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Barra do Jucu - Bloco Surpresa

Carnaval Barra do Jucu - Fonte: Jornal A Gazeta, 20/02/2004

O carnaval da Barra do Jucu merece especial atenção, pois tem características de resistência popular, apesar de ter sofrido algumas transformações no processo de mediação e contato com as pressões da nova sociedade. Mantém, com muito vigor, a ironia, a irreverência e a crítica social e política. O carnaval na Barra protesta e conta histórias, como o congo fazia. É uma consequência deste, com músicas próprias.

Segundo Dona Darcy, no começo, quando ninguém conhecia direito o que era carnaval, o pessoal saía pelas ruas vestido com aquelas roupas rasgadas de quadrilha e tocando músicas antigas de carnaval, algumas até feitas na Barra. Quem tocava era Seu Írio e Noel, pai de Joel. Daniel Vieira dos Santos fala que seu pai, Domingos, fez uma sede de um cômodo no seu quintal, para fazer a festa lá. Eles bebiam cachaça e jenipapina. Não havia luz elétrica ainda.

Alguns anos depois, o carnaval começava a tomar corpo. Seu Chiquinho, com seu banjo, e Seu Írio, no violão, puxavam o bloco das mulheres, vestidas de ciganas. Dona Darcy, Dorinha, Ester e outras acompanhavam os tocadores. Geraldo diz que acompanhava esse bloco todo ano tocando seu reco-reco (trocou o congo pelo regional de Seu Chiquinho).

O maior bloco e mais antigo era o dos mascarados, que tinha um gosto especial para a juventude. Eles representavam os bichos do imaginário das pessoas daquele tempo em que a Barra era cercada de mato. “Algumas vezes acordamos na minha casa com bois ou cavalos forçando porta e janelas. Quando resolvemos transformar um brejo que tinha no fundo do nosso quintal, numa lagoa, encontramos ali um jacaré, dezenas de cobras da água, algumas mussuranas, centenas de marobás, camboatás e traíras. Fomos visitados por gambá, chupati, porco espinho, cágado e jiboia.” As crianças, principalmente, morriam de medo e corriam fugindo dos mascarados. Era interessante, pois as pessoas ficavam sempre querendo descobrir quem eles eram. Entretinham as pessoas e, segundo Valcy Vieira, era muito gostoso. “Eles se arrumavam no mato, faziam comida, acampavam, tomavam cachaça e o pau quebrava”.

Ainda segundo Valcy, um dos diretores do Bloco Surpresa, as máscaras eram feitas por eles mesmos, antes de chegarem estas feitas de borracha (1980). Faziam o molde de barro e encapavam com jornal e cola de trigo, feita com água quente.

A rua ficava cheia de mascarados correndo atrás das pessoas, se embolando, caindo, agarrando as meninas. As pessoas tinham medo mesmo. Acreditavam na existência de bichos papões e espalhavam histórias a esse respeito. Dona Darcy diz que até hoje morre de medo. Alguns sempre se destacaram pela criatividade e monumentalidade de suas fantasias: Bochecha, Toninho, Natural e Vitalino.

Nesse bloco, além dos mascarados, ia também a vaquinha, animal que existia em quantidade aqui na Barra e que eram criados soltos por aí. Toda semana Seu Alvino matava uma para vender retalhada. Para sua confecção, era escolhida uma caveira de vaca, sempre com chifres bem grandes e o corpo feito com uma armação de paus envergados, coberto de pano. Em 2001 fizeram a Vaca Louca, como sátira ao surgimento da doença bovina que tanto assustou a Inglaterra. De outra feita o neto de D. Geny, colocou o nome da avó numa vaquinha. Ela, quando soube, mandou o filho Manuel destruir a vaca com pauladas e, assim, aconteceu, para desespero do neto, que julgara ter feito uma homenagem.

Além da vaca, ia a mulinha para guiá-la. Era feita com um pau bifurcado e espuma para moldar. O cavaleiro tinha que se pintar todo de preto, com carvão e óleo queimado, pois os vaqueiros antigos eram escravos negros.

Incorporando a vaquinha, saíram, pelo que constatei nas entrevistas, primeiro Seu Dionísio de Itapuera; depois Seu Haroldo, pai de Valcy, e Seu Joel, atualmente Perereca. Na mulinha Oscar Valadares, a quem todos elogiavam – pintava-se de preto e colocava uma peruca pixaim, tipo “Nega Maluca” (tinha olhos azuis). Atualmente é Valter Balunga quem comanda, muito animado e alegre. Ele é também o responsável por uma sensacional quadrilha junina infantil que acontece todos os anos.

