplesmente a Capixaba, com seus postes centrais e as luminárias que neles havia. Ao lado da Avenida, a Esplanada da Capixaba virava aterro, feito de areia – areia, areia, areia do fundo do mar.

O Parque Moscoso era parque mesmo, aberto ao povo por todos os flancos, por onde de transitava tranquilamente a qualquer hora do dia ou da noite. As Cinco Pontes, única via de acesso ao continente, apoiava-se na ilha do Príncipe, que se apoiava na fama de Maria Tomba-Homem. Lembram-se?

Em Caratoíra, encastelavam-se a Casa Branca e a Verde, zona dos bordéis, com auroras gordas e magérrimas. Um pouco adiante, na ilha das Caieiras, chegava-se por estradinha de barro, que fazia o contorno de Vitória, em cenário agreste.

Na valorosa vila de Jucutuquara, o brio de reduto aguerrido sobrepairava no ar como nuvem diáfana, envolvendo o Frei Leopardi. Na praia do Canto – que já se distinguia da Comprida – as castanheiras ornavam a orla, em forma de cais, em cujas pedras as marés impregnavam o lodo e a maresia. As castanheiras e a maresia sobrevivem nas crônicas de Carmélia, a cronista da ilha de delícias.

Camburi era Camburi apenas, nem Jardim da Penha, nem Jardim Camburi, nem Mata da Praia. A mata que nela havia conservava sóbria nobreza e ameno frescor, sem pretensões de Mata Atlântica.  

Em Camburi, na areia da praia ou nos recortes da mata, cabiam a lua e os namorados para afagos de beira-mar. Sim, porque não havia motéis em Vitória, nem próximos, nem distantes, nem em canto algum do seu em torno.

Nos anos 50 ia-se de Hollywood, no cine Glória, à Europa, no Trianon. E se ia de bonde. Lia-se Hemingway, Faulkner, Steinbeck, e incensava-se a belle époque parisiense.

A vida era simples, a cidade metódica. Tomava-se cafezinho na Praça 8 e, no Café Avenida, em mesas com tampos de mármore. Traçava-se a canoinha de p,ao e queijo com médias de café com leite no Bar Santos. O Sagres era hotel e bar; o Tabajara, só hotel. O Mar e Terra servia bifes com gosto de madrugada. A faculdade de Direito formava bacharéis, expostos em retratos três por quatro nas molduras envernizadas. O Rio Branco enfrentava o Vitória; o Álvares topava o Saldanha da Gama, nas regatas domingueiras. Harry e Arruela sagraram-se campeões em Valdívia e receberam louros em Vitória.

A Vida Capixaba, composta à mão, linha por linha, alinhava em suas páginas mensais os príncipes e os poetas da literatura capixaba. Otinho, o poeta frenético, brandia versos axaltados com gestos na arcádia das ruas. Carlinhos Oliveira, o cronista precoce, afiava o estilo nos jornais da terra antes de se largar pára o Rio de Janeiro com o talento e a coragem.

Verdureiros apregoavam verduras, bananas e mexericas pelas ruas dos bairros e a Sorveteria Pingüim mantinha-se ponto de reunião da elite vitoriense, como dizia o anúncio. As farmácias eram poucas, as óticas, duas no máximo, uma para cada olho. Pra que mais se o céu era uma bolha de azul puríssimo, sem grãos de ferrugem, limpo de odores tecnológicos? Até porque, quando o tempo mudava, os morros vestiam capotes de nuvem e todos podiam se agasalhar da chuva que vinha.

No céu puríssimo, as ondas hertzianas transmitiam a Voz de Canaã, da PRI-9, a Rádio Espírito Santo. Dançava-se ao som de Glenn Miller e de Xavier Cugat, prezavam-se os boleros de Gregório Barrios e os tangos de Carlos Gardel, adiós muchachos compañeros de mi vida, adiós.

Jogava-se sinuca, jogava-se; jogava-se no bicho, jogava-se. Os de menor jogavam bolas de gide; os de maior, palitos de bolso. Ainda se contavam cirandas, ó bela Lilia, nas ruas de paralelepípedos. Não Havia falta do que fazer.

Quando chegava o carnaval, no Álvares ou no Vitória, o aristocrático do Parque Moscoso, bairro que se tinha como tal. Na Semana Santa, na procissão do encontro, Verônica subia na cadeira e cantava, mostrando a face torturada do Cristo no lenço luminoso. O ano letivo fluía e a faculdade de Direito continuava formando bacharéis. No cais do porto, esteiras noturnas rolavam torrentes de ferro para os porões dos navios, rebocadores grifavam a noite com apitos sonâmbulos.

Vitória bastava-se a si mesma, digna e mansa, preparando com certa relutância e pouco afinco o futuro que aí está. Hoje, revejo-a a distância: um sorvete colore.

 

Autor: Luiz Guilherme Santos Neves
Fonte: Escritos de Vitória, 1- Crônicas, Vitória ES, 1993
Compilação: Walter de Aguiar Filho, Julho/2011



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