Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Luiz Buaiz - A política reserva boas e más surpresas

Dr. Luiz, Marinho Delmaestro, Jair Garcia, Antenor Tavares e Setembrino: uma homenagem

A política, para Luiz Buaiz, trouxe mais decepções que alegrias. As disputas nas urnas e o mandato de deputado federal mostraram-se decepcionantes para ele, uma pessoa idealista, com princípios sólidos e muitos planos visando o bem comum. Luiz Buaiz ganhou uma eleição e perdeu outra. A experiência mereceu dele uma análise em que se posiciona com extrema lucidez sobre a maneira como a política é conduzida. Ressaltou os reencontros com velhos amigos e as novas e boas amizades, mas concluiu que jamais repetiria a experiência porque, para ele, fazer política é prestar serviço.

Sobre a sua passagem por Brasília, Luiz Buaiz tem repetido: “Os deputados desfrutam de uma condição de vida inigualável. Na Câmara a produção de um deputado é muito insignificante. O Governo só coloca para votar o que quer. Quando o Governo domina o Congresso do jeito que domina, não tem como não se arrepender da vida política. Foi uma experiência boa, fiz amizades, mas apresentei projetos que nunca foram ao plenário porque o Governo só vota o que quer votar”.

Luiz Buaiz nunca se furtou a criticar com vigor os desvios que constata: “Sou do tempo em que fazer política era prestar serviço. Vivi a ditadura de Getúlio Vargas, vi como as coisas foram se modificando. Hoje ninguém ganha eleição para deputado sem gastar R$ 2 milhões. E as consequências disso a gente está vendo aí. Não tenho mais desejo de ficar na vida política”.

Se não bastasse a sua formação sólida, os altos princípios éticos, o fato de haver atravessado um século deixa-o em posição privilegiada para apresentar uma análise feita com base naquilo que vem observando ao longo dos anos. Essas observações, não se cansa de repeti-las, como fez para o jornal eletrônico Folha Vitória, que pertence ao Grupo Buaiz: “Antes você era eleito por mérito. Fazia amigos. Hoje não tem mais amigos, o que se tem é inquilino do poder. Se você tem o poder econômico e político, você é cercado por muita gente. Quando perde, todo mundo se afasta, você vale zero. A sucessão de quatro em quatro anos piorou muito a política. Antes política era para servir, atualmente é para a pessoa se servir. Isso é fruto da sociedade que temos hoje. Não existe mais família, a mulher entrou no mercado de trabalho... Na minha época o homem era o provedor, a mulher cuidava dos filhos. A violência que está na rua é fruto dessa nova estrutura familiar. Tive a felicidade de ter uma família sólida. É por essas razões todas que o mundo foi se modificando e chegamos a um ponto insuportável.”

Quando Luiz Buaiz se candidatou pela primeira vez, já havia percorrido uma incomparável trajetória, como médico. Conhecidíssimo e respeitado, havia muito não tinha sequer como calcular a quantidade de pessoas que havia atendido (jamais parou para pensar nisso). Quando começou a mostrar suas propostas para a Prefeitura de Vitória, visitando bairros e fazendo comícios, ficou surpreso. Era muito grande a resposta positiva. No entanto, alguns amigos próximos, como Gutman Uchôa de Mendonça, temiam que o envolvimento político o levasse a esquecer-se de si próprio, ele que já dedicava, como faz até hoje, a maior parte do seu tempo aos outros: familiares, amigos, conhecidos e aqueles que o procuram no consultório. Gutman comenta: “Na campanha ele entrou levado por amigos, pelo PTB, para arranjar votos. Eu fui contra”.

Mariazinha Lucas, que durante décadas acompanhou Luiz Buaiz nos muitos institutos de previdência em que atuou, pensa diferente. Em momento algum questionou a decisão do amigo. Trabalhou para ele. Sofreu com a derrota de Luiz Buaiz na eleição municipal de 1996. Posicionou-se contra a própria família para apoiar o amigo: “Eu fiquei aborrecida e minha família rachou. Porque Luiz Paulo, meu filho, meus sobrinhos, Laércio, foram para outro lado, e eu não.

Ele perdeu por muito pouco. Eu fiz força para que Luiz Buaiz se elegesse, mas eu acho que o temperamento dele, o caráter dele, a bondade dele... Não dava pra ele ficar. Ele ajudava e nem lembrava mais de quem ajudava! A vida dele é ajudar os outros. É uma coisa muito difícil encontrar outra pessoa assim. Eu acho que ele nunca recebeu o reconhecimento que merece, como médico e como político.”

A maioria dos amigos foi favorável à candidatura. Todos, gostando ou não da ideia, estiveram ao seu lado. Adesivos, panfletos e santinhos povoaram, durante meses, o pensamento de Luiz Buaiz. O refrão do jingle da sua campanha foi uma febre: Luiz Buaiz é prefeito/ Luiz é capaz/ Luiz é Vitória/ e Vitória é Buaiz/ Eu amo Vitória demais!

Um dos panfletos circulou em julho de 92, dois meses antes da eleição, e conclamava a cidade a se agregar ao grupo que se autointitulou “Amigos do Luiz Buaiz”. Dos quatro parágrafos, dois sintetizam bem o pensamento que os norteava. O primeiro dizia: “Prezado eleitor, acabamos de formar um grupo que está preocupado com o futuro de Vitória e, consequentemente, com a indicação de um nome que possa assegurar, pelo seu passado e pela completa identidade com o povo e com os problemas da capital, uma administração municipal segura, correta e eficiente”. O que o segundo parágrafo acrescentava era definitivo: “A escolha não nos pareceu muito difícil. Após avaliar, serenamente, o comportamento de muitos de nossos homens públicos, chegamos à conclusão de que o perfil do futuro prefeito tem que ter a cara, a personalidade, a capacidade, a honradez e a sensibilidade humana de Luiz Buaiz.”

