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Pedro Furão – Por Elmo Elton

Rua Pereira Pinto, início do Século XX

Capataz da Capitania dos Portos, foi grande animador de antigos carnavais de Vitória, num tempo em que, nos dias momescos, velhos e novos foliões (gente da raia miúda) batiam à porta de pessoas amigas, cantando e arrecadando dinheiro:

Minha muié já é veia
não pode mais trabaiá.
Vamos comprá argodão
pra minha véia fiá.

Pedro Furão, típico homem do povo, preto, alto, muito simpático e falante, embora portador de ligeira gagueira, era visto em toda parte, sempre arrodeado de amigos, também de mulheres, já que presidente de vários clubes recreativos e blocos carnavalescos. Fundou, na Fonte Grande, mas com sede na rua Pereira Pinto, hoje desaparecida, o clube Chuveiro de Prata, com bloco do mesmo nome, e, mais tarde, já noutro local, o Chuveiro de Ouro, também com bloco organizado, e, em seguida, o Ipiranga, este no distrito de São Torquato.

Tinha um amigo de folia: - seu Zé Pereira, indispensável integrante de todas as diretorias daqueles clubes e blocos. Zé Pereira, embora analfabeto, andava sempre com um dicionário de Inglês debaixo do braço, expressava-se com gabolice, adulterando as palavras, o sentido das frases. Certa vez, em meio a animada reunião, perguntou a Pedro Furão qual seria o itinerário do bloco Chuveiro de Prata, durante o carnaval. A resposta foi um disparate:

- Calça branca com camisa verde.

- Estou satisfeito, senhor presidente! respondeu o indagante. E, virando-se para os presentes, repetiu a mesma tolice que acabara de ouvir.

- O intinerário, ouçam bem, o intinerário é calça branca com camisa verde.

O Chuveiro de Prata fazia sucesso, e enquanto desfilava pelas ruas estreitas de Vitória, Pedro Furão, à frente, ia gritando, eufórico:

- Quebra putada, quebra mais putada!, embora o dito cordão fosse integrado mais por mocinhas e crianças do que mesmo por adultos.

Pedro Furão, nos últimos anos de vida, residiu na rua São João, no alto do morro da Vila Rubim, onde promovia marujadas, com a nau catarineta construída por ele próprio e moradores do local, os participantes vestidos a caráter, "tudo muito bem organizado e bonito".

Era casado com Dona Manuela, senhora de comportamento exemplar, dedicadíssima ao esposo e aos filhos, mas, mesmo assim, traída pelo marido, já que este foi sempre homem de muitas amantes, com as quais ia deixando descendentes.

Quanto a Zé Pereira, sabe-se que morava em Argolas onde fundou o Clube Bataclan, sendo presidente e orador da entidade, ali iniciando cada baile com esta advertência:

- Senhores sócios, sou cidadão anarfabeto, muito ingnorante, mas exija respeito nos baile, já que aqui tanto as casadas como as solteiras são todas virgens.

Os presentes aplaudiam-no:

- Apoiado, apoiado, muito bem!

E os arrasta-pés - tudo na mais perfeita ordem - só terminavam mesmo madrugada alta.

Porque muito patriota, hasteava, todos os domingos, a bandeira nacional na fachada de sua casa, sendo que algumas pessoas, zombeteiras, lá iam cantar o Hino Nacional, estropiando, irreverentes, letra e música do hino, encerrando-se cada solenidade" com espalhafatosos vivas ao seu promotor. Uma pândega!

(Informação da professora Zulmira Ferreira.)

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

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