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Cidade Presépio: Gente - Por Renato Pacheco

Revista Capichaba - Fonte: Acervo da Casa da Memória de Vila Velha

Que povo morava então, nesta cidade de Vitória, a tão decantada cidade-presépio?

Paulo Stuck de Moraes, em trabalho demográfico baseado nos dados censitários, revela que, em 1920, a cidade possuía apenas 21.866 habitantes, sendo 49.09% de homens; em 1940, 45.212 habitantes com 47,52% de homens; e em 1950, 50.922 habitantes, com 46.89% de homens. Houve entrementes o desmembramento do planalto de Carapina, anexado à Serra, e, acrescentemos, a autonomia de Vila Velha.

Segundo a cor, o pesquisador encontrou, em 1940, 57.57% de brancos, 27,04% de pardos e 15,24% de pretos.

Sem surpresa, os dados para a religião nos dão, ainda e, 1940, 92,21% de católicos, 3,60% de protestantes e 2,54% de espíritas.

Há poucos estrangeiros: 1.060 em 1940 e 712 em 1950. A proporção de casados é aproximadamente igual à de solteiros e são pouquíssimos os casais separados.

Uma estimativa nossa quanto ao labor nos dá, entre os habitantes da cidade:

50% de donas de casa e empregadas domésticas;

20% de menores, estudantes ou não;

10% de funcionários públicos, inclusive força pública e magistério;

5% do comércio (patrões e empregados)

5% de profissionais liberais;

5% de operários diversos (inclusive porto e eletricitários);

5% de outros (aposentados e sem profissões definidas).

Numa cidade com forte vinculação com os costumes tradicionais brasileiros, machistas e conservadores, mulheres não dirigiam automóveis, não fumavam – ao menos em público – não andavam de calças compridas nem desacompanhadas.

Numa cidade com tal estilo de vida era profundamente incômoda a situação de algumas poucas mulheres progressistas, que inicialmente, sendo letradas, propugnavam pelo voto feminino, algumas desquitadas, num universo de pouquíssimas separações judiciais. Referindo-se a Consuelo Salgueiro, pintora e escritora, Yvonne Amorim diz que: “A sociedade marginalizava a mãe (desquitada) e os filhos. Conscientes do problema, Consuelo Salgueiro optou em residir em um centro irradiador, como o Rio de Janeiro.

Reservava-se assim às mulheres o papel de dona de casa – lugar de mulher é em casa, criando os filhos – ou empregadas domésticas (cozinheiras, pejorativamente chamadas “graxeiras”, arrumadeiras, copeiras, amas-secas (babás), lavadeiras, passadeiras) ou professoras primárias (poucas secundárias), secretárias no serviço público ou privado, balconistas, telefonistas e como artesãs e operárias as catadeiras de café, para melhorar-lhe o tipo.

À dona de casa, além de cuidar dos filhos e da economia doméstica, permitia-se uma vasta gama de relações familiares e de amizade, com troca de visitas, com quem se mantinha relações (que por mil motivos poderiam ser “cortadas”). Aos amigos davam-se presentes de aniversário e Natal, trocavam-se fotos, inclusive dos filhos.

Os filhos nasciam em casa pelas mãos das parteiras. D. Augusta Mendes, veneranda senhora, e D. Maria Lúcia Viana, esta nossa primeira Obstetra formada. Antes de consultar o pediatra, recorriam as mães ao Guia do Dr. Wittrock (dos hospitais de Berlim), cuja primeira edição brasileira é de 1927. Na classe média, os recém-nascidos se davam o luxo de terem sua vida registrada no Meu bebê, livro das mamães, de Bastos Tigre, com ilustrações de F. Acquarone, que se propunha a ser um “registro material de fotos e datas notáveis da vida do bebê”, Rio, 1924.

