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Rua Francisco Araújo (ex-rua do Egito)

- Em 1925 a construção do viaduto sobre a Rua Caramuru ligou a Francisco Araújo à rua Dom Fernando - Fragmento tirado do texto.

Duarte de Lemos doara aos jesuítas, na vila de Nossa Senhora da Vitória, em 1551, umas terras para que nelas construíssem igreja, residência e fizessem plantações. O padre Afonso Brás e o irmão Simão Gonçalves levantaram, logo, casa coberta de palha, deram começo à edificação da igreja onde iniciaram a catequese dos índios, local em que, depois, foi construído o Colégio de São Tiago. Tinham aí um sítio, a que chamaram do Egito, terreno cultivado, conforme registra o padre Fernando Cardim, em 1584: — "Os padres têm uma casa bem acomodada, com sete cubículos e uma igreja nova e capaz. A cerca é cheia de muitas laranjeiras, limeiras doces, cidreiras, acajus e outras frutas da terra, com todo gênero de hortaliças de Portugal." Desse sítio partia um caminho que ia ter à igreja de Santa Luzia. Em 1823 a vila é elevada à condição de cidade, tal caminho passando a ser chamado Rua do Egito, — a primeira, porque a mais antiga, da ilha.

Essa denominação perdurou, por muitos anos, na lembrança do povo, ainda que, em 1872, tenha trocado de nome, ficando, oficialmente, como rua Francisco Araújo, — homenagem a herói capixaba na guerra do Paraguai. Era esse soldado nascido, provavelmente, em 1848, conhecido, em Vitória, pela alcunha de Chico Princesa. Exerceu, durante aquele conflito, primeiro, as funções de alferes, depois, as de tenente, em comissão, por atos de bravura, no ataque de 8 de maio de 1868, ocasião em que foi condecorado com uma ou duas medalhas. Ao término da guerra, chegaram a Vitória, a 14 de junho de 1870, os primeiros voluntários capixabas, três tenentes, dois alferes e dezesseis praças, quando então se soube da morte, em campo de luta, do destemido Francisco Xavier Araújo, popular Chico Princesa, ocorrida em Curupaiti, a 22 de setembro de 1866. (1)

No governo de Jerônimo Monteiro, foi construído, no começo dessa rua, o edifício da Escola Normal, nele funcionando, também, a Escola Modelo, em área antes ocupada pelo Ateneu Provincial, este inaugurado, a 23 de maio de 1873, sob a direção de Manuel Coutinho Mascarenhas, tendo ali estudado moços que se tornaram conhecidos no Espírito Santo, como Afonso Cláudio de Freitas Rosa, Amâncio Pereira, Urbano de Vasconcelos, Antônio Francisco Ataíde e, também, um meninote campista que veio a ocupar, mais tarde, o cargo de Presidente da República: — Nilo Peçanha.

Em 1925 a construção do viaduto sobre a Rua Caramuru ligou a Francisco Araújo à rua Dom Fernando.

Durante muito tempo, parte dessa artéria, isto é, a que se prolonga do viaduto até a Rua São Francisco, não tinha calçamento, era estreita, de terreno pedregoso, ainda conservando duas ou três casas muito antigas, uma delas fazendo esquina com a Cosme Rolim, além de ruínas de construções coloniais, sendo que, ao término da rua, do lado esquerdo, ficava a venda do festeiro Raimundo Nonato, homem muito gordo e surdo, onde eram vendidos fogos Adrianinos.

Até início deste século, residiram, na Francisco Araújo, o Dr. Ricardo Pereira de Faria e João Lordelo, em casas com amplo quintal e jardim, além de outras famílias, sendo que aí residi, de 1938 a 1947, no imóvel de número 28, onde faleceram minha avó paterna, D. Jacinta Baraldi Zamprogno, e meu pai, o comerciante Fernando Zamprogno. Nessa casa residiram, antes, a família de Mirabeau Bastos e o engenheiro Florentino Avidos. Eram vizinho dos Zamprogno: — o coronel Francisco Schawb, a viúva do Dr. Eutrópio Pereira de Faria (D. Hortência Monjardim de Araújo Faria), o Dr. Augusto de Aguiar Sailes, o português José Maria dos Santos, o Dr. Edgard Queiroz do Valle, o professor Alfredo Filgueira, Chafic Murad, os Amarante, o Dr. Franklin de Carvalho, a viúva do professor Loiola (Grata Maria Barbosa Leão), entre outros.

A rua, como outrora, continua silenciosa, sobretudo à noite, sempre a despertar em mim algo que não sei bem definir... Ou seria a saudade dos tempos que ali vivi, com entes queridos?

 

NOTAS

(1) Contavam moradores antigos que Chico Princesa gostava de preparar armadilhas para caça de tatus, pacas e outros animais, isso, naturalmente, para ajuda do orçamento doméstico. Era pessoa queridíssima na cidade.

 

Fonte: Logradouros antigos de Vitória, 1999 – EDUFES, Secretaria Municipal de Cultura
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2017

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