O pessoal também gostava de fazer uns monstros e bonecos para assustar mesmo. Paulo Nunes fez uma alegoria irônica sobre Pedro Grosso, que era um desses ladrões, que na fantasia do povo roubava dos ricos para dividir com os pobres.

O carnaval dos mascarados era acompanhado por bate lata. Os blocos organizados por batucada: banjo, cavaquinho e violão. Por anos a fio só participava o povo daqui da Barra. Até que um dia houve uma viagem das beatas da Barra à festa de Nossa Senhora de Aparecida, em São Paulo. Na volta, comeram comida estragada e passaram mal a viagem toda, borrando tudo (vomitando e evacuando no ônibus). No carnaval seguinte (1986), os mascarados resolveram fazer o “ônibus desarranjado”, com penicos e bacias penduradas, e inscrições, parodiando o programa pró-álcool, como “cagados no baile”, “movido a bosta” etc... Até a chamada das beatas, pelo nome, teve. O sucesso foi tanto que eles repetiram a dose no ano seguinte. Foi esse o marco inicial para a formação do “Bloco Surpresa”.

Logo após, dois pescadores dos mais folclóricos da Barra, João Rãrã e Esmerino Laranja, espalharam a notícia de que tinham visto um monstro marinho no mar da Barra. Saiu até no Jornal Nacional. Nas entrevistas, em sua empolgação, os pescadores usavam um linguajar tão pesado que o repórter teve que pedir-lhes moderação, mas não adiantou muito. Então, o grupo de mascarados resolveu fazer o monstro gigantesco, o monstro da Barra. Houve até dificuldade para passar sob fios de eletricidade. Ficou muito legal!

Nos anos que se seguiram, o bloco foi ampliando o seu campo de visão crítica para assuntos de nível municipal, estadual, nacional e internacional. Tendo como principais características a irreverência, a criatividade, a sátira nos enredos, alegorias e músicas, foram atraindo cada vez mais interessados. As críticas e referências extrapolaram as nossas fronteiras, lotando a Barra de turistas, havendo transmissão ao vivo até para o Programa do Faustão (TV Globo).

Outra característica interessante é que a batucada (Siri de Tamanco) passou a sair em cima de um carro de som, acompanhada de guitarra, baixo, teclado e com músicas e letras próprias, que abordam temas políticos e sociais, isso a partir de 1992. A introdução do trio elétrico foi fatal ao carnaval tradicional, instrumental, de Seu Chiquinho, que ficou anos parado e resurgiu há três anos (2002) incentivado por Lobão e Geraldo Pignaton, com a participação de Dulce, Marilena Soneght e minha mãe, Anita.

Outros temas abordados com o passar dos anos foram: a “Panela Marginal do Barrasil”, satirizando os políticos nacionais e colocando todos na mesma panela de pressão, na época do governo Sarney; o “Tartarumax”, gozando o Governador Max Mauro; a “Madalena do Jucu”, falando sobre o envolvimento da banda de congo da Barra com o cantor Martinho da Vila; o “Tanque You”, sátira sobre a guerra do Golfo, onde George Bush e Saddam Hussein estão na praia juntos e os soldados se matando; o “Ali Babarra” e o “Papa Imóvel”, mexendo com o Presidente Collor e o Governador Albuino, além da visita do Papa à Vitória; o “Vaso Alves”, ironizando o Prefeito local no caso do esgoto do Araçás; o “Mamadona e Michael Jegue na Terra dos sete Anões”, satirizando os super astros da música pop, e a CPI dos anões do orçamento; o “Avascalhação Brasileira”, mexendo com o Prefeito local e com o avião de muamba dos tetra campeões; os “Edir Macedo, Sivam e Vasco Alves”; “A trágica castração no motel”; o “Titamico”, onde os políticos naufragam; “500 anus do Brasil”; “2001 uma Lalaudicéia no Espaço” e em 2002 “Osama Bin Laden se escondeu na Barra”. As famosas máscaras que caracterizavam os políticos eram criadas por Áurea Pignaton. Hoje, Geraldo e Vinícius também saem-se bem no ofício.

Os foliões que deram origem a esse tipo de carnaval foram, desde meados do século passado, dentre outros: Oscar Valadares, Paulo Nunes, Giovani, Haroldo Vieira, Antônio Leão, Máximo Malta, Joel 40.

