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A imagem de Nossa Senhora da Penha – Por Maria Stella de Novaes

Nossa Senhora da Penha

A imagem de Nossa Senhora da Penha, venerada no Estado do Espírito Santo, desde 1570, mede 76 centímetros de altura e conserva toda a perfeição da sua cor primitiva. Difunde uma expressão indefinível de ternura e majestade. Confirma o relato de Gomes Neto: — Parece atrair o visitante, em qualquer ponto da capela, como se percorresse, com o olhar, todo o recinto. Reproduzia, a princípio, as minúcias da imagem descoberta na Penha de França: — o Menino Jesus, no braço esquerdo, a cabeça coberta somente pelo manto, o vestuário, a mão direita em posição de bênção, etc. Atualmente, porém, a mão está presa ao tronco e a cabeça tem cabeleira, por motivos explicados noutros capítulos.

Não se tem notícia do artista que modelou a imagem do Menino Jesus, os braços e a cabeça da Virgem. Nem a época desse trabalho. Já vimos, atrás que o tronco foi talhado, em madeira do Monte, pelo próprio Frei Pedro Palácios. Trata-se, contudo uma obra prima, ponto em que diverge daquela e se justifica pela diferença da época do entalhe e conseqüente avanço da arte religiosa.

Conforme registramos noutra parte deste livro, as crônicas do Santuário da Penha, em Salamanca, não elucidam como foram parar, na gruta, a imagem da Virgem Maria e outras dentre as quais um Cristo Crucificado todas rústicas e imperfeitas. Existem apenas suposições baseadas na História.

De acordo com as referências da donzela de Sequeros, a imagem, da Espanha, se encontrava na gruta da Serra de França, havia mais de duzentos anos. Simon peregrinou, durante cinco anos, e chegou, à Penha de França, em 1433. Encontrou a imagem a 19 de maio de 1434, dez anos após as referidas profecias. Portanto, ela foi posta ali, antes de 1229. Talvez se relacionasse com a reação provocada pelo nestorismo e o III Concílio de Efeso (431), que o condenou. Foram causas de desenvolvimento verificado pela devoção a Nossa Senhora. Tentaram os hereges baní-la do seu trono glorioso; mas, os católicos reagiram e se afervoraram em venerá-la. Numerosos templos, dedicados a ídolos, converteram-se em igrejas que lhe foram consagradas.

No Puy, por exemplo, havia um grande templo consagrado a Mercúrio e para o qual o escultor Zenodoro modelou gigantesca estátua, antes do povoamento pelos romanos.

Da recusa de Nestório, em dar-lhe o título de Mãe de Deus, resultou ainda ser a Virgem Santíssima representada, por toda a parte, com o Menino Jesus nos braços.

O historiador do Santuário da Penha, em Salamanca, diz que "a imagem lá venerada corresponde bem à maior parte dos exemplares deixados pela Idade Média".

Contemplando a imagem de Nossa Senhora da Penha, de Vila Velha procuramos situá-la na iconografia cristã. Meditamos na evolução da inteligência humana, desde as suas primeiras manifestações artísticas, nas cavernas, quando o homem, conduzido naturalmente pelas suas faculdades psíquicas e pelo seu sentimento estético, tentava retratar, na matéria bruta, o que lhe impressionava o espírito. Do Quaternário Superior, quando se firmou a arte propriamente dita, pelo trabalho técnico, em esculturas de alto relevo, nas paredes das grutas e cavernas, figuras de marfim, sílex, rena, etc., culminando com a decantada Idade do Bronze, passamos aos reinos fabulosos da Assíria e da Pérsia, aos monumentos e à estatuária do lendário Egito, à Grécia, com a perfeição maravilhosa dos seus vasos e de suas esculturas, e a Roma, na imponência dos seus templos e preponderância dos seus ídolos, substituídos e suplantados pela grandeza do Cristianismo. Segundo Larousse, as primeiras igrejas não tinham imagens; eram apenas lugares de reuniões, porque se evitava, na religião nascente, tudo o que se relacionasse com o paganismo. "O verdadeiro templo é o coração do homem", dizia-se.

Este rigor, porém, teve duração efêmera. Às lutas desencadeadas pelos iconoclastas, seguiu-se o incremento ao culto das imagens. Converteu-se numa das principais formas da piedade e ornamentação das igrejas, relacionando-se intimamente com a liturgia. E os defensores das imagens, obrigados a justificar suas convicções, elaboraram uma verdadeira teologia vazada nas doutrinas neoplatônicas, que estabelecem relação direta, entre a imagem e o seu protótipo, aureolados pelo mesmo respeito.

Transformou-se, então, a arte religiosa, antes mais ou menos simbolista, e alcançou sua grandeza épica, sobretudo, com a arte bisantina. "As imagens do Salvador e dos Santos, os fatos do Antigo e do Novo Testamento, — diz César Cante — deram às artes os assuntos que até então lhes eram fornecidos pelo politeismo, conseguindo seduzir os bárbaros que empenhados em conhecer a significação das pinturas, não raro, alcançaram o conhecimento das verdades morais do Evangelho". Por isso, Gregório III, dirigindo-se ao iconoclasta Leão, o Isauro, dizia que, "mediante as imagens, que nos recordam a figura representada, elevamos o nosso espírito embotado e grosseiro".

Tudo isso, de certo, porque o espírito humano volta-se necessàriamente para o Belo e anseia pela intuição. Jamais lhe poderemos aniquilar ou comprimir as faculdades e o frêmito de criar, de realizar o que imaginou. Reage. Sobe. Atesta-o a iconografia profana ou religiosa, porque representar a revelação mais forte do poder criador da inteligência uma necessidade invencível do sentimento.

Sim, o homem precisa de ver, contemplar e conserva as figuras dos entes queridos, de tudo o que preza e do que se relaciona com o sobrenatural, com o Infinito! ... Recorre à poesia, quando a linguagem comum é incapaz de exprimi certos estados da alma e o apuro dos seus sentimentos; vale se da escultura e da pintura, para representar o que jamais poderia dizer e multidões compreender, sem esse recurso intuitivo. Poesia e iconografia são portanto irmãs; trilham mesma senda. Por isso, muito justamente, um arqueólogo disse que a "iconografia é a parte poética da arqueologia".

Gilbert e Chinchole, em "Les Origines", consideram as esculturas do Período Quaternário também uma brilhante manifestação da inteligência humana.

No Santuário da Penha, em Vila Velha, temos uma assertiva de tudo acima apreciado. Nota-se que o escultor anônimo procurou imprimir na imagem centenária uma expressão de ternura e majestade, que impressiona o visitante mais indiferente.

Ali, o historiador imparcial não somente encontra um relicário da história regional, como ainda uma fonte valiosa de estudos variados e interessantes.

Em 1723, Frei Agostinho de Santa Maria registrava: — "Tem esta terra do Espírito Santo duas coisas que a fazem muito estimada e ilustre em todo o mundo, por ser muito singulares. A primeira é a Serra de Mestralva, mineral de Pedra Iman...................

A segunda, que sempre merece ser a primeira, é a imagem de Nossa Senhora da Penha, cujo Santuário está situado uma légua da barra. Com a mesma virtude, e maior prodigiosamente resplandece este santuário da Senhora, porque é Maria pedra íman que atrai a Si todos os corações e ainda aqueles que parecem formados de aço".

("Santuário Mariano". T.X, liv. I, Tit; XXV)

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2016

Convento da Penha

 Fonte para a história do Convento da Penha e de Frei Pedro Palácios

Fonte para a história do Convento da Penha e de Frei Pedro Palácios

Crônica da Província Franciscana da Arrábida, que tem sua sede na serra portuguesa de mesmo nome, na península de Setúbal, ao sul de Lisboa

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