Não foi suficiente. Foi uma grande frustração para os amigos e para os familiares. A eleição perdida é lembrada ainda hoje. Pelo que conta Dóris, esposa do médico Arnaldo Ferreira, é possível avaliar como foi grande o envolvimento na campanha de Luiz Buaiz: “Somos amigos de uma vida inteira. Na campanha, chovia tremendamente e eu lá fazendo boca de urna. Ele tinha que ser eleito. Diante do trabalho dele, seria um coroamento”.

O médico Noé Silva, que sempre foi um eleitor convicto do amigo, também lembra que trabalhou bastante nas duas campanhas, a primeira para prefeito, a segunda para deputado federal. Na segunda Luiz Buaiz saiu vitorioso, mas Noé pondera que Brasília não deve ter feito bem a ele: “Ele foi deputado federal por apenas um mandato, não deve ter gostado muito do clima de lá. Ele sempre foi muito sério, por isso deve ter se decepcionado com algo”.

A atuação política de Luiz Buaiz também é lembrada pelo padre José Ayrola, capelão da Igreja do Carmo, outro eleitor fiel: “Ele sempre teve o meu apoio. Mas acredito que essa não era a vocação natural dele. Apesar de toda influência que conseguiu. Acredito que essa empreitada tenha surgido na vida de Dr. Luiz Buaiz pelo desejo de servir. Somente. Inclusive ele poderia ter se projetado mais pelo grande conceito que tinha no estado. Agora a vocação mesmo de Luiz Buaiz é a Medicina.”

A vitória na eleição para deputado federal é lembrada com um gosto especial por sua irmã Lourdes. Ela, que não se conformou com a derrota do irmão quando concorreu à Prefeitura da capital, conta que se sentiu de alma lavada: “Os chefes de família determinaram e todo mundo votou em massa. Foi uma coisa linda!”

Grande parte, se não a maioria, da classe médica apoiou Luiz Buaiz em suas investidas como político. Shariff Moisés foi um dos muitos entusiastas das candidaturas. Trabalhou firme como cabo eleitoral. Fez o que podia: na campanha para prefeito, acompanhou incondicionalmente o amigo e sentiu-se gratificado quando, verificando os índices da pesquisa eleitoral, constatou que logo após a visita ao Morro da Fonte Grande, onde havia nascido, a popularidade de Luiz Buaiz saltou de 2% para 28%. O desapontamento viria depois, mas estava consciente de sua contribuição.

A eleição e o prestígio político de Luiz Buaiz vêm à tona também em conversa com o médico Michel Assbú, que enfatiza, sempre que pode, que o amigo, dono de inigualável prestígio no governo Élcio Álvares, não pedia para si, mas para os outros. Assbú também considera de uma coragem sem precedentes a sua solidariedade aos colegas de classe presos na época da revolução.

Entre os políticos, três nomes com importante participação no cenário do Espírito Santo falam de Luiz Buaiz, como amigo, médico dedicado, benfeitor: Élcio Álvares, José Ignácio Ferreira e Nilton Baiano. Os dois primeiros chegaram a governar o estado. E Nilton Baiano foi deputado estadual e federal. Os três são bem próximos de Luiz Buaiz, e por isso falam, com propriedade, dele e de seu espírito humanitário.

 

PRODUÇÃO

 

Copyright by © Luiz Buaiz – 2012

 

Coordenação do Projeto: Angela Buaiz

 

Captação de Recursos: ABZ Projetos

 

Texto e Edição: Sandra Medeiros

 

Colaboraram nas entrevistas:

Leonardo Quarto

Angela Buaiz

Ruth Vieira Gabriel

 

Revisão: Herbert Farias

 

Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros

 

Editoração Eletrônica: Rafael Teixeira e Sandra Medeiros

 

Digitalização: Shan Med

 

Tratamento de Imagens: TrioStudio; Shan Med

 

Fonte: Luiz Buaiz, biografia de um homem incomum – Vitória, ES – 2012.
Autora: Sandra Medeiros
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2020

Variedades

A Escola Normal Pedro II

A Escola Normal Pedro II

É verdade que da Escola Normal restou o antigo e majestoso prédio, ao lado do Palácio Anchieta, com seus janelões e grandes portas e um pátio enorme cheio de árvores

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Sítio da Família Batalha – Por Edward Athayde D’Alcântara

Constituído de uma pequena gleba de terras de um pouco mais de três alqueires e meio (173.400,00 m²), fica localizado às margens do Rio da Costa

Ver Artigo
O Exército Brasileiro em solo Espiritossantense

A nova denominação de 3º Batalhão de Caçadores veio do Decreto nº 13.916, de 11 de dezembro de 1919, permanecendo com a mesma, até 24 de janeiro de 1949 

Ver Artigo
Praia do Ribeiro e Ilha da Baleia – Por Edward Athayde D’Alcântara

A ilha da Baleia no período do Brasil Império e Colônia foi considerada como ponto estratégico para defesa da Capitania

Ver Artigo
Capítulo III - A viagem a Capitania do ES pelo Príncipe Maximiliano de Weid-Neuwied

Maximiliano e sua comitiva partem rumo ao “desconhecido”, em de novembro de 1815

Ver Artigo
Técnicas de Confecção de Panelas de Barro

Todo o vasilhame destinado à queima é cuidadosamente coberto por pedaços de madeira, geralmente leves e bem secos. O fogo é ateado em uma das “cabeceiras da cama” dando início à queima

Ver Artigo