Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Unidos da Piedade - A 1ª Escola de Samba de Vitória

Assim que se mudou para a Fonte Grande, Hermógenes passou a ter contato direto com o pessoal que articulava os blocos carnavalescos, entre os quais o Amarra o Burro e o Chapéu de Lado, participando, buscando recursos, e até promovendo concursos, tendo como patrocinadores o comércio e os jornais da época. O título de Lord Fonseca, atribuído a ele, era em função da liderança em uma das promoções carnavalescas que organizava.

Sua importância para o carnaval capixaba é amplamente reconhecida. Fundou a União das Batucadas do Espírito Santo e participou da criação da primeira escola de samba, a Unidos da Piedade, como ele registra na crônica a seguir:

 “— Tão dizendo lá embaixo, no pé do morro, que Rominho chegou do Rio com uma novidade. Diz que vai fazer uma Escola de Samba.

— Ouvi dizer também.

— Diz que trouxe até um surdo grandão, tamborim, cuíca, caixa, agogô e até frigideira.

— É, mas isso não vai dar certo, não.

— Dá sim. Ele vai ensinar a turma. Diz que hoje à noite vai ter um ensaio.

— Só vendo...

Lá pelas sete horas da noite, o pessoal, curioso, foi chegando no boteco do Rominho, na esquina da Rua Maria Saraiva e Graciano Neves, onde começava a subida do morro. Rominho botou os instrumentos para fora. Tudo novinho, que ele tinha comprado no Rio, onde assistira o ensaio da Portela, Mangueira e outras escolas já famosas no carnaval carioca, que há muito desfilavam na famosa Praça Onze.

Rominho pegava cada instrumento e ensinava o batido a cada um. Um por um, como devia bater. Depois dos trinos individuais, tentava fazer o conjunto com paciência. A turma pegou logo o ritmo. Toda noite tinha ensaio na rua. Depois arranjaram um lugar no morro.

O trabalho não era sopa. Quando a turma já estava boa na bateria, vinha o ensaio dos passistas – dar o recado nos pés. E agora era a vez da porta-bandeira, o mestre de cerimônia, o mestre de harmonia, as diversas alas. As aulas do Mestre Rominho, arvorado a mestre geral, eram ouvidas com toda atenção. O carnaval estava em cima. Faltavam poucos dias. Daria tempo para Escola desfilar? Havia muita coisa para ser feita.

‘Amarra o Burro’ era um arremedo de Escola de Samba, formado pelos mais autênticos sambistas do Morro da Fonte Grande. Eles percorriam as ruas de Vitória, tendo como parada obrigatória a Rua General Osório, especificamente em frente ao jornal A Gazeta. Dali partiam para a Vila Rubim, Ilha do Príncipe e finalmente a Volta de Caratoíra, onde eram sempre recebidos com ‘pompa’ pelas mulheres da Casa Verde e outras casas de prostituição, que abundavam naquela região. Quanto ao nome ‘Amarra o Burro’, até hoje não sei explicar a sua origem. Sei apenas que o abre-alas era a Burrinha do Pedro Peitudo, juntamente com o Boi Araçá, do saudoso Baiano Rico, que dava um toque especial ao bloco. Este, por onde passava, ia levando adeptos com os mais diversos tipos de fantasias, que aderiam ao novo ritmo.

No ano seguinte, desfilou, mas não tinha concorrente. Todo mundo foi espiar. Foi aparecendo gente que havia participado no Rio. A escola tomou impulso. Mas precisava legalizar seu estatuto. Não podia ter somente o nome de escola, escola de samba. Escola, por quê? Escola para ensinar samba? Não, porque podia confundir coisa de gentinha do morro com as escolas oficiais. Não se podia registrar assim. Aí veio a determinação para aliviar a exigência, que se colocasse antes do nome da escola a denominação de Grêmio Recreativo, com a sigla GR Escola de Samba. Assim podia. Coisa de gente besta, empoleirada em postos de mando, com mentalidade ainda do período ditatorial.

Edilson Carneiro escreveu um livro com a história das “escolas” e foi lançada a Carta do Samba. As escolas saíram da mistura dos reisados e de outras manifestações folclóricas. O seu ritmo veio das Folias de Reis. O samba dos lundus e das chulatas.

Os meios de comunicação, especificamente a televisão, levaram suas imagens por todos os cantos, superando as descrições do rádio, limitado às músicas e letras das marchas e dos sambas.

A censura oficial tinha o dedo em riste contra as críticas, estimulando as exaltações e ufanismos brasílicos mencionados nos sambas-enredo.

Rominho trabalhava o ano todo com Aluízio Paru e muitos outros, construindo um barraco em terreno baldio, próximo ao Buraco Quente, para as bandas da venda de Seu Lopes, onde a turma tomava os seus goles e tornou-se ponto de atração.

Era só a Unidos da Piedade, verde e branco, que dava a glória ao Morro da Fonte Grande, berço da primeira escola de samba de Vitória.

Já se vão 30 anos e tem uma história própria para ser escrita, demonstrando seus esforços, suas lutas, suas conquistas e suas vitórias, na competição com outras escolas que vieram surgindo.

Rominho morreu cedo. Moço ainda. “A turma, porém, sustentou o rojão até hoje, mantendo a tradição do morro, substituindo as batucadas que desapareceram.”  

No livro Carnaval Cem Anos, Hermógenes incluiu O carnaval capixaba, escrito por ele e pelo poeta Anselmo Gonçalves.

