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O casamento – D. Maria Lindenberg

Maria e Carlos, na época do noivado, no Rio com a Tia Sílvia

Era março de 1934, meu aniversário se aproximava, e eu o aguardava com ansiedade. Morando com tia Sílvia, minha vida era bela e tranquila. Fazer 17 anos transformava-me em uma mulher, e viver no Rio era muito excitante. Minhas amigas de Vitória não tinham sido esquecidas, e a correspondência entre nós se avolumava a cada semana. Eu vivia intensamente o meu conto de fadas e, com toda a razão: um príncipe me beijara. Pela primeira vez, um homem se aproximara de mim daquele jeito. E era Carlos. Aconteceu em um entardecer de fevereiro, no jardim dos Mello Leitão. Aquela sua visita deveria ser como todas as anteriores, mas não foi. Ele me pegou pela mão e saímos a passear pelas aléias, conversando trivialidades, satisfeitos de estarmos juntos. A convivência amadurecera a nossa amizade e a camaradagem. E, assim, conversa vai, conversa vem, sentamos no banco, que rodeava o abacateiro, para apreciar o cair da noite e, pronto, aconteceu: Carlos me deu o maior beijo. O beijo de um homem em uma mulher. Minha cabeça girou, meu coração martelou, e eu imediatamente soube que ele era o meu destino. No dia seguinte, confidenciei a tia Sílvia: "Pode começar a fazer a combinação. "A frase, hoje, soa obscura, mas tinha um sentido claro naquela época: comece o enxoval para o casamento, prepare as camisolas e as roupas íntimas. A participação do compromisso foi saudada com beijos e abraços porque sacramentava um seu desejo, diversas vezes externado, e sempre solenemente ignorado por mim. Minha tia era muito perspicaz e havia notado uma significativa mudança no comportamento de Carlos. Ela avisara: “Maria, ele anda sempre pegando em sua mão, e isso não é atitude de cunhado." Não dei atenção ao comentário, até o dia do beijo. Foi debaixo do abacateiro que percebi o quanto ela estava certa. Carlos recebeu cumprimentos pela escolha, e a corte amorosa teve início na sala da General Glicério. Uma corte convencional, com os apaixonados sempre acompanhados. O meu cunhado Nego, que se comportara tal qual um cupido, sorria de orelha a orelha quando nos encontrava. Passado algum tempo, Carlos veio a Vitória pedir minha mão a mamãe, que ficou encantada. Com o noivado, ganhamos mais liberdade. Nossos irmãos já não apareciam todas as noites, e tia Sílvia e tio Leitão nos deixavam sozinhos na sala de visitas para que nos beijássemos à vontade. E nós aproveitávamos. Trocávamos mais beijos do que frases. Mão na mão. Rostos colados. Eu sempre usando o seu presente de aniversário dado em nome de Quetinha e Lourdica: uma cruz de brilhantes num cordãozinho de platina.

As duas foram passar um fim de semana em casa de tia Sílvia e brincaram muito com os filhos de uma sobrinha dela. Os garotos eram paulistas ricos e se vangloriaram de seus brinquedos caros; elas não se deram por achadas e falaram sobre as mil bonecas, velocípedes e bicicletas penduras no teto de seu quarto, pois o chão já estava repleto de bolas, panelinhas e jogos de armar. Os paulistas estavam boquiabertos com tanta riqueza, e Quetinha e Lourdica, satisfeitíssimas.

Os meses foram passando, e o meu enxoval, preparado com amor e carinho. A casa herdada de papai foi vendida para custeá-lo, e a transação, feita em confiança, pois, sendo menor, não pude assinar a escritura. A venda só se legalizou em dezembro, depois que o casamento me emancipou.

