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Posfácio do livro Parabéns Pra Você – Por Cariê Lindenberg

D. Maria e Carlos Lindenberg em Brasília, quando Carlos era o então governador do ES

Reconheço que não fui um bebê daqueles fofinhos que as mães adoram acariciar exibir como se fosse um troféu inédito. Ao contrário do que queríamos e esperávamos, fui um magricelo e semifaminto filhote, em virtude de sérios problemas na garganta, permanentemente doente, o que atazanou a vida de meus pais, obrigando-os ir com frequência ao Rio para tratamentos médicos especializados.

É também verdade que já desde minha concepção, comecei a gerar preocupações, cuidados especiais e apreensões constantes à Maria e Carlos.

Em um determinado momento da gravidez, antes do conveniente, eu lutava e me debatia inoportuna e precipitadamente para ver a luz.

Enquanto eu tinha pressa, minha mãe se preocupava, temerosa, com a possibilidade de parentes e amigos contarem os meses desde seu casamento, em 10 de novembro de 1934, que ainda não perfaziam os nove meses regulamentares para ela dar a luz.

Inteligente e habilidosa, como sempre foi, atributos que ela conserva com magistral e permanente incremento, Maria passou o restante da “nossa” gravidez de cabeça para baixo e com os pés para cima. Suspirou, ao sair da apreensão, com três dias de saldo, aos 13 de setembro de 1935, quando, então, orgulhosa, pode mostrar o rebento, fruto do seu ventre, sem mais quaisquer dúvidas quanto à castidade antenupcial.

Este registro, que, aliás, já foi contemplado por ela própria neste livro, desenha não só o quadro de angústia dos primeiros meses mas uma constante para ela por toda vida, apesar de meus esforços em contrário.

Lembro-me que chorávamos juntos ao ser medicado com pinceladas na garganta de “azul de metileno”: eu, porque insistia em pedir desculpas pela dor que lhe comovia inapelavelmente. É incrível como a memória humana é capaz de retroceder e alcançar fatos de setenta anos atrás. Lembro-me, ainda, com muita saudade e carinho, das estrondosas gargalhadas a três quando, lá pelos quatro anos, eu era posto sentado em cima da mesa de jantar para cheirar rapé, espirrar seguidamente e rir sem parar. Talvez sejam estas as primeiras e mais longínqua lembranças da nossa fraterna e deliciosa confraternização familiar, frutificada e reproduzida em toda nossa existência.

À Maria deve ser creditada a minha nítida distinção entre o bem e o mal, o certo ou errado, bem como o privilégio de respeitar as individualidades, ideias e ideais alheios, sejam de pessoas de qualquer sexo, etnia, religião ou posição social. Mais ainda, principalmente e, sobretudo, pelo exemplo de seu caráter e também de papai, para quem o trabalho árduo e a honestidade serena sempre presidiram as ações. A simplicidade, a tolerância e a humildade isentas de subserviência são atributos naturalmente presentes desde nossos antepassados, independentemente de cargos, sucessos políticos ou empresariais.

A nossa grande identidade se mostrou perfeita e constante ao longo de nossas vidas comuns. Até mesmo relativamente aos nossos planos profissionais: nem ela estrelou em grandes circos como aspirava, nem eu alcancei os palcos do teatro, televisão ou da música. Nestes aspectos não passamos de redes amadores. Mesmo assim, apesar disso, muito felizes.

Por fim, o que mais me marca em Maria é a sua determinação, força de vontade e grande fibra. A morte de Carlos terá sido para ela e para todos os seus descendentes, o momento mais difícil de nossas vidas. Durante longos meses, no hospital ou em casa, sofríamos, crescentemente, o suplicio angustiante do moribundo. Mamãe, embora extremamente abatida, nunca perdeu a fé na possibilidade da recuperação do marido. Após sua morte, extenuada pelo sofrimento e passada a missa do sétimo dia. Maria ressurgiu das cinzas e encontrou forças para viver independente e fazer uma vida nova, cheia de viço, tarefas e obrigações, sempre com um semblante meigo e uma indumentária adequada e impecável... Contudo, vez por outra, ela se trai ao abrir a gaveta dos retratos. É muito comovente vê-la assim, de volta, revendo as alegrias e os sofrimentos do passado.

 

Cariê

(Vitória, 4 de março de 2008)

 

Coordenação geral e pesquisa: Nietta Lindenberg Monte
Texto: Lia Neiva
Transcrição de fitas: Líris Ramos
Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros
Editoração Eletrônica: Shan, Gustavo Senna e Renata Machado
Fotos: Arquivo de família
Tratamento das fotos: Luiz Fernando Martinho
Fonte: Parabéns pra você – texto: Lia Neiva, Vitória/ES, 2008
Autora: Maria Lindenberg
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

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