“O Carnaval de Vitória tem sua história de altos e baixos acompanhando, naturalmente, as condições econômicas e culturais. Do bate-moleque e do entrudo, foi tomando suas formas. Dos limões de cheiro e bisnagas surgiram os lança-perfumes e os bailes à fantasia. Houve, inicialmente, o período das grandes sociedades, com seus carros alegóricos puxados a cavalo. Foi o tempo da Fênix carnavalesca e do Pierrot, quando o pessoal da alta sociedade participava. Destaca-se nesse período a presença da Casa Cruz, uma empresa dos Cruz Sobrinho que marcou época. Quando surgiram os automóveis de capa de lona, os fordecos, apinhados de gente jogando serpentinas e confetes, era o chic. Todo mundo saía às ruas para ver o corso.

O último baile do Pierrot foi no antigo Cine Central, ao lado do Hotel Capitólio, que tinha, no andar térreo, a casa Morgado Horta. O Cine Central depois se transformou em armazém de café e ficava onde é hoje o edifício das Repartições Públicas, na avenida Jerônimo Monteiro. Além dessas sociedades, tínhamos ainda Flor da China, Flor do Abacate, Resedá. A Flor da China era dos Nascimento, uma família numerosa e tradicional que residia na Avenida Capixaba. Eram grandes festeiros, pois, além dos congos, organizavam também as marujadas. Nos desfiles dos três dias de Momo, havia os grupos musicais, como o "Centenário", surgido em 1922, e os Sururus, que em seu último desfile cantou a marcha Na Pavuna...

Ainda desfilava pelas ruas o Grupo Musical "Mocidade". Antes, porém, existiam dois grupos famosos – Morcegos e Diabos em Folia – que se encontravam na rua Duque de Caxias, a principal e mais movimentada, apesar de estreita como é até hoje. Nesse encontro o pau comia, era briga na certa. Seus componentes eram o pessoal da Estiva e Docas, trabalhadores da firma Antenor Guimarães ou, como diziam, o pessoal do Bravo Meu Mano. Acontece que, em um desses encontros de brigas e das fantasias do Diabo com chifres, o bispo diocesano pediu ao chefe de polícia que proibisse a saída dos "Diabos em Folia". Nas proximidades do carnaval do ano seguinte, o pessoal se reuniu para discutir as medidas do chefe de Polícia. Nessa época, havia um ditado popular: “Está cruel”. A vida está cruel. Durante a discussão na procura de outro nome, apesar das várias sugestões, não chegavam a um acordo e diziam “é... está cruel”.

Até que um dos presentes sugeriu: Por que não botamos o nome de Está Cruel? Todos aceitaram e o bloco saiu com esse nome, sob a direção de Pedro Furão, que dançava agarradinho e com caixa de fósforo no bolso. Às vezes, dançava-se o Escambau, quando era permitido pelo Cabo Queiroz, mas o Escambau era mesmo dançado na pensão da Aurora Gorda, na Volta de Caratoíra. O Escambau foi o precursor da Lambada, que hoje faz tanto sucesso. O Está Cruel deixou de desfilar e só promovia bailes. O cabo Queiroz, apesar das sucessivas promoções, continuou sendo chamado de cabo Queiroz ou, às vezes, até de “tenente cabo Queiroz...”

Em seu texto, Hermógenes pontua a história do carnaval capixaba nos seus diversos aspectos, nos tópicos Os Congos, As Batucadas, União das Batucadas, Os Concursos, As Músicas, Rei Momo, Sábado Gordo, Blocos de Salão, Auxílio da Prefeitura e Advento das Escolas e Desfiles.

 

Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo - Hermógenes Lima Fonseca, 2013
Texto: Bartolomeu Boeno de Freitas
Coordenação: Antônio de Pádua Gurgel/ 27-9864-3566 
Onde comprar o livro: Editora Pro Texto - E-mail: pro_texto@hotmail.com - fone: (27) 3225-9400

Folclore e Lendas Capixabas

Ilha dos Frades – Por Adelpho Monjardim

Ilha dos Frades – Por Adelpho Monjardim

Nos primeiros dias da Colonização a Ilha dos Frades se chamava Valentim Nunes, doada que fora a esse companheiro de Vasco Fernandes Coutinho

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Turismo do Espírito Santo - Por Aloísio Santos

A chave maravilhosa, que abrirá suas portas para o Brasil e para o mundo, é ainda e será sempre o turismo. Era o que tinha para dizer, Srs. Deputados

Ver Artigo
Fantasmas no Adro Esquecido – Por Adilson Vilaça

Nossa Senhora da Conceição disse que não. Fez ouvidos moucos ao derradeiro ofício e recusou-se ir para a igreja do Rosário dos Homens Pretos

Ver Artigo
Juparanã – Por Maria Stella de Novaes

A Lagoa Juparanã está saturada de fantasia, criada pela imaginação do povo, e que se tem perpetuado, através das gerações

Ver Artigo
A Pedra da Ema – Por Adelpho Monjardim

Em Burarama, Município de Cachoeiro de Itapemirim, situa-se a Pedra da Ema, notável pelo fenômeno que ali se processa

Ver Artigo
As minas do Castelo- Por Adelpho Monjardim

Atribui-se aos jesuítas, ainda no Século XVII, o desbravamento do território do Município de Castelo

Ver Artigo