Várias foram as noites nas quais a sala de visitas dos Mello Leitão ficou vazia e as escuras por causa das inúmeras viagens do noivo. Carlos se desdobrava entre o Rio, onde ficava o Congresso, e o Espírito Santo, onde se desenrolava a política que ele representava. Neste período de noivado (e mesmo depois, no primeiro ano de casamento) comunicávamos por meio das inúmeras cartas e telegramas que escrevíamos diariamente. A maioria delas tenho guardadas até hoje.

"Meu querido, hoje, ao contrário do que sempre acontece, e com grande alegria para mim, sua cartinha não atrasou e já está ao meu lado neste instante. Recebi-a agorinha, 1 hora, e ela está aberta aqui ao meu lado porque só foi lida uma vez. E muita coisa eu só entendo depois de algum tempo... (Não estou falando mal de sua letra, mas é que há palavras que custo um pouco a entender). Vou lendo "à prestação" e respondendo-a período por período. (...) Vivo contando os dias, as horas, os minutos, os segundos!... Quero que você venha para eu lhe dar os milhões de beijos que agora lhe mando". (Rio, maio de 1934)

"Você, querida, me faz grande falta. Eu quero você tanto, tanto. Quero você ao meu lado, sempre, sempre. Quero seu bondoso carinho, seu amor tão puro, tão simples, tão franco. Quero sua amizade dedicada, sincera, leal. Quero você, querida, com sua franqueza, com seus carinhos, com a sua alma aberta para mim, transformando-me de um quase vegetante num apaixonado que vive com vontade de viver, porque tem um ideal na vida, que o impulsiona, que o rejuvenesce, que o guia e que o faz o mais feliz dos homens — você!" (Vitória, maio de 1935)

Ficara decidido que, assim como o de Nietta, o meu casamento seria realizado em casa. Na casa da General Glicério. Minha irmã e eu não tivemos coragem para atravessar a longa nave de uma igreja sob o escrutínio de dezenas de convidados. Achei melhor dizer o Sim em um lugar mais aconchegante. Tia Sílvia esvaziou uma sala do térreo, providenciou cadeiras para os convidados e improvisou um pequeno altar enfeitado com flores singelas, dois belos castiçais e a imagem de Nossa Senhora da Conceição, que pertenceu a minha avó Mariana e que, está, até hoje, em meu apartamento. Dei a Carlos a incumbência de fazer mamãe levá-la. Nossas alianças foram um presente de Aluysio e de Sílvio.

Dom Helvécio Gomes de Oliveira, arcebispo de Mariana, fez questão de oficiar as bodas. Carlos e ele se conheciam desde os tempos do Colégio Salesiano, onde ele fora diretor, e Carlos, aluno. Tia Sílvia, muito impressionada, me confidenciou: "Pela primeira vez, vou assistir a um casamento celebrado por um bispo."

A recepção contou com o maravilhoso bufê da Colombo, sem dúvida, o melhor da época. A casa ficou repleta. Os amigos dos Mello Leitão formavam a maioria dos convidados, muitos dos quais eu não conhecia. Apesar da emoção do momento, lembrei-me da velha idéia de abraçar a vida religiosa caso não me casasse até os 18 anos.

Infelizmente, a política interferiu em minha lua-de-mel. A situação estava agitada aqui tio estado, com a Assembleia mobilizada para eleger o governador. Um dos candidatos era o interventor João Punaro Bley, amigo de Carlos que, para ajudá-lo a construir as alianças necessárias à vitória, se dividia entre o Rio e o Espírito Santo. O vai-e-vem dessas viagens nos roubou a possibilidade de passarmos os primeiros dias de casados em um local sossegado e romântico. Ficamos no Rio, no Lutécia, o primeiro apart-hotel construído na cidade e um dos poucos prédios existentes nas Laranjeiras. O bucolismo sonhado ficou por conta dos passeios no carro emprestado por tio Leitão. Íamos ora para o Joá e redondezas, ora para Petrópolis, a Cidade do Imperador, linda e aconchegante, com suas casas senhoriais e suas hortênsias.

