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Amor ao rio e aventura de Baixo Guandu ao mar

A fotógrafa Maria Fernanda e o Naturalista Paulo Randow - Foto: Nelson Gomes

O amor pela natureza já existia, mas a paixão pelo rio virou casamento em setembro de 2001. Sentado nas areias da foz do rio Doce na Vila de Regência (Linhares), Paulo Randow, professor e criador da ONG Alma do Rio, comprometeu-se a dedicar cinco anos de sua vida em defesa daquelas águas.

Ele comprou uma casa simples na vila de Regência e passou a viver parte de sua vida no local. Em 2004, inclusive, morou ali o ano inteiro. Para aproveitar mais intensamente essa relação, adquiriu um caiaque duplo, ao qual deu o nome de “Tranqüilo”, para com ele explorar a região da foz.

Logo fez sua primeira expedição, da ponte de Linhares até Regência (45 quilômetros), junto com a filha Adhara. E no bate-papo pelo caminho surgiu a idéia de incentivar mais pessoas a fazer o passeio, de extrema beleza.

Foi assim que comprou mais dois caiaques duplos, apelidados de “Cavalheiro e Escudeiro” e teve início o Passeio Ecológico Descida do Rio Doce, no qual turistas faziam percursos de 12 quilômetros, com duração de duas horas. Somente em 2003 foram mais de 400 turistas que remaram nas águas do rio Doce em sua companhia.

Em 2003, ele resolveu inaugurar a Descida do Rio Doce, em todo o percurso de Linhares a Regência. Foram apenas 25 pessoas a se aventurar. Em 2004, o número chegou a 200, pulando para 500 no ano seguinte. Em 2006, já com patrocínio da CVRD, Iema e Unimed Norte Capixaba, o evento chegou a mais de 600 pessoas, e só não pôde ser concluído devido à repentina frente fria que criou obstáculo para os remadores. Mas Paulo Randow foi mais longe.

Em 2005, realizou junto com dois outros canoístas (João e Jean) expedição de reconhecimento de todo o trecho do rio Doce no Espírito Santo, para implantação da Travessia de Baixo Guandu ao Mar, que este ano está sendo realizada em três etapas.

Em 6 de maio foi feita a travessia Baixo Guandu a Colatina. Em 17 de junho, de Colatina a Linhares, e 30 de setembro vai ser de Linhares a Regência. Nos dias 27 e 28 de janeiro, ele fez a expedição com cinco caiaques duplos para observar como um grupo se comportaria durante o percurso completo. Os 154 quilômetros foram feitos em dois dias.

Desde janeiro de 2006, a equipe ganhou o reforço da fotógrafa Maria Fernanda, que veio de Belo Horizonte para viver no Estado e começou a experimentar o prazer de remar. Desde então, desceu o rio Doce em vários trechos.

Ela teve a ousadia de remar junto com Randow de Baixo Guandu a Linhares em um só dia, vencendo 109 quilômetros, das 5 da manhã às 21h30, remando no caiaque oceânico batizado de “A Sereia e o Poeta”. E vale ressaltar: a filha Adhara continua a navegar, mas junto com namorado Djalma.

Sugestões para mudança de rumo

A beleza do rio Doce é indiscutível, mas navegar por ele também traz a observação de um cenário desalentador, na percepção do naturalista Paulo Randow. Ele aponta como principais problemas o desmatamento das matas ciliares, barrancos sendo carreados para o rio, e o pior: esgoto e lixo lançados diretamente no rio.

Mas com sua experiência, Randow também aponta alternativas para ajudar o rio. Para ele, um dos instrumentos é o tratamento de esgoto em cada residência, com o uso da biofossa e filtro anaeróbico, que é de baixo custo e que toda residência deveria ser estimulada a implantar.

Também seria importante promover a educação ambiental para que as pessoas abandonem o vício de lançar o lixo nas águas do rio por não saberem para onde o lixo é levado.

Outra mudança importante seria a redução das áreas destinadas à pecuária como aumento da fruticultura e recuperação de matas ciliares em locais críticos.

BELEZA

“O belo que surge em cada curva é o bem maior para nosso espírito. Mas o negativo acaba emocionando mais. A passagem pelo canal de esgoto em São Silvano, vendo as pessoas pescando bem junto ao esgoto, foi a visão mais terrível que já vi”, ressalta ele, que complementa, porém, como um alento de esperança: “O sol se pondo no meio do rio é uma visão encantadora.” Evidente, que com isto concorda Maria Fernanda.

