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Trianon: um souvenir - Por Luís de Almeida

Jucutuquara na época do Cine Trianon

Abrir um cinema em Jucutuquara, ora direis, acaso perdeste o tino. Pois vos digo que o Georges Henri Delanos perdeu sim e ergueu ali o Cine Trianon. E o Trianon, com jeito de armazém e fascínio de lanterna mágica, veio cavalgando arrojos, enfrentando o establishment do Glória e do Carlos Gomes, plantados em plena Praça Costa Pereira.

No final dos anos quarenta, se bem me lembro, só havia três coisas em Jucutuquara, tirante o valão a céu aberto da Paulino Müller: a gente jucutuquarense, a Escola Técnica de Vitória e o estádio Governador Bley. Pensando bem, creio que o próprio Frei Leopardi, com suas duas cavernas em forma de órbitas, somente apareceu depois, falo granítico em rictus nupcial.

Fradinhos, a montante, ainda era um sovaco da Mata Atlântica; Maruípe, logo a seguir, respirando bons ares silvestres, era lugar de clima para cura da tísica, ambiente rural onde cabritos à solta comiam do capim dos morros. O bonde, por exemplo, virava os bancos no final de Jucutuquara como se, dali, a civilização voltasse as costas a Fradinhos e Maruípe.

Postado em pachorrento vale, Jucutuquara — ou o buraco da coruja, se preferirem — tinha ainda outra particularidade: não era começo, nem fim, era meio entre o centro de Vitória e a Praia Comprida. E embora o trajeto de Jucutuquara ao Centro fosse o que ainda é, meia Avenida Vitória mais meia Jerônimo Monteiro (na época avenida Capichaba), nenhum cidadão que se prezava fazia, como não faz até hoje, esse trajeto a pé.

De forma que era de bonde ou de carro que se ia ao Cine Trianon. Mas se ia — eu fui, tu foste, todos fomos. Como deixar de ir?

Não ir era ficar submisso ao jugo da Empresa Santos, responsável pelo Glória e pelo Carlos Gomes, domínios hollywoodianos. Não ir era ferir o orgulho da nação jucutuquarense que se envaidecia da presença do Trianon dentro de casa. Não ir era, sobretudo, abdicar da janela que Delanos, com coragem gaulesa, havia aberto do buraco da coruja sobre a Europa, trazendo para Vitória a revolução neo-realista do cinema do pós-guerra. Aquilatai, senhores, este progresso.

Aquilatemos.

Graças ao Trianon tornaram-se inteligíveis, em Vitória, as críticas das colunas especializadas dos suplementos literários publicados nos jornais cariocas sobre o cinema europeu. Graças ao Trianon, Rosselinis e outros inovadores viraram tema de conversa de cinéfilos capixabas. Graças ao Trianon, e que me relevem o trocadilho, fez-se la Lumière em Vitória.

Compreenda-se por que o Trianon transformou-se no Cahiers du cinéma da minha geração, o elo faltante na minha perspectiva vanguardista de aldeão vitoriense.

O Trianon criou ainda guardados sentimentais. Nele, adolescente, perguntei a minha namoradinha se podia segurar na sua mão. Estávamos na matinê, a penumbra impunha atrevimentos, eu começava a me tornar um vanguardista. Ela respondeu que era cedo, e era. Suaves trianonices.

No Trianon, algum tempo depois, eu, meu irmão e meu pai assistimos a um filme que viraria cult, O terceiro homem. Bom de ouvido, bom de assovio, meu pai saiu do cinema assoviando o tema do filme, que também virou clássico.  

Meu pai se foi, o Trianon, idem. Hoje, porém, quando ouço a mesma música, lembro do terceiro homem no Trianon, naquela noite, junto a mim e a meu irmão.

 

 

Fonte: Revista Você – UFES – Ano I Nº 6, dezembro, 1992
Autor: Luís de Almeida
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2015

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