Nos seus momentos de ócio, deviam as donas de casa exercitar algum tipo de trabalho manual, aprendido no lar e com novas receitas pelo método Singer de corte e costura ou pelas revistas cariocas Moda & Bordado e Tricô & Crochê. A hoje Singer, especializada em máquinas de costura, na rua Jerônimo Monteiro, fazia periódicas exposições de bordados de sua professora Etelvina Almeida e alunos. E também cuidava de sua elegância. Havia alfaiates que faziam robes, manteaux, costuras para senhoras, e costureiras famosas como D. Emma, esposa do prof. Philogomiro Lannes, D. Biblites, esposa do fotógrafo Mazzei, D. Nicota, conhecida como Madame Prado, com loja à rua Duque de Caxias, 21, e que em outubro de 1936 montou moderníssima loja na praça Costa Pereira, ditando a moda por muitos anos.

Numa crônica feminina estampada no Diário da Manhã, a articulista Vera Maria, versando “a mulher moderna em face do amor”, aconselha as jovens a adivinhar o pensamento do eleito, satisfazendo os seus desejos, correspondendo aos seus carinhos para ter o “sutil perfume de felicidade”, numa clara alusão à submissão feminina, o que se contrapõe à criação, em 1933, da Federação pelo Progresso Feminino, cuja primeira delegada dos congressos femininos do Rio, em 1932 e 1933, foi a professora, bióloga e historiadora D. Maria Stella de Novaes.

Um grupo de mulheres, paradoxalmente, detinha alguma liberdade de ação: as prostitutas, que a linguagem forense chamava de rameiras, decaídas, putas, mundanas, mulheres da vida fácil, mulheres-dama ou simplesmente mulheres da vida, e em cujas casas resolviam-se até problemas políticos, como relata Ormando Moraes, em A Gazeta de 19 de novembro de 1944, assunto a que voltaremos quando trataremos do dia-a-dia político.

As principais “pensões” que registramos à vista de processo dos Arquivo do TJES eram na rua Duque de Caxias nos números 8, 45, 77, 80, 258, 291 e 301 (Maria Amélia), as primeiras mais próximas à praça Oito e as demais saindo-se da praça Costa Pereira; as da rua General Osório, nos números 120 e 130; as da Vila Rubim, Bela Vista e rua São João, 3 e 93; a Pensão Aurora na ladeira Sacramento; 13 casas em Caratoíra, na avenida Santo Antônio e São Torquato; e a Neuzinha, na rua Sete de Setembro.

Nelas residia uma flutuante população de que registramos os nomes de Maria Rodrigues da Silva, Maria Amélia, Ana Pereira, Cecília Ferreira, Marina de Carvalho Campos, Alda Silva Neves, Maria José Pevin, Auremira Loureiro, Aurora Rezende, Maria Auxiliadora de Oliveira e Ildefonsa Nacarat, entre muitas.

Às crianças capixabas se dava como valor básico a honestidade, ou a falta dela, porque, sempre que possível, passavam por baixo dos panos, nos circos, deixavam de pagar passagem nos bondes (as célebres “pongas”) ou colavam em exames escolares. A “cola”, se o professor deixasse, era feita pura e simplesmente copiando de cadernos e livros o aluno as respostas às questões formuladas: havia arranjos especiais que envolviam elásticos presos ao corpo, escrita à tinta, no corpo ou na carteira, e até telegrafia Morse. O Ginásio São Vicente, noticiando sua prova parcial de outubro de 1931, informou que “algumas tentativas de fraude, tristes lembranças do regime passado que a isto davam margem, foram imediatamente punidas com todo o rigor da lei, sendo sumariamente anuladas as provas dos temerários, felizmente raros, que se meteram nessa perigosa aventura.”

De resto, gostavam as crianças de ir á praia, no verão, e às matinês cinematográficas, aos domingos. Outros valores que os pais tentavam inculcar-lhes era a ordem, a coragem, o asseio, a disciplina e a obediência, principalmente a obediência. “Criança é para ser vista e não ouvida”, dizia o refrão popular. Seus dias transcorriam numa mesmice eterna – ajudar nos quefazeres domésticos, ir à escola, fazer deveres de casa, brincar na rua, os meninos jogando pelada, as meninas brincando de roda, havendo brincadeiras comuns a ambos os sexos, como o picolé.

Os funcionários públicos trabalhavam, em sua maioria, na Cidade Alta (Palácio do Governo ou Tribunal de Justiça), para onde se deslocavam no bonde circular, sendo de praxe o paletó e a gravata.

As chamadas “grandes e sólidas” fortunas estavam no comércio, principalmente no exportador de café – os Guimarães, os Pinto, os Ayres, os Prado, os De Biasi – e afinal não eram tão grandes e sólidas porque, em menos de duas gerações, se diluíram através de sucessivas partilhas, por morte de seus titulares.

Os profissionais liberais equiparavam-se na obrigatoriedade de usar terno e gravata aos funcionários públicos; muitos, muitíssimos eram concomitantemente servidores do Estado, e só gozavam de mais liberdade, tendo alguns feito fortuna.

Os operários eram pouquíssimos e davam suas primeiras mostras de organização entre os portuários, estivadores e arrumadores que se sindicalizavam.

Entre os outros viventes, havia um pequeno contingente de aposentados, sobre os quais escreve o prof. Ruy Lora: “Pela manhã, barba feita, banho e depois... De terno e gravata passavam o dia perambulando pela cidade, principalmente na praça Oito e avenida Jerônimo Monteiro, vendo vitrines, e juntando-se aos colegas e amigos para conversa animada.”

Símbolos de “status” ostentado por cerca de trinta famílias vitorienses era morar em “palacetes”, sobre os quais voltaremos a falar, possuir em casa telefone, eletrola, rádio, geladeira elétrica e automóvel particular, assim como mandar os filhos estudar fora do Estado, máxime no São José do Rio, se rapazes, ou no Sacré Couer de Laranjeiras, também no Rio, ou no Sion de Petrópolis, se moças.

Quanto à cor vimos, de início, a existência de maioria branca, esta todavia não isenta miscigenação. Poucos pardos e pretos conseguiram ascender socialmente, e o fizeram como indivíduos e não como grupo: desembargador Danton Bastos, os médicos Demócrito Silva e Lucilo Santana, os professores Arildo Lima, Afrordísio Pereira e Hermínio Blackman, o coronel Sidronílio Firmino, comandante da Polícia, são exemplos marcantes. Entre os brancos, um grupo de italianos urbanos aguerridos se distinguia: o exportador de café, Pietrangelo De Biasi, os construtores André Carloni e os Becacici e Gianordoli, os Balbi e Sarlo, padeiros, e mais os Nicolussi, os Trombini Pellerano, os Samorini, os Vello, os Copolillo, os Busatto, os Tancredi, os Pandolfo, os Cacciari, os Zamprogno e os Cariello.

Quando morria o capixaba, atestado o óbito por um médico, e preparados os papéis no Cartório de Registro Civil, um dos empregados da Empresa Funerária, monopólio da Santa Casa de misericórdia, vinha tomar as medidas do falecido, para fazer-lhe o caixão. Isto feito, procedia-se o velório, com encomendação religiosa da alma, transportando-se o morto até Santo Antônio, de bonde, devidamente aparamentado com panos pretos, ou no carro negro da Funerária, seguido de cortejo de carros, mais ou menos de acordo com a preeminência do morto. De praxe o luto fechado dos familiares mais próximos, ou o fumo à lapela e missas desde o sétimo dia pela alma do defunto.

Só havia o Cemitério Público de Santo Antônio, inaugurado em 9 de fevereiro de 1912, com 40.000 m2, a que se agregaram 6.000 m2 vendidos pela Missão batista. As Irmandades do Santíssimo Sacramento de São Benedito do Rosário e de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, Nossa Senhora Auxiliadora e Sagrado Coração de Jesus, ao lado, mantinham, pequenos cemitérios particulares. Previa-se fazer novo cemitério em Mulembá, no bairro de Maruípe.

 

Fonte: Os Dias Antigos, 1998
Autor: Renato Pacheco
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2012 

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