Na noite de núpcias, Carlos galantemente abriu uma garrafa de champagne apanhada em seu quarto no Avenida, de onde telegrafara à mãe que não tinha ido ao Rio para o casamento. No jantar do dia seguinte, um deputado, seu amigo e compadre, apareceu no restaurante do Lutécia e começou uma infindável arenga sobre o momento político espírito-santense. Carlos me fez um discreto sinal seguido de um não tão discreto beliscão e disse enfático: "Agora, Moacir, nós vamos ao cinema. E, Moacir prontamente respondeu: "Que bom! Eu vou também. "E foi! Como se dizia na época: o tiro saiu pela culatra. A mentira de Carlos não funcionou e rendeu mais um longo tempo de conversas classistas, especialidade do deputado. Desse modo, o proselitismo partidário entrou, em minha vida, um dia após o casamento.

Nossas acomodações no Lutécia eram pequenas, porém muito simpáticas. Estávamos felizes e resolvemos vir a Vitória passar o Natal com dona Barbinha, minha sogra. Aqui, enjoei sem parar e percebi que estava grávida. Tinha febre e muitas dores abdominais. Descobriu-se que a causa era uma infecção urinária, e os médicos opinaram por uma interrupção da gravidez. Carlos e eu discordamos da decisão e resolvemos que eu voltaria para a casa dos Mello Leitão; ele permaneceria em Vitória, cabalando votos para a eleição que se aproximava. Tia Sílvia, nervosíssima com as minhas dores excruciantes e minha febre altíssima, levou-me a três sumidades médicas: Fernando Magalhães, o melhor ginecologista do Rio; Pedro da Cunha, grande especialista em Clínica Geral; e Mario Fonseca, o maior nefrologista da época. Este descobriu que os meus ureteres estavam mal posicionados e, por isso, comprimidos pelo feto. Disso resultava uma obstrução que impedia a passagem da urina para a bexiga, causa da infecção e razão pelo qual não pude ter outros filhos. A solução foi deslocar o feto para desobstruir os canais e permitir o fluxo da urina. Para mantê-lo na posição desejada, eu permaneci deitada em uma cama turca cujos pés da cabeceira, menores do que os da outra extremidade, deixavam-na inclinada. Minha cabeça ficava mais baixa do que o resto do corpo em uma posição bastante ingrata. Com o tempo, acabei por me habituar. As náuseas continuaram sem me dar descanso. Nada parava em meu estômago. Eu devolvia tudo. Eram 14, 15 vezes por dia, em um círculo vicioso que me exauriu. Inah e Henriqueta, filhas de Luiz, irmão de Carlos, me fizeram grande companhia. Sentavam-se no chão, junto à minha cama, e ficavam quietinhas horas seguidas, enquanto eu enjoava repetidamente. Apesar da pouca idade — são mais novas que eu — as duas aguentavam firmes, preocupadíssimas com o meu estado. Fiquei macérrima; esquelética; um espectro. E elas sempre comigo. Umas gracinhas. Nossa amizade alicerçou-se nesse período. Eu as amo com paixão, e elas sempre corresponderam ao meu afeto.

Tia Sílvia, em mais uma demonstração de carinho, saíra de seu quarto e se instalara numa cama improvisada ao lado da minha, pronta para fazer o que fosse preciso. Carlos ia me ver sempre que possível e, de Vitória, escrevia: “Segura esse nenê ai, porque a velharia aqui está toda riscando traços na parede para ver se você vai ter a criança com nove meses ou antes."Aos poucos, fui melhorando e recebi permissão para andar pelo quarto; depois, para descer a escada e almoçar com a família; em seguida, para dar pequenos passeios com tia Sílvia. Um dia, abusei dessa liberdade e desmaiei enquanto ela fazia compras. Quando, finalmente, O médico me permitiu deitar em uma cama normal, estranhei a posição, achando que ia escorregar e cair do colchão. Nesses tempos difíceis, foi Luiz, o irmão médico de Carlos e pai de lnah e de Henriqueta, quem se encarregou de me fazer todos os exames.

