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Festas, regatas, futebol e carnaval - Por Luiz Buaiz com texto de Sandra Medeiros

Remo - Saldanha da Gama

Em 1921, ano em que Luiz Buaiz nasceu, crescia na cidade o interesse por futebol. O time vencedor do campeonato, em 21, o Rio Branco Foot-Ball Club, era uma agremiação com bom número de torcedores, mas não a única. Havia muitas outras na capital.

Podia-se torcer pelo Rio Branco, mas também por Caxias, Racing, Estrela, Floriano Futebol Clube, Jabaquara Futebol Clube. Ou pela Associação Atlética Vale do Rio Doce, pelo América, pelo Americano ou ainda pelo Santo Antônio.

É mais fácil lembrar os clubes que se destacaram: a Associação Atlética Vale do Rio Doce, por exemplo, que para sobreviver e crescer usou a estratégia de se fundir a pequenos clubes. Assim se tornou Desportiva Ferroviária. Construiu estádio, venceu campeonatos, teve muitos torcedores, mas – parece uma sina – passados 49 anos, o time, endividado, está de novo em risco e pode desaparecer.

Outro time de expressão foi o Santo Antônio Futebol Clube, que mal tinha surgido quando Luiz Buaiz nasceu. Fundado em 19 de novembro de 1919, data com certo ar cabalístico (três vezes o número 19), começou onde funcionava o Grupo Escolar Alberto de Almeida, na esquina da principal avenida do bairro Santo Antônio com a rua que dava acesso ao Cais do Avião. Sua sede marcaria época com as domingueiras, desfiles de moda e shows de artistas de outros estados. Trouxe até Cely Campelo, quando explodia nacionalmente o rock’n’roll. O Santo Antônio chegou a tricampeão: em 1953 ganhou o campeonato sem perder um só ponto e venceu o Rio Branco por 8 a 1. Por seis vezes foi detentor da Taça da Cidade e duas vezes, vencedor do Torneio Início. Conseguiu tudo isso sem ter estádio, que só estaria pronto em 1958, três meses depois da Copa do Mundo vencida pelo Brasil. E construído não em seu bairro, Santo Antônio, nem mesmo em Vitória, mas em Santa Inês, bairro de Vila Velha. O time hoje, de novo sem estádio e sem sede, resiste na categoria de amadores.

O América superou os números do Santo Antônio: seis vezes Campeão Capixaba, quatro vezes vencedor do Torneio Início, seis vezes dono da Taça Cidade de Vitória. O América faz lembrar o Americano, este de menor expressão: seis vezes vencedor do Torneio Início, conquistou apenas uma vez a Taça da Cidade e o Campeonato Capixaba.

Futebol era apenas um dos esportes praticados em Vitória. Tênis, remo, patinação e também basquete e vôlei – havia pelo menos duas canchas de basketball na ilha – movimentavam a cidade. Contemporâneos de Luiz Buaiz, como Firmiana Santos Neves, esposa do também médico Jayme Santos Neves, lembram que no Parque Moscoso havia rinque de patinação e quadra de tênis.

Os clubes Saldanha da Gama, Álvares Cabral e Náutico Brasil competiam nas muitas regatas organizadas na cidade. Barcos capixabas disputavam campeonatos nacionais e não foram poucas as vitórias. Wilson Freitas, por exemplo, foi vice-campeão na regata internacional de Grunau, na Alemanha, em 1936. Aliás, Wilson Freitas se destacou tanto que emprestaria seu nome ao Ginásio de Esportes do Saldanha, construído ao lado da sede do clube, no Forte São João.

O Ginásio Wilson Freitas foi palco de jogos memoráveis de vôlei, de basquete e de handball. E de muitos festivais de música. Os Jogos Estaduais aconteceriam todos os anos, nas décadas de 1960 e 1970, no Wilson Freitas, com lotação esgotada e muita repercussão.

Luiz Buaiz lembra-se com admiração de João Arruela Maio, filho de pescador, remador do Álvares (nove vezes campeão capixaba pelo clube), que foi bicampeão sul-americano (venceu em Valdívia, no Chile, em 1952, e na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, em 54) e chegou a participar da Olimpíada de Helsinke, em 52, disputando na companhia de Harry Mosé e Chiquito Furtado. Correu nos páreos “dois sem” e “dois com”. Foi derrotado porque a equipe viajou sem barco. Embora o governador Jones dos Santos Neves tivesse autorizado a compra de um skiff alemão Pitmann, lembra Luiz Buaiz, o fabricante atrasou a entrega. Os capixabas, representando o Brasil, entraram na competição sem conhecer o barco e perderam.

Para Luiz Buaiz, Arruela é um ídolo incomparável, como atleta e como treinador. Ele demonstrou isso até mesmo quando brigou com o Álvares e foi para o Saldanha, levando uma equipe inteira. Ficou lá dois anos, como treinador, e venceu todas as modalidades. Feitas as pazes, voltou como treinador ao seu clube, que então venceu de novo.

O Álvares é um clube especialmente querido para Luiz Buaiz porque seu pai, o Sr. Alexandre, remava lá. A propósito, o clube, para homenageá-lo, deu o seu nome a um dos barcos da equipe cabralina.