Hoje o carnaval não é o mesmo de antigamente, mas suas características principais estão muito mais visíveis. O carnaval cresceu, não é mais só para a comunidade; tem que atender também aos turistas, mas também muito do aspecto local, principalmente das músicas, que são todas feitas aqui e próprias para o tema do ano. Dentre os principais compositores destacamos o Coronel Calazans, Evandro Brega, Rubinho e Fernando Gomes, Valcy Vieira, Augusto Bonadiman Galvêas, Julinho Poeta ou Pé de Bicho e Geraldo Pignaton.

O “Bloco das Putas”, homens travestidos de mulher, sai no sábado de carnaval. Muito tradicional e divertido. O dos Mascarados, Vaquinha e Mulinha, na segunda-feira. O “Surpresa” sai domingo e terça. No sábado, antes do carnaval, sai o Bloco da Lama, onde os foliões se enchem de lama e vão para a rua atrás do carro de som. Dão uma volta pela Barra e seguem até a praia, onde acontece uma grande farra. Este bloco existe há uns dez anos e é muito aguardado pela meninada. A lama preta é retirada da lagoa no fundo do meu quintal.

No processo de embate e mediação, parece que a tradição barrense, nesse ponto, sai ganhando, com um carnaval crítico, irreverente, criativo e improvisado, sem cordão de isolamento recebendo a todos. Deixa de fazer certas concessões aos turistas, que pressionam exigindo uma coisa maior, organização arquibancada, etc. O improviso e a função jornalística que perdem a força no congo ganham no carnaval. A divulgação também é grande, tendo sempre uma cobertura ao vivo pelas televisões.

A diretoria e associados do bloco, que é registrado, mas ainda não tem CGC, é composta pelos seguintes nomes: presidente Carlos Magno de Queiroz (Lilico); vice-presidente Gentil Valadares; primeiro secretário Aerton Vieira dos Santos; segundo secretário Geferson Acosta de Oliveira; primeiro tesoureiro Erasmo Vieira dos Santos; diretor de divulgação Valcy Vieira e diretor de patrimônio Leandro Ribeiro (Délio Cuca). No ano de 2003, a diretoria foi reformulada devido a problemas na gestão anterior.

“Seria mais elogiável se o bloco contasse com mais associados e uma política autossustentável, no que cabe aos recursos econômicos, para fazer o carnaval, sem depender tanto das fontes externas. Já se caminha nessa direção, mas muito timidamente. Começaram a fazer festas-ensaios durante o ano, gravar CD, vender camisas e formar um patrimônio do bloco. A vantagem destas atitudes, segundo muitos componentes do bloco, é a definitiva independência, moral alta e certamente uma festa mais completa com os participantes conhecendo melhor as músicas. Falta adquirir o mais rápido possível um terreno para sede e estruturas sólidas para confeccionar os carros alegóricos. Com essa organização, os integrantes podem ampliar o bloco, sem perder recursos e materiais deste. Deixando claro em seus projetos o quanto devem precisar para esta prestação de serviço, que deve ser ocupação remunerada. Isso seria uma forma de geração de renda para a comunidade. Temos muita imaginação e pensamos grande como os pioneiros do Boi Pintadinho no Amazonas, que hoje são contratados para ajudar os carnavais do Rio e SP. Essa é a proposta e a atitude mais coerente com o espírito expansivo barrense.”

Segundo João Gualberto de Vasconcelos, centista político, o “Surpresa” é talvez o único bloco do Brasil no qual o carnaval, ao invés de mergulhar na alienação, lembra-se das mazelas que os políticos infligiram à população, e se conscientiza delas, satirizando-os, como se dissessem: “vocês sacanearam com a gente, mas a gente tá percebendo”. Esse lado sociológico talvez seja o grande charme do nosso carnaval. “Você ironiza os caras e conscientiza o povo”. É realmente muito criativo e isto tudo, sem ter muita consciência do que estão fazendo. Quem percebeu esse lado sociológico na irreverência foi um cientista político que está aqui, todos os anos, brincando com a galera. É um carnaval muito impessoal e folclórico. As pessoas criticadas não tem muito espaço para se defender. É a voz do povo se manifestando anonimamente em uma criação coletiva.

 

Fonte: A História da Barra do Jucu, 2005
Autor: Homero Bonadiman Galvêas
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2013 

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