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A tristeza do Urubu – Por Maria Stella de Novaes

Urubu

Faltavam água e esgotos, em princípios deste Século, na Cidade da Vitória, melhoramentos introduzidos, ali, no Governo do Presidente Jerônimo de Sousa Monteiro (1908-1912). Eram, por isso, os urubus numerosos, preciosos e utilíssimos. Contribuíam para a limpeza urbana, apesar de imprimirem, às vezes, na paisagem, uma nota de tristeza.

Certa ocasião, a Sra. Maria dos Cágados, residente nos Pelames, e dedicada à criação dos mencionados quelônios, relatou-nos o motivo da tristeza dos urubus: — Na grande família dessas aves, sempre emplumadas de preto, nascera um lindo rebento, portador de uma pena branca, frisada e bela, no peito. Cresceu, envolto no carinho de todos, tornou-se vaidoso do seu privilégio. Mesmo porque foi eleito — o representante máximo do seu clã. Empavonava-se, quando passava pelas outras aves. Julgava-se um rei.

Um dia, cantava deliciosamente um sabiá, num galho de sapucaia florida, árvore que servia igualmente de pouso ao urubu da pena branca, já de todos conhecido, quando passou um bando de urubus, em demanda a certo alimento. Alguns avistaram o seu eleito e julgaram-no fosse o magno cantor. Elogiaram-no: — "Que voz maravilhosa a do real confrade!"

Orgulhoso, o urubu da pena branca ordenou-lhes que fossem depressa convidar a passarada inteira, para deliciar-se com a sua melodia.

Vieram logo sabiás, bem-te-vis, pintassilgos, carriças, canários e muitos outros pássaros da região.

Iniciou o presunçoso o seu roncar, desafinado e ridículo.

Rompeu a assistência alada, em cantoria confusa, verdadeiro gargalhar de ironia, que se elevava, à medida que o "rei" da pena branca mais roncava e se debatia, até que, exausto, arrancou o seu distintivo, para confundir-se com os seus companheiros, então, desconfiado e triste, para sempre, na grande família emplumada.

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

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