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Juparanã – Por Maria Stella de Novaes

Lagoa Juparanã, Linhares

Cenário admirável da Terra Capixaba, a Lagoa Juparanã ostenta a famosa e histórica Ilha do Imperador, ponto naturalmente preferido, para excursões e piqueniques. O locativo recorda a visita de S. M. o Imperador Sr. Dom Pedro II, em 1860.

Dizem-na lagoa encantada. Reconhecemos, porém, que sua história daria para um livro interessante e instrutivo.

De par com outros recantos belos e saudáveis do Espírito Santo, a Juparanã está saturada de fantasia, criada pela imaginação do povo, e que se tem perpetuado, através das gerações. Afirma-se, por exemplo, que foi domínio de fadas e anões: sofreu posteriormente investidas de corsários misteriosos, que pretendiam apossar-se das riquezas naturais do Rio Doce. O certo, porém, é que, nas suas matas, onde Rubim julgou existir o Paraíso Terrestre, matas "que a mão do homem poderia explorar eternamente", viveram os botocudos, indígenas perigosos, cujos descendentes podemos reconhecer, ainda, na sua população humilde.

— Dentre as histórias fantásticas do rio Doce, destacamos a seguinte, que nos ensina a formação da Lagoa Juparanã: — Antes, muito antes da posse da Capitania, pelo seu primeiro donatário, naus aventureiras subiram o extenso caudal, até a maior largura do seu leito.

Numa das margens do grande Uatu, certo pajé, sua tribo, seus feiticeiros e oráculos haviam erguido seus quijemes, tornando organizada e bem defendida a sua taba. Sobravam-lhe a caça e os frutos silvestres, o mel e as fibras necessárias ao seu artesanato que, posteriormente, os portugueses desprezaram.

Viviam felizes, na plenitude da vida primitiva, quando, certo dia, o som de remadas fortes chegou à percepção das sentinelas, que se revezavam, até alguns quilômetros, para a foz e as Cabeceiras. Um silvo, seguido de uma flecha emplumada, alcançou o reduto íncola. Retumbou, logo, a imbuia, para congregar os guerreiros, enquanto o oráculo invocava a Tupã e os feiticeiros preparavam a fogueira, onde queimaria o pataqui e os amuletos revigorantes do ânimo geral.

Calculavam todos o festim da vitória, com a carne fresca das vítimas.

Aproximam-se as embarcações.

Ao ataque das flechas, partido, às ocultas do seio da folhagem, responde o troar das peças de bordo.

Aturdido, o conjunto silvícola, perante aquela novidade, pois jamais, no seu domínio, conhecera a arte bélica do homem branco, deixa que a fileira majestosa das galeras penetre, livre, naquelas águas imensas, verdadeiro mar insosso, no curso de um rio. Aprecia, aturdido e embevecido, a evolução graciosa dos barcos, em todas as direções. Parecem livres, num sítio encantado, e salvos da instintiva e naturalmente justa defesa de algum habitante.

No silêncio da noite, porém, quando recolhidos ao repouso os comandantes e subalternos, começam a arder fogueiras, nas margens. Formam regular e terrível cordão ígneo, intransponível, ao passo que nuvens de flechas envenenadas obscurecem o espaço e o clamor do índio ergue-se a Tupã e aos seres misteriosos, que povoavam o lugar, antes do domínio do homem!...

Chove...

Raios ziguezagueiam, na escuridão do espaço.

Furioso, o Uatu encrespa suas águas, antes tranqüilas. Mas, agora, solapam barrancos e conduzem grosso material, que se deposita de modo a impedir a fuga do invasor.

Em torno de um rochedo, onde o pajé admirava o plenilúnio, adorava a Tepó e ouvia o vaticínio do oráculo, detritos maiores, — folhas, raízes e demais resultados da erosão formaram graciosamente uma ilha, testemunho posterior daquela passagem lendária.

Nas suas pirogas e juncats, e com os seus instrumentos próprios de combate, a horda furiosa ataca o invasor; fura os cascos das embarcações e, na superioridade numérica de seus elementos, realiza impiedoso morticínio, até que, passada a tormenta, ao dealbar da aurora, apenas destroços boiavam, na calma das águas de um grande lago sobre o qual o arco-íris anunciava a Paz e a bênção de Tupã! Decorrido algum tempo, entretanto, luzes apareceram, aqui e ali, na extensão da lagoa, — os fogos-fátuos, inexplicáveis ao homem primitivo.

Seriam os archotes das galeras, que emergiam, para desafiar o poder dos oráculos?

Supersticioso, o índio transmitiu aos pósteros a história encantada e épica da Juparanã, afirmando, que, à meia-noite, se perpetua a memória do combate: — movimentam-se as galeras emersas, como se procurassem, ainda, o inimigo, no refúgio da Ilha, ou das margens. Sua guarnição é garbosa e completa: — almirantes, oficiais e marinheiros, ricamente uniformizados, erguem luminárias, cujo fulgor domina o espaço.

Ouve-se, então, o hino de suas terras, hino de saudade e amor, que se esvai, até extinguir-se, quando a orquestra nemoral dos pássaros o suplanta e destrói o encantamento da lagoa.

A Juparanã reaparece maravilhosamente bela e incomparável!

Uatu — O Rio Doce, na linguagem dos botocudos.

Juncat — Canoa de casca de árvore. Idem.

Pataqui — Resina de pau. Idem.

Tepó — Sol. Idem.

Quijemes — Ranchos. Idem.

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2016

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