Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Kallima

Diná - Autor: Attilio Colnago, Fonte: Escritos de Vitória, Porto-1994

Os guindastes eram como garras de metal suspendidas, rasgando o céu escuro. Os telhados iam e vinham, imensos, içados de correntes, balançando no espaço, misteriosamente desciam dentro dos porões negros. Um ou outro apito como um uivo cortava a madrugada.

O menino metia o rosto entre as grades para espiar o vulto dos navios como massas sombrias fincadas no espelho oleoso da água. O vigia do porto lhe dava uma moeda que juntava com outras para comprar um pãp com café e salame no Cavalo de Aço.

Ali perto, Diná andava pela calçada, entre outros travestis. Com as unhas pintadas de vermelho vivo combinando com o batom, a mini-blusa de malha apertada sobre o short comprado na Vila Rubim.

Vez em quando, um carro parava e alguém sussurrava alguma coisa de dentro. Diná desaparecia, para voltar mais tarde, ajeitando o aplique dos cabelos, retocando a pintura. O menino se enrodilhava, dormitava até que a sirene da rádio-patrulha o acordava. Via Diná falando com os policiais. Um deles tinha dado a Diná uma bala deflagrada para encravar nos saltos dos sapatos em que Diná se equilibrava.

Quando o dia vinha amanhecendo, as luzes do porto se apagando, o menino acompanhava Diná ao quarto da pensão onde se amontoavam os pertences dos dois em bolsas de papelão amassado.

Diná se estirava no estrado, o menino ficava no chão. Era quando Diná falava do marinheiro filipino por quem tinha se apaixonado, mas que nunca o navio voltou.

À tardinha do outro dia, o menino via Diná se movendo debaixo do reflexo amarelado da lâmpada, arrancando os pelos do rosto com pinça, vestindo a faixa ajustada sob o short, disfarçando com pó compacto a cicatriz de cigarro sobre o bico do peito direito.

Tudo recomeçava. Iam para a calçada e os olhos de Diná tinham aquela mancha cinzenta ainda mais triste e mais forte quando iam para a calçada e tinham fome e, às vezes, chovia e o menino tiritava embrulhado num pedaço de cobertor e na rua deserta nenhum carro, nem mesmo a rádio-patrulha passava. Só o barulho surdo de algum navio sendo descarregado no porto e Diná que tossia.

Então, aquela noite, Diná apertou o ombro do menino e apontou o navio que entrava, puxado pelos rebocadores, majestosamente, lentamente e encostava no cais. O navio enorme, sob a lua, com todas as luzes acesas, enquanto Diná apertava o ombro do menino, apontando o navio e rindo e chorando e o rosto de Diná que brilhava extasiado e Diná que dizia: “É ele. É o Kallima de novo atracando”.

Foi assim que o menino aprendeu que os navios têm nome. Como as flores, os cachorros, os gatos, os passarinhos eo jardim das delícias.

 

 Fonte: Escritos de Vitória – Porto,1994
Autora: Bernadette Lyra
Ilustração: Attilio Colnago
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2012

 

 

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Paradise Bar Island Blues

Pois este é o êxtase: os milagres de ver, de ouvir, de tatear, de cheirar, de gustar de você, excelência, leitora vil, avessa do zero até onde é o mil! 

Ver Artigo
O Marrocos

Acabo de saber - mas que castigo, que acaba de fechar meu velho bar!

Ver Artigo
Bares, doces bares amargos da juventude - Por Milson Henriques

O Britz Bar  ficou famoso por estar localizado perto das redações de todos os jornais e logicamente freqüentado pelos jornalistas que viam o sol nascer em suas cadeiras

Ver Artigo
O Bar do David - Por Miguel Depes Tallon

Ao longo dos anos, o Bar do David foi se especializando em frutos do mar e peixe, com o melhor caranguejo 

Ver Artigo
Bares? Eu hein, nem pensar! - Por Marilena Vellozo Soneghet Bergmann

Para as colegiais de recatadas saias (quatro dedos abaixo dos joelhos), os bares eram um lugar cheio de proibições e ambivalências. Tinham algo de sombra e mistério, sedução e... fumaça

Ver Artigo