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Anchieta e seus milagres – Por Adelpho Monjardim

Anchieta e os guarás

José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil, nasceu em San Cristovam da Laguna, na Ilha de Tenerife, nas Canárias, em 19 de março de 1534. Filho de José de Anchieta, natural de Guipúzcoa, na Espanha, descendia da nobre família dos Anchieta; a mãe, D. Mencia Diaz de Clavijo Llarena, era filha de Sebastião de Llarena, sobrinho do Capitão D. Fernando de Llarena, um dos conquistadores de Tenerife.

Aplicado aos estudos, desde a infância, Anchieta demonstrava aptidões singulares. Mais tarde os seus pais mandaram-no para a Universidade de Coimbra, fundada pela munificência dos Reis de Portugal.

A exemplo dos nobres de Portugal, a 1° de maio de 1551, Anchieta ingressou na Companhia de Jesus. A imensa devoção, o amor que dedicou às coisas da Igreja, o fato de horas inteiras orar de joelhos e acolitar missas seguidamente, combaliram-lhe as forças, causando-lhe dores atrozes, que o seu fervor de noviço silenciava. Para maior tormento e provação dos seus dias, uma escada caiu-lhe sobre as costas, tornando-as defeituosas, predispondo-o para a tuberculose. Tudo sofria por amor à Igreja. O único temor era o de ser forçado a deixar a Companhia. O Padre Simão Rodrigues, íntimo de Loyola, disse-lhe um dia: — José, não vos dê pena essa indisposição, que assim vos quer Deus. Estas proféticas palavras deixaram-no tranqüilo e consolado. Todavia o mal se agravava. Aconselhado pelos médicos, os Superiores mandaram-no experimentar os ares do Brasil, e assim Anchieta veio ter ao Novo Mundo.

A 8 de maio de 1553, o Terceiro Socorro de Missionários da Companhia de Jesus, com o Segundo Governador Geral do Brasil, D. Duarte da Costa, Pedro Luís da Grã, Superior, Padre Braz Lourenço, Ambrósio Pires e os Irmãos Antônio Blasques, Gregório Serrão, João Gonçalves, deixaram o Tejo rumo ao Brasil, vindo com eles Anchieta.

Depois de larga travessia, dois meses, chegaram à Bahia. Dali, em outubro de 1553, juntamente com o Padre Leonardo Nunes e outros, ele partiu para São Vicente. Nessa viagem naufragaram nos Abrolhos, ficando a nau varada sobre os recifes devido a borrasca. Posta a flutuar seguiram viagem, tocando em Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e finalmente em São Vicente, onde chegaram nas vésperas do Natal.

Inácio de Loyola acabava de elevar o Brasil a Província da Companhia de Jesus. O Padre Manuel da Nóbrega, então Provincial, tinha em mente prover a formação de futuros missionários na piedade e nas letras. Conhecendo os dotes e as virtudes de Anchieta, recebeu-o com muito amor. Depois da Epifania, determinou começar a casa de estudos, nos sertões de Piratininga. Entregou a construção aos cuidados do Superior Manuel de Paiva e de Anchieta, mestre de humanidades de doze companheiros, entre padres, estudantes, noviços e alunos externos.

"Foram José e seus irmãos os operários infatigáveis que ajudaram os índios a trazer do mato, às costas, a madeira para construir a igreja e as habitações de Piratininga. Foram eles também os artistas que adestraram os catecúmenos nos ofícios de pedreiros, carpinteiros e ferreiros; tão úteis como desconhecidos dos selvagens".

Assim nasceu a importantíssima São Paulo, a maior e mais populosa cidade da América do Sul.

Cedo se manifestaram em Anchieta os dons extraordinários de que era dotado. "Dirigindo os trabalhos da estrada de São Vicente para Piratininga, foi achado, em oração, alguns palmos elevado da terra, sem se importar com a pesada chuva que caía. Uma noite, apagando-se a candeia do Padre Amaro Gonçalves, saiu este a acendê-la e, ao ver os reflexos que vinham do cubículo do Irmão Anchieta, abriu a porta e o encontrou enlevado com as doces comunicações do Céu. O mesmo presenciaram dois religiosos a quem o Padre Amaro chamou para ver tão surpreendente maravilha".