Durante décadas a multidão se postava no trecho que ia do Cais do Imperador ao Éden Parque para assistir às regatas. Depois, assim que começou a ser construída a Beira-Mar, se deslocou, foi caminhando até chegar à Curva do Saldanha, onde passava o bonde. O aterro obrigou ao deslocamento: o lugar ficou um perigo com a contenção de parte da baía com “blocos ciclópicos”, como a imprensa local denominou os realmente imensos blocos de pedra aparada.

Com tantas opções numa cidade tão pequena, e com o exemplo do pai, seria de pensar que Luiz Buaiz fosse se apaixonar por esporte. Se não como atleta, ao menos como torcedor. Não foi assim. Teve muitas amizades no Náutico, no Álvares, no Saldanha, no Caiçaras, mas clube, para ele, era apenas para bailes – gostava muito de dançar fox – festas, confraternizações com amigos.

Dançou muito ao som de Smile, de Charles Chaplin. É uma música de que gosta tanto que faz parte de uma coletânea em que entraram também Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto e Altemar Dutra. “Altemar Dutra, amigo de Adalberto Simão Nader.” Esse tempo de jovem frequentador de bailes que nunca bebia nem fumava, ele resume assim: “Foi o período mais gratificante da minha vida.”

Os bailes do Álvares Cabral, o clube da Praça Independência; os bailes do Saldanha da Gama, no Forte São João; os bailes do Náutico Brasil, na Vila Rubim, e os do Caiçaras, em Santo Antônio, eram tão movimentados quanto os do Club Victoria. Nas regatas, como nos bailes, os clubes eram saudáveis adversários.

As “festas dansantes” do Club Victoria, que reuniam a “sociedade em suas dependências aristocráticas” foram muito frequentadas por Luiz Buaiz. A imprensa local cobria os eventos, como fez a Revista Chanaan. Sobre uma das noites no clube, em 1936, a revista destacou: “A última festa dansante revestiu-se do fulgor tradicional às suas soirées elegantíssimas. De accôrdo com o ambiente, de polychromia bizarra, a afluência foi a mais interessante. Os elementos representativos de nosso set ahi se encontravam numa elegante reunião, sob a festa das luzes e das cores, com a mocidade capichaba em torno, volteando ao som da orchestra, que encheu de rythmos o amplo salão.” E finalizou: “Senhoras e senhorinhas, homens da administração pública, industriaes, artistas, intellectuaes, commerciantes, banqueiros, todo um conjunto de expoentes de varias actividades, que pela distinção se coordenam, ahi estavam, numa harmonia integral, tornando a séde do elegante Club capichaba um centro de solidariedade cavalheiresca.”

O Club Victoria – que nasceu e morreu ali no Parque Moscoso – era o clube da família Buaiz. Como lembra Edma, secretária no Grupo Buaiz desde o fundador, Sr. Alexandre, “o Dr. Luiz Buaiz frequentava o Clube Vitória, o clube da elite, como a família dele”. E ele não esqueceu os bailes e os Carnavais memoráveis que ali viveu. Luiz Buaiz lembra o Bloco Cocktail de Risos, o Quebrando a Banca, o Bando da Lua. Lembra os bailes infantis e as marchinhas, como as do Carnaval de 55, quando Blackout e Jorge Veiga foram as sensações. Blackout, informando: Maria/ escandalosa/ desde criança sempre deu alteração/ Na escola/ não dava bola/ só aprendia o que não era da lição. E Jorge Veiga, pedindo: Tira essa mulher da minha frente/ Senão me acabo/ Senão me acabo. Era uma diversão sadia, como destaca. As transgressões carnavalescas se resumiam a acionar o mecanismo das ampolas de lança-perfume para que o jato gelado de éter assustasse os foliões.

Os tempos mudaram, mudou a ortografia, mas na memória de Luiz Buaiz as lembranças são nítidas: “Quantas madrugadas eu passei no Saldanha da Gama e vi o sol nascer, cantando músicas como As pastorinhas, que trazem uma lembrança inebriante pra quem viveu aquele tempo.” Embora filho da elite do Parque Moscoso, ele tinha também título de sócio do popular Saldanha da Gama.

Luiz Buaiz já havia esquecido, mas Arabelo do Rosário faz questão de contar que quando presidiu o Clube Náutico Brasil, a atuação do amigo médico contribuiu para o sucesso de sua gestão. “Apesar de se tratar de um local de encontro da classe média, prestávamos no clube muitos serviços à comunidade. Entre eles, na área de Saúde. Nesse ponto o Dr. Luiz Buaiz ajudou bastante, sempre de graça”. A contribuição rendeu-lhe uma homenagem: o nome do Departamento Médico era ‘Luiz Buaiz’.

 

PRODUÇÃO

 

Copyright by © Luiz Buaiz – 2012

 

Coordenação do Projeto: Angela Buaiz

 

Captação de Recursos: ABZ Projetos

 

Texto e Edição: Sandra Medeiros

 

Colaboraram nas entrevistas:

Leonardo Quarto

Angela Buaiz

Ruth Vieira Gabriel

 

Revisão: Herbert Farias

 

Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros

 

Editoração Eletrônica: Rafael Teixeira e Sandra Medeiros

 

Digitalização: Shan Med

 

Tratamento de Imagens: TrioStudio; Shan Med

 

Fonte: Luiz Buaiz, biografia de um homem incomum – Vitória, ES – 2012.
Autora: Sandra Medeiros
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2020

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