Carlos Fernando nasceu na Pró-Mater, no bairro da Saúde, próximo ao porto, onde o Dr. Fernando Magalhães atendia. Submeti-me a uma cesariana, procedimento raro naquela época e justificado por um trabalho de parto de trinta e seis horas. A velharia de Vitória não teve motivo para mexericar: meu filho nasceu exatamente nove meses e três dias depois do casamento. Escapei, por pouco, de cair na boca do povo.

Eu estava preparada para ser mãe; durante o noivado, fiz um curso de puericultura, na Associação Brasileira de Imprensa, para aprender a lidar com recém-nascidos.

A parte prática, como dar banhos, trocar fraldas, segurá-los e niná-los, aprendi no Hospital Anna Néri. Meu desejo era o de ter uma família grande, e meus sonhos incluíam 12 crianças vestidinhas de marinheiro como aquelas dos filmes ingleses assistidos com tia Sílvia. Fui muito paparicada naqueles tempos. Todos me incensavam, e os elogios me faziam tremendamente venturosa.

Carlos renunciara ao mandato de deputado para assumir uma Secretaria no governo Punaro Bley, e nós trocamos o Rio por Vitória, assim que o meu tratamento de rins terminou. Viemos de hidroavião. Na chegada, entregamos o bebê ao nosso motorista, sem sabermos que o homem estava infectado pelo vírus da difteria. A doença estava incubada. Um mês depois, Carlos Fernando começou a ter febre. O pediatra culpou o meu leite e mandou suspender as mamadas. A recomendação de nada adiantou. A febre persistiu, e as perturbações digestivas continuaram, qualquer que fosse o leite tomado. Carlos Fernando estava cada vez mais quieto e triste, emagrecendo sem parar; aos 3 meses, pesava menos do que quando nascera. Seu pediatra, um intrépido caçador, tirou uns dias de folga e se embrenhou na mata, ficando incomunicável. Assim, por causa de coelhos e de pacas, eu me vi obrigada a chamar um outro médico, que imediatamente pediu uma colher para abaixar a língua do bebê e examinar-lhe a garganta. Pondo em prática os ensinamentos do Anna Néri, mergulhei-a em água fervendo. O médico apertou as bochechas de Carlos Fernando, que escancarou a boca e exibiu a língua. A colher, tão amorosamente esterilizada, cumpriu a sua missão em meio aos gritos do pobrezinho, queimado pelo metal quente demais. Diante da algazarra, o doutor deu a consulta por encerrada e partiu sem dar mais notícias. O fim de semana terminou, trazendo de volta o pediatra caçador a quem expliquei o desastre da véspera. Fiz minha confissão: "Doutor, acho que acabei com o paladar dele. Queimei sua língua de vez." O médico examinou Carlos Fernando e respondeu imperturbável: "Não, dona Maria! A língua, não. A senhora queimou a garganta do seu filho." Eu me defendi: "Absolutamente! A colher não chegou até lá. Ele gritou antes." O pediatra rebateu: "Então, mande colher material porque a garganta de seu filho está inflamada." Nosso amigo, doutor Schwab, pai de Maria do Carmo, ia todos os dias saber notícias de Carlos Fernando e sugeriu que providenciássemos exames para detectar algum tipo de angina. Os resultados apontaram para uma infecção bacteriana na laringe, doença chamada difteria laríngea, vulgarmente conhecida como crupe. Em 1936, esse diagnóstico era bastante grave. A obstrução da laringe podia levar à sufocação e, em consequência, à morte. Não fosse por Schwab, Carlos Fernando poderia ter morrido. O tratamento incluiu injeções na barriga, e, em pouco tempo, ele começou a melhorar.

Eu não estava bem. Sem amamentar, os meus seios tinham inchado, e o leite, sempre retirado com bomba, saía sanguinolento. Aborrecida com os médicos de Vitória, resolvi levar Carlos Fernando para a casa de tia Sílvia. Ela o encaminhou ao Dr. Adamastor Barbosa que acompanhou a sua recuperação e passou a ser o seu pediatra. Ele me repreendeu por não ter amamentado, explicando que o leite materno ajuda a combater infecções. Se eu tivesse sabido, o pobrezinho teria sofrido menos. Como o meu leite estava com sangue, Maria Eugênia, mulher de Henrique Novaes, primo de Carlos e avô de Maria do Carmo, gentilmente deu-lhe o seu. Ela era mãe de um bebezinho um pouco mais velho e garantiu que podia alimentar os dois. Assim, eu levava Carlos Fernando até sua casa para o café da manhã, o almoço, o lanche, o jantar e a ceia.

Muitos anos depois, Novaes, então senador da República, foi, em companhia de outros políticos, visitar Carlos em palácio. Enquanto aguardavam, Carlos Fernando, então com uns 10 anos, embarafustou-se pelo Salão Dourado e, por conta própria, saiu a apresentar Henrique: "Este é o meu pai de leite. Este é o meu pai de leite." Foi uma risada só. O próprio Henrique contou-me essa história às gargalhadas.

Carlos Fernando se recuperou, e nós voltamos para casa. Como o meu leite continuava sanguinolento, contratamos amas-de-leite, cerca de 16 delas, duas de cada vez, para não esgotar o alimento de suas próprias crianças.

Como as amas provinham dos morros, o pediatra nos recomendou verificar se os seus bebês eram saudáveis, condição essencial para empregá-las. Eu me importava mais com eles do que as próprias mães. No carnaval, ouvi muitas vezes: "Eu não vou deixar de sambar por causa do peito. Boto a criança lá num cantinho e pronto!" Eu argumentava: "Mas ela pode pegar uma infecção e morrer." As respostas eram sempre iguais: "Se morrer não tem nada não." Coisa muito triste esse descaso materno.

Felizmente, já contava com o apoio de minhas antigas colegas, por coincidência, casadas com amigos de Carlos. Uma vez retomada a velha amizade, passamos a fazer programas juntos e a batizar os filhos uns dos outros.

Carlos Fernando cresceu uma criança obediente e boa. Quando teve um problema de aftas — que exigiu aplicações de Azul de Metileno, líquido de aplicação dolorosa —, eu chorava penalizada, e ele, vendo minhas lágrimas, dizia: "Desculpa, mamãe! Desculpa!" O coitadinho pensava que me desagradara de alguma forma.

Comemoramos o seu primeiro aniversário em nossa nova casa na Praia Comprida, hoje Praia do Canto, com a presença indispensável dos Mello Leitão. Começamos a construí-la em março e nos mudamos em setembro. Ela foi toda mobiliada com peças arrematadas em leilões e ficou elegante e acolhedora, tentamos levar Quetinha e Lourdica para morarem conosco, porém, Dodona, usando de chantagem sentimental, convenceu-as a continuarem em sua companhia, e foi com muita pena que Carlos acabou concordando. Só ficávamos com elas aos domingos. Enquanto Carlos Fernando permanecia em casa com Carlos e a babá, eu e as meninas íamos, de bonde, à matinê do Cinema Glória. Quando o filme era bom, nós assistíamos a duas sessões seguidas. Elas adoravam e — por que não? — eu também.

 

Carlos foi um marido atencioso e gentil, mas gostava de uma molecagem vez por outra. Eu sempre adorei festejar o meu aniversário. Adoro ganhar presentes na data, e ele sabia muito bem disso. Num 6 de abril, na Praia Comprida, não recebi coisa nenhuma. Acordei, pulei da cama e procurei a costumeira surpresa sempre escondida em algum lugar da casa. Foi uma procura frenética e vã. Nada nos armários; nada atrás das portas, insisti, mas foi inútil. Aí, emburrei. A raiva me impediu de reclamar a falta do presente. Resolvi sofrer calada. Meu mau humor foi crescendo, estufando com o passar das horas, e eu firme. Estóica. As visitas começaram a chegar. Minhas amigas queriam saber o que Carlos me dera. Para não contar a triste verdade, apanhei um par de sandálias de plataforma alta — como as de Carmem Miranda —, que eu mesma tinha comprado e dizia: "Ele me deu esses sapatos." A festa ia a todo vapor: docinhos pra cá, salgadinhos pra lá, e eu emburrada. Carlos não demonstrava o menor remorso. Quando os convidados se foram, ele subiu para o quarto, enquanto eu recolhia os pratos e os copos abandonados pelos cantos. Entrei na sala de jantar e o que vi? Dentro de cada uma das duas mangas de cristal que enfeitavam a mesa, havia um lindo castiçal de prata. É lógico que eu desemburrei na hora e, muito sem graça, pedi mil desculpas. A reação dele foi rir e rir.

 

Nossa vida corria tranquila. Carlos continuava às voltas com a política e, em 1942, quando era presidente da Junta de Conciliação e Justiça do Trabalho, foi convidado a concorrer a deputado no pleito do ano seguinte, elegendo-se com o maior número de votos. Isso nos levou de volta ao Rio, e eu fiquei, outra vez, perto dos Mello Leitão.

Lourdica permaneceu em Vitória, e Quetinha, já adolescente, foi matriculada no Colégio Sion, em Petrópolis. Tia Sílvia e eu fomos levá-la e, então, aconteceu uma coisa engraçada: a freira que nos recebeu, depois de conversar e dar detalhes sobre as normas do internato, pegou-me pela mão para mostrar as dependências da escola, pensando que a nova aluna era eu. Meu tipo mignon a enganou.

Carlos e eu optamos por morar perto da praia e alugamos um apartamento na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Rapidamente nos adaptamos ao bairro. Em dezembro de 1946, em uma dessas reviravoltas tão comuns em política, Carlos foi escolhido para substituir o candidato a governador do Espírito Santo pelo PSD — Partido Social Democrata —, general Tristão de Alencar Araripe, que tinha abruptamente desistido de concorrer. Como ele tinha feito a campanha do general e percorrido todo o interior em sua companhia, o partido viu-o como a melhor opção para a eleição que se realizaria dentro de apenas dezoito dias. Viemos às pressas para Vitória: eu para ficar com minha sogra, e ele para viajar em campanha, visitando o maior número possível de cidades e de municípios. Na vinda do Rio, em todas as estações onde o trem parou, só havia faixas com o nome de Atílio Vivácqua, o candidato da UDN — União Democrática Nacional. Fiquei apavorada, desejando poder hibernar até depois da apuração, certa de que nós não tínhamos qualquer chance. Estava errada. As pessoas do campo, todos os fazendeiros — tanto os grandes quanto os pequenos —, confiaram no homem que, como deputado e depois à frente das Secretárias da Fazenda e da Agricultura, trabalhara com seriedade para a melhoria da produção agrícola do Espírito Santo. Após a vitória, Carlos foi carregado nos braços do povo, em uma inconteste demonstração de carinho e de apoio. Ele ficou satisfeito, é claro, mas também, apreensivo em relação ao futuro. Antes das eleições, ao voltar de uma viagem pelo interior, ele nos dissera filosoficamente: "Estou com medo danado de ganhar".

 

Coordenação geral e pesquisa: Nietta Lindenberg Monte
Texto: Lia Neiva
Transcrição de fitas: Líris Ramos
Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros
Editoração Eletrônica: Shan, Gustavo Senna e Renata Machado
Fotos: Arquivo de família
Tratamento das fotos: Luiz Fernando Martinho
Fonte: Parabéns pra você – texto: Lia Neiva, Vitória/ES, 2008
Autora: Maria Lindenberg
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

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