Tartarugas são preservadas

Bem perto da foz do rio Doce, a 7 quilômetros de Regência, Linhares, a Reserva Biológica de Comboios é a base-mãe do projeto Tamar-Ibama no Espírito Santo, sendo uma das três primeiras do Brasil. Ela desenvolve atividades de manejo e conservação de tartarugas fêmeas, ninhos e filhotes, educação ambiental e pesquisas.

É responsável por proteger 37 quilômetros de praias semi desertas, trecho que, somado aos 72 quilômetros monitorados pelas bases de Povoação e Pontal do Ipiranga, concentra mais da metade das desovas registradas no Estado.

É o único ponto de concentração de desovas da Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) e o segundo maior da Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) no Brasil.

Lagoa Juparanã

Dentro da área de abrangência da bacia do rio Doce, em Linhares, há um conjunto de mais de 60 lagoas, sendo a mais importante a Juparanã, que tem 90 quilômetros de circunferência, 38 de extensão e profundidade de até 20 metros. É a segunda maior Brasil em volume de água.

Ao norte da lagoa está a ilha do Imperador, onde dois marcos registram as visitas de dom Pedro II, em 1860, e do presidente Getúlio Vargas em 1954, quando ele esteve no município para inaugurar a ponte velha, que leva seu nome.

Papagaio ganha sobrevida

O papagaio Chauá, muito comum em trechos da Mata Atlântica (na região Leste de Minas Gerais e no Espírito Santo), está ganhando sobrevida com um monitoramento realizado por técnicos ambientais da Usina de Aimorés.

Espécie em extinção, o pássaro – que tem porte médio e quando adulto chega a medir até 37 centímetros –, recebe identificação, registro, observação e acompanhamento por parte de biólogos especializados e estagiários selecionados, dos cursos de Tecnologia em Meio Ambiente e Biologia.

Seu nome científico é Amazona rhodocrytha e o bicho vive em florestas, onde alimenta-se de frutas. O papagaio tem dificuldades de sobrevivência devido à destruição de seu habitat e, principalmente, pela captura predatória para tráfico e comércio clandestino.

Caboclo Bernardo, o herói

O rio Doce também tem o seu herói. E sua bravura se deu exatamente no lugar onde o rio encontra o mar, no último trecho de sua existência. Foi ali na barra do rio, em Regência, que na madrugada do dia 7 de setembro de 1887, o pescador Bernardo José dos Santos, de 28 anos, ajudou a salvar 128 dos 142 homens que estavam a bordo do cruzador Imperial Marinheiro, que se chocara contra a ponta sul da barra do Rio Doce, a 120 metros da costa.

Para o ato de heroísmo, ele usou apenas uma corda, que segurou com a boca, para levá-la ao barco. Por quatro vezes teve de desistir, tanta a fúria das águas. Insistiu mais uma vez e chegou ao navio. Nela, muitos marinheiros se seguraram e conseguiram chegar à margem.

Caboclo Bernardo ainda ajudou a colocar uma chalana na água para salvar mais marinheiros, numa ação que varou a madrugada. Pela sua bravura, Caboclo Bernardo foi condecorado pessoalmente pela princesa Isabel.

Álvaro Aguirre, um pioneiro

Pouco conhecido entre os capixabas, o engenheiro agrônomo Álvaro Aguirre, que nasceu em Santa Teresa, no ano de 1899, e morreu em 1987, no Rio Grande do Sul, aos 88 anos, tem um dos mais importantes legados voltados para o trabalho de preservação da bacia do rio Doce.

Seus estudos em relação ao rio começaram em 1936, quando publicou “A Caça e a Pesca no Vale do Rio Doce”. O documento é uma coletânea onde o pesquisador apresenta um dos trabalhos mais completos já realizados a cerca dos peixes, da fauna e da flora da região.

Foi também um dos responsável pela criação da reserva de Sooretama, uma área de 25 mil hectares entre os municípios de Jaguaré, Linhares e Sooretama.

 

Fonte: A Tribuna, Suplemento Especial Navegando os Rios Capixabas – Rio Doce - 01/07/2007
Expediente: Joel Soprani
Subeditor: Gleberson Nascimento
Colaborador de texto: Nelson Gomes, Wilton Junior e Lívia Scandian
Diagramação: Carlos Marciel Pinheiro
Edição de fotografia: Sérgio Venturim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2016

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