Muitos os milagres realizados por Anchieta; assim como os sucedidos com ele, reveladores do seu estado de Graças.

Depois de largo peregrinar por Bahia, Rio e São Paulo, passou Anchieta ao Espírito Santo, onde viveu até aos últimos dias. A respeito conta-se a seguinte passagem: "Ainda no Rio de Janeiro, ele adoecera gravemente, afligindo seriamente os irmãos. Disse-lhes, então, Anchieta: — Ninguém se entristeça no Colégio, porque eu não morrerei desta vez, nem nesta cidade; no Espírito Santo me esperam meus últimos dias".

A exemplo do Rio de Janeiro e Piratininga, também no Espírito Santo Anchieta realizou prodígios memoráveis. Em Vitória, certa noite, muito tarde, mandou avisar aos defensores da cidade, que se preparassem, pois iam ser assaltados por corsários. Estes vieram, mas encontrando a cidade alerta, retiraram-se sem molestá-la. O mesmo sucedeu em outra ocasião, quando mandou repicar os sinos, avisando assalto.

Ao chegar ao posto de Provincial do Espírito Santo, já o seu corpo estava fraco e combalido. Passando o governo ao novo Superior, aliviado das responsabilidades, retirou-se para a sua Reritiba. Vindos dos longínquos sertões os índios foram recebê-lo festivamente. Comoveu-se o bom padre, que sabia chegada a sua última hora. De tal forma os seus padecimentos se agravaram, que pressentindo o fim pediu e recebeu o Santo Viático e a Extrema-Unção. Logo entrou em artigo de morte, assistido pelos religiosos que residiam na aldeia dos índios. Agonizou por meia hora, com tanta paz e quietude como se estivesse rezando. "Finalmente, pronunciando os dulcíssimos nomes de Jesus e Maria, adormeceu placidamente no Senhor, domingo, 9 de junho de 1597, aos sessenta e três anos de idade".

Com a morte do Apóstolo não cessaram os prodígios. Divulgada a notícia do seu passamento despovoaram-se as aldeias de índios. Homens, mulheres e crianças acorreram venerar os despojos do santo jesuíta.

De Reritiba, em procissão, foi transportado o corpo para Vitória. A frente a cruz, seguida pelo Padre João Fernandes e copiosa multidão de índios, que enchiam os ares com os seus cânticos fúnebres e lamentos. Sob sol inclemente o cortejo vencia por ásperos caminhos as quatorze léguas até Vitória. Sem um lamento, uma queixa, estóicos, cumpriam o piedoso dever. Sucedeu, na oportunidade, um portento divino: vindo não se sabe de onde, miríades de pássaros cobriram com as suas asas o fúnebre cortejo, acompanhando-o até o cair da noite.

O mesmo milagre, certa vez, sucedera no Rio Macacu, junto a um braço de mar. Estando Anchieta, com outros irmãos, em uma canoa, importunava-os de tal modo o sol, que um dos irmãos queixou-se a Anchieta. Este, avistando quatro guarás nas margens do mangue, disse-lhes na língua dos índios: — Ide, chamai vossos companheiros, vinde fazer-nos sombra! Foram e voltaram em formosa nuvem que se pôs sobre a canoa por espaço de uma légua, até que, entrando a viração. Anchieta os despediu.

Aqui, no Espírito Santo, histórica relíquia atesta os seus milagres, e fala da sua santidade. Na quatro vezes secular Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por ele construída, em Reritiba, atual Anchieta, na cela que lhe serviu de morada, existe a sua cadeira. Peça simples e mesmo rústica, porém dotada de poderes sobrenaturais. Quem nela se sentar alcançará uma graça. Se doente ficará curado.

A canonização de Anchieta é esperada com ansiedade. Possivelmente será alcançada com a próxima visita, ao Brasil, de Sua Santidade, o Papa João Paulo II.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2016

NOTA: A canonização de Anchieta se deu em 3 de abril de 2014, pelo Papa Francisco.

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