Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Os nomes de ruas do bairro São Pedro – Por Geert A. Banck

Grito do Ipiranga - Independência do Brasil, 1888

Em fevereiro de 1977, logo após o Carnaval, ocasião em que uma ressaca coletiva ataca tanto as autoridades como a polícia, um grupo de cerca de 35 famílias invadiu um manguezal à margem do canal norte de Vitória. Foi o início de um processo de ocupação que hoje se estende por alguns quilômetros às margens do canal, constituindo a Grande São Pedro um conjunto de favelas com cerca de trinta mil habitantes.

A primeira ocupação, chamada São Pedro I, foi relativamente bem organizada. Demarcaram-se ruas principais com doze metros de largura, e vários lotes foram reservados, dentre outras finalidades, para a escola e centro comunitário. Sua liderança se inspirava na teologia da libertação e as discussões políticas eram também influenciadas pelo debate teórico a respeito dos movimentos sociais urbanos, com base, em especial, nas reflexões expostas por Manuel Castells em obras como A Questão Urbana, entre outras. Dava-se grande ênfase à ação política autônoma e à cultura política local. Isso se expressava sobretudo através de uma firme atitude contra o poder e, o que é mais relevante para a nossa análise, de uma luta sem trégua e, o que é mais relevante para nossa análise, de uma luta sem trégua contra o clientelismo político. O que não significa que todas as relações com os políticos de fora tivessem sido cortadas. Em 4 de setembro de 1977, seis meses apenas após a ocupação, o governador e o prefeito (nomeado pelo governador) visitaram São Pedro, reconheceram sua condição de bairro, e “deram” energia elétrica à população. Depois de lembrar cordialmente aos moradores que era candidato a senador, o prefeito também “deu” seu nome à rua principal que dava acesso ao bairro, descerrando uma linda placa.

Essa presença física simbólica não durou muito e, de qualquer forma, tendo brigado com o governador, o prefeito perdeu o cargo logo depois. O movimento, porém, estava envolvido. Um de seus métodos de consolidar uma cultura ou uma identidade comunitárias era usar os nomes de rua para formar uma memória coletiva – naturalmente dentro de um padrão anticlientelista. Assim, o nome do prefeito foi substituído, e a rua chama-se agora Quatro de Setembro, em lembrança do reconhecimento do bairro pelas autoridades. Outras ruas receberam nomes em função de referências locais. Uma delas recebeu o nome de um morador que morreu de ataque cardíaco durante o confronto com a polícia, e o nome da rua do Acordo remete ao debate sobre a escolha da área onde seria construída a escola, o que foi decidido pacificamente mediante entendimento. Ainda outros nomes referem-se à perspectiva de um bom lugar para morar: rua da Esperança, rua da Bela Vista. Muito interessante é o caso da rua do Grito, uma inversão política da liderança comunitária, o povo foi sempre oprimido, mas agora chegava  a hora da “nossa” independência, do “nosso” grito: do “grito do povo”. O termo não foi usado apenas como nome de rua, mas também nas células de votação do movimento. Além disso, Grito do Povo foi nome dado inicialmente à escola recém-construída, que se tentou administra com a gente da própria favela (cf. BANCH e DOIMO, 1989). Em 1983, o movimento entrou em atrito com o novo prefeito porque seus líderes tinham apoiado outro partido de esquerda. O prefeito cooptou alguns líderes por meio da oferta de empregos e outros benefícios, invocou fórmulas burocráticas para substituir o corpo docente local de professores municipais e, por fim, a escola recebeu o nome de um dos mais famosos líderes populistas-clientelistas da década de 60, Francisco Lacerda de Aguiar.

Esse exemplo serve para demonstrar como simples ato de dar nome a ruas ou outros logradouros urbanos pode ser um ato de conflito político e ideológico, de opiniões divergentes sobre a maneira de dar significado ao espaço urbano. Juntamente com o primeiro exemplo, espero que este também revele a importância de se olhar mais perto aquilo que, à primeira vista, parece ser apenas uma espécie de cenário inconsciente do dia-a-dia.

 

Autor: Geert A. Banck
Fonte: Dilemas e Símbolos – Estudos sobre a cultura política do Espírito Santo, 2ª Edição – 2011
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2014  

Bairros e Ruas

O Bairro da Glória

O Bairro da Glória

A praia da glória era uma pequenina praia situada entre o monte Jaburuna e a desembocadura do rio Aribiri. À sua frente e a curta distância está a Ilha das Cobras sempre coberta de verdejante vegetação

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Escadaria Maria Ortiz

Ao tentar alcançar a parte alta da vila, subindo estreita rampa, conhecida como ladeira do Pelourinho, os corsários foram surpreendidos pela jovem Maria Ortiz

Ver Artigo
Escadaria Bárbara Lindenberg – Por Elmo Elton

Ficou conhecida como ladeira das Colunas, sendo que, após a visita de Dom Pedro II ao Espírito Santo, em 1860, passou a denominar-se ladeira do Imperador

Ver Artigo
Escadaria Maria Ortiz (ex-ladeira do Pelourinho) – Por Elmo Elton

Maria Ortiz era filha de Juan Orty y Ortiz e Carolina Darico, nasceu em Vitória em 1603, tendo falecido na vila em 1646

Ver Artigo
Praça João Clímaco (ex-praça Afonso Brás) – Por Elmo Elton

Em 1910, Jerônimo Monteiro, quando o logradouro tinha o terreno inclinado, para aplainá-lo, construiu-se um muro de arrimo, coroado por balaustrada, fronteiro à atual Rua Nestor Gomes

Ver Artigo
Primeiros moradores do Farol de Santa Luzia

Os primeiros moradores da região do Farol de Santa Luzia, na Praia da Costa, Vila Velha, foram